Literatura danosa

domingo, julho 09, 2017

Ievguêni Zamiátin escreveu sua obra-prima, Nós, alguns anos depois da Revolução Russa de 1917. Mil anos após uma revolução que trouxe o Estado Único ao poder, os cidadãos são todos identificados por números, regidos pelo Benfeitor e cidadãos fazendo o trabalho da tecnologia, em vigiar seus vizinhos, através de apartamentos de vidro. Mas talvez sua principal contribuição para a literatura foi a de causar danos ao status quo.

Para a resenha de Nós, clique aqui.




Os trabalhos de Zamiátin eram satíricos e críticos, isso era evidente. Ele não foi o primeiro a criar uma distopia que satirizasse ou criticasse um estado totalitário - The Heads of Cerberus, de Francis Stevens (pseudônimo de Gertrude Barrows Bennett) foi a primeira, em 1917 - porém foi quem mais ganhou projeção com esse trabalho e que pavimentou a estrada para vários autores criarem seus enredos. Apesar de ter apoiado o comunismo, quando ele se estabeleceu como o poder hegemônico, Zamiátin logo passou a discordar de várias de suas políticas, em especial a censura com relação à arte. Foi em seu ensaio, "I Am Afraid", de 1921, que surgiu sua famosa frase:

A verdadeira literatura só pode existir quando criada, não por oficiais diligentes e confiáveis, mas por loucos, eremitas, heréticos, sonhadores, rebeldes e céticos.

Tal posição lhe custou muito nos anos seguintes, com a crescente censura sobre seus trabalhos, que passaram a ser ignorados pelas editoras. Ele precisou contrabandear uma edição de Nós para Nova York, para poder ser publicado, já que vinha enfrentando a morte literária em seu próprio país. É curioso notar como que para o Estado Único a arte é uma forma de heresia, já que ser original é se destacar dos outros e todos devem ser iguais. Brutalmente iguais. Desfigurantemente iguais. Poucos são aqueles que ousam reclamar, já que a confiança no sistema é absoluta. Tanto é que há um procedimento cirúrgico para remover paixão e criatividade do cérebro das pessoas. Uma trilogia recente que puxa a sardinha em Nós é Delirium, de Lauren Oliver.

Suas opiniões políticas o levaram ao exílio duas vezes. Uma, antes da Revolução de 1905, que modernizou o regime czarista e que o legou à solitária na prisão de Spalernaja. Em seguida, em retaliação à sua sátira "At the World's End", que foi recolhida e destruída, ele quase foi a julgamento e apesar de acreditar no coletivismo proposto pelo comunismo, Zamiátin era um severo opositor à repressão exercida sobre as artes em geral. É compreensível que as artes sejam a fuga de um sistema opressor, pois é por ela que críticas e desabafos são normalmente feitos.

O descontentamento do artista com o andar político da União Soviética acabou por desencantá-lo a ponto de fazê-lo escrever:

O hoje está condenado à morte - porque morreu ontem e amanhã renascerá. Tal é a lei sábia e cruel. Cruel, porque condena à insatisfação eterna aqueles que já vêem os picos distantes do amanhã; sábia porque a insatisfação eterna é a única garantia do eterno movimento para a frente, da criação eterna.

O que é interessante, pois encorajou muitos outros autores posteriores a escrever "literatura danosa", aquela que machuca e incomoda o tempo em que foi escrita e publicada. É uma literatura que combate o comodismo, a calcificação da sociedade, que quebra a crosta de ostracismo ao tratar das mazelas políticas e sociais que controlam as vidas das pessoas. Junto de Zamiátin, outros autores passaram a combater a utopia científica de HG Wells, a radicalização dos regimes, compondo enredos que não compactuassem com a veia política corrente, que na verdade batesse de frente com ela, que exteriorizasse os medos e anseios da população, envelopados no componente ficcional, às vezes extremo.

Zamiátin só seria publicado em seu país em 1988. Momento curioso para a publicação, coincidindo com um cenário de maior abertura política na União Soviética, colapso do Partido, seguindo a queda do Muro de Berlim, a abertura política e o fim do regime socialista. A força do trabalho do autor mostra que nem a censura consegue parar a literatura, em especial aquela que desvirtua o status quo. Quanto mais a União Soviética tentava abafar sua voz, mais seus livros eram contrabandeados, publicados no exílio, lidos nos becos. Literatura é como água, fica mais forte a cada obstáculo, rompendo barreiras e deixando marcas evidentes por onde passa.

Émile Zola disse que os governos suspeitam da literatura porque é uma força que lhes escapa. Como julgar uma obra que o critica, mas não lhe cita? Que lhe ataca e satiriza, mas se vale de animais para fazer isso, como o fez George Orwell? Literatura que compactua com um sistema opressor, preconceituoso, que massacra aqueles que não têm poder, não traz benefícios à sociedade, é apenas mais um componente do pão e circo virtual para impedir que as verdades sejam ditas. Talvez este seja o maior ensinamento deixado por Zamiátin.

Até mais.

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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