Resenha: Trilogia Delírio, de Lauren Oliver

sexta-feira, setembro 11, 2015

Você consegue imaginar uma sociedade sem amor? Consegue imaginar viver sem amor, sem mais ter o sentimento amoroso pelo o que quer que seja? E se no futuro jogassem no amor a culpa por todas as mazelas da humanidade e ele se transformasse em uma doença perigosa que pode deixar toda uma sociedade temerosa? Pois este é o mundo da Trilogia Delírio.



Delírio
Amor deliria nervosa. Taí uma doença mais temida que qualquer outra enfermidade que a humanidade já teve que enfrentar. A deliria foi a responsável, segundo o governo, por todo o tipo de mazela que banhou a humanidade de sangue. Por isso, nos Estados Unidos, ao chegar aos dezoito anos, todo cidadão precisa passar pelo procedimento de cura, a chamada Intervenção.


Lena tem uma mancha no passado da família, afinal sua mãe foi infectada pela deliria. Todos que conhecem a história gostam de lembrar do que aconteceu, pensando se a doença afligirá as filhas, sendo Lena a mais velha. Tendo crescido com essa vergonha, ela mal pode esperar pela intervenção, para se livrar de qualquer chance de contrair tal doença vil. Alguns dos velhos tabus sobre masturbação permeiam a deliria, como cegueira e loucura.

Lena e a amiga, Hana, vivem em Portland. Os Estados Unidos cercaram suas cidades e suas divisas para impedir a doença de entrar. As duas estão prestes a se formar, a passar pela Intervenção e esperam pela entrevista que sugerirá uma lista de pares com quem se casarão e viverão juntos para sempre. Sem a deliria, os casais não brigam, não se desentendem, então não há porque ninguém se separar. A tia de Lena, que acabou criando as sobrinhas após a morte da mãe e o sumiço do pai, sempre lhe lembra de seus deveres.

As pessoas que não passaram pela Intervenção e fugiram para além dos muros das cidades, que vivem na Selva, são chamados de Inválidos. E há todo tipo de lenda a respeito. De que voltaram para o estado selvagem, que copulam como animais, que são deformados. Há patrulhas pelas cidades e uma constante alienação sobre as pessoas para delatar vizinhos que apresentem comportamento anormal.

É muito bizarro ler o livro. A narrativa de Lauren é muito boa, temos as sensações de Lena e suas dúvidas, seus pensamentos. O ponto mais forte de Delírio foi quando a polícia deu uma batida na rua de Lena e ela precisou se esgueirar pelas casas para avisar a amiga Hana que estava em uma festa. A polícia colocou os moradores para fora e como um cachorro estava latindo e incomodando as pessoas, ele foi morto a pancadas. O dono não se importou, agiu como se estivesse vendo uma coisa qualquer. Lena fica horrorizada com aquilo. É o primeiro sinal de que há algo muito errado sobre a sociedade.

Pontos positivos
Distopia
Protagonista feminina
Críticas ao governo
Pontos negativos
Paquerinha
Partes arrastadas


Título: Delírio
Título original: Delirium
Série: Delírio
1- Delírio (2012)
2- Pandemônio (2013)
3- Réquiem (2014)
Autor: Lauren Oliver
Editora: Intrínseca
Páginas: 352
Onde comprar: Amazon


Pandemônio
O final do primeiro livro foi muito, muito tenso. E o começo de Pandemônio pode espantar as pessoas pela demora em engatar. Mas achei natural que demorasse, pois para Lena é preciso um período de adaptação para tudo o que ela está vivendo. Isolada do outro lado da cerca, sozinha, sem água ou comida, machucada e sem ter para onde ir, tudo é muito confuso.


Lena acorda em um abrigo dos Inválidos dentro da selva. Eles vivem em antigas construções, abandonados quando a deliria tinha atingido sua expansão máxima. A vida é difícil e Lena demora para se adaptar a este novo mundo duro e cheio de regras que Graúna, a líder, lhe impõe. Este começo devagar foi necessário para preparar Lena para a nova vida que levava. Porém senti falta de mais emoções da parte dela. Para quem passou por um final tão emotivo e intenso no primeiro livro, ela está é muito tranquila nesse segundo.

Mas a coisa melhora na segunda parte do livro. Lena agora é Magdalena, uma agente dos Inválidos infiltrada na ASD - América Sem Deliria - uma entidade fundamentalista que prega a castidade e a Intervenção cada vez mais cedo se for possível. Lena é ordenada a vigiar o filho do presidente da ASD, Julian Fineman, um jovem ativista da ASD. O livro acelera quando os dois são sequestrados. Mas nem tudo é o que parece nessa parte e isso deixa o final um pouco mais movimentado.

Pontos positivos
Distopia
Personagens femininas fortes
Críticas ao governo

Pontos negativos
Clichês irritantes
Paquerinha
Começa devagar


Título: Pandemônio
Título original: Pandemonium
Série: Delírio
1- Delírio (2012)
2- Pandemônio (2013)
3- Réquiem (2014)
Autor: Lauren Oliver
Editora: Intrínseca
Páginas: 301
Onde comprar: Amazon


Réquiem
E chegamos ao final da saga de Lena. Um clima de guerra civil se estabelece. O final do segundo livro mostra que a coisa vai piorar muito para todo mundo, de qualquer lado dos muros que estejam. Começamos a ter visões da vida da melhor amiga de Lena, Hana, que leva sua vida provinciana, onde nada muda, rodeada de luxo e por pessoas insípidas, que nada sentem.


O governo começa um ataque mais intenso aos Inválidos. Antes dizia que eles não existiam mais, porém agora começa a admitir que eles precisam ser exterminados. Para Hana, isso é um mero detalhe. Ela está tão envolvida nos detalhes de seu casamento com um importante sujeito de Portland que a lembrança de seus tempos com Lena estão quase esquecidos. Até que ela vê uma das primas de Lena na rua. Estava suja, magra, uma moradora de rua.

Enquanto isso, Lena continua com os Inválidos rumo a um acampamento seguro. Ela se envolveu com Julian, que agora anda com eles e que está muito bem, o que é de estranhar já que quase foi morto e que viu o pai morrer. Enquanto isso, um antigo fantasma da vida de Lena retorna e ela se vê presa às lembranças que essa pessoa lhe traz. Esse imbróglio enche o saco por boa parte do livro. Mas em meio a tudo isso, eles planejam um ataque em Portland.

Senti que Lauren perdeu a mão conforme escrevia essa trilogia. Enquanto a mecânica do primeiro livro e até uma parte do segundo vão muito bem, obrigada, o terceiro desce a ladeira. A vida de Hana acaba se tornando bem mais legal do que da protagonista. E não é a primeira vez que vi isso sendo feito. Em Divergente foi feita a mesma merda com Tris. O final do livro é o mais irritante. NA-DA se resolve. NADA.

Pontos positivos
Distopia
Protagonista feminina

Pontos negativos
Final em aberto
Personagem perfeita



Título: Réquiem
Título original: Requiem
Série: Delírio
1- Delírio (2012)
2- Pandemônio (2013)
3- Réquiem (2014)
Autor: Lauren Oliver
Editora: Intrínseca
Páginas: 303
Onde comprar: Amazon


Ficção e realidade
Apesar dos problemas, a trilogia traz uma reflexão muito interessante e uma ótima alegoria para se discutir fundamentalismo. Extirpar o amor das pessoas deixaria o que no lugar? Sem a capacidade de amar será que a sociedade não cairia ainda mais rápido do que antes? Criminalizar um sentimento foi a maneira errada que o governo achou de manobrar os problemas sociais, o que acabou gerando um país inteiro de zumbis. Eles são apáticos, mal conversam. Casais não se beijam, nem dão as mãos.

Se você não tem a capacidade de amar, será que terá empatia? Pelo visto não, já que alguns dos eventos dos livros mostram que as pessoas realmente estão pouco se importando com o que acontece com os outros. A trilogia poderia, porém ter se aprofundado nas questões fundamentalistas que regem o país, mas como final ficou bem ruinzinho, a gente nunca vai saber o que aconteceu ou se o governo caiu.


Avaliação
Se a autora tivesse seguido com a qualidade do primeiro livro, o final da trilogia até poderia ter sido salvo. Infelizmente, ela optou por desandar a massa que crescia muito bem e entregou uma trilogia bem mediana, que tinha muito potencial para operar. Foi uma maneira criativa de discutir vários problemas sociais ao estipular que o amor é uma doença, mas ela se perdeu no terceiro livro e danificou todo o resto. Três aliens apenas.


Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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James W. Harris