Resenha: Kindred, de Octavia Butler

quarta-feira, março 22, 2017

Este é um dos livros mais difíceis que já li. A narrativa de Octavia é contagiante, precisa, e justamente por isso que o enredo de Kindred é tão doloroso, tão certeiro e importante. Considerado um clássico e assunto corriqueiro em aulas de literatura, ele ainda é praticamente desconhecido do público brasileiro, por não ter sido traduzido. Ainda! A editora Morro Branco anunciou que está cuidando com carinho de Octavia.

Este é mais um livro do Desafio Literário 2017!



O livro
Dana e Kevin mudaram-se para uma nova casa. Era seu aniversário, mas Dana estava cansada da mudança e não queria nenhuma comemoração. Tudo ainda está empacotado quando Dana começa a sentir uma tontura inexplicável, náuseas, a visão fica embaçada e de repente ela é transportada dali. Em um piscar de olhos, ela não está mais em casa. Está em uma floresta, ajoelhada na grama, ao lado de um rio, onde vê uma criança se afogando.


Dana socorre o garoto, faz respiração boca a boca nele, ignorando os protestos da mãe transtornada e quando avista um homem munido de uma espingarda, Dana sente o mal estar novamente e quando vê, está de volta ao chão de sua casa, ao lado do marido. Pouco tempo depois, ela viaja novamente. Dana começa a notar que ela está no passado, em algum tipo de fazenda e conhece o garoto que ela tinha salvado apenas no dia anterior, Rufus. Ele é filho de um fazendeiro, dono de escravos. Dana não sabe como ela faz a viagem através do tempo e do espaço, mas cada vez que Rufus está em perigo e corre o risco de morrer, ela é enviada para interferir.

Mas por que Dana? O que ela tem de especial e qual sua ligação com o garoto? Rufus é um de seus mais antigos ascendentes. Sua família se origina diretamente dele. Dana é negra, Rufus é branco. E ela é obrigada a viajar para o passado, quando negros eram escravizados e brutalmente castigados e caçados, para salvar a vida do rapaz. Rufus não entende como Dana aparece para salvá-lo, mas começa a simpatizar com ela.

Como uma negra do século XX seria recebida no passado escravagista? Foi inevitável pensar na situação. Se eu voltasse para o passado, seria vista como inferior e pouco inteligente por ser mulher, sendo um mero objeto. Mas a perspectiva de uma mulher negra seria totalmente diferente, pois além da misoginia tem também o racismo. E Dana sabe disso. De maneira tímida, ela tenta ensinar algo de bom para Rufus, algo que possa tornar sua vida e dos escravos de Rufus mais fácil, mas entre suas indas e vindas entre passado e presente, Rufus cresce.

O tempo varia muito para seu retorno. Cada vez que ela volta, Rufus está em uma situação perigosa diferente. Quando ele já está adulto, Rufus começa a demonstrar que é muito mais parecido com seu pai do que Dana achava. O menino quase inocente parece aos poucos estar sumindo. Rufus se torna controlador, abusivo, irritadiço, que acredita que Dana é sua propriedade.

Kevin, você não precisa bater nas pessoas para tratá-las com brutalidade.

Página 100

Dana muitas vezes se sente frustrada por ter que proteger alguém tão ignorante quanto Rufus, pois sua própria existência depende disso. Ser conivente com o estupro e com a violência, ou sua parente não terá como nascer. E entramos em uma parte difícil, pois nossas próprias histórias também estão recheadas de situações assim. Na linhagem de nossa família, como podemos ter certeza que nunca houve estupro, antissemitismo, escravidão, homofobia? A diferença é que Dana conhece isso de antemão, junto de seu marido, que a acompanha em uma dessas viagens.

A escrita de Octavia é incrível. Direta, sem floreios, você não se perde na leitura. Ela nos leva pelos tortuosos caminhos que Dana precisa seguir para se manter viva e para proteger alguém odioso. Vivencia a escravidão, um período vergonhoso e violento da história humana que não pode ser esquecido ou minimizado. Dana vive uma situação singular. As pessoas na fazenda de Rufus consideram que Dana é mais branca que negra. Rufus acha que Dana não conhece seu devido lugar. Claro, para eles, Dana é rebelde, pois é instruída, uma escritora, alguém que sabe se defender e conhece seus direitos. É um perigo deixá-la entre os escravos da fazenda.

Fazer com que Dana viaje ao passado para proteger um parente é também uma forma de escravidão, já que Dana não controla a viagem. Ela é enviada, independente de onde esteja, tanto que em seu tempo atual, ela não sai de casa, não dirige, temendo o que possa acontecer se Rufus se meter em confusão de novo. Ela vira escrava do tempo, sendo retirada de seu lugar e enviada a outro, como aconteceu com tantos povos africanos enviados às Américas, à força.

Minha edição física tem um apêndice no final, com uma análise literária e com questões para se trabalhar em sala de aula. Achei isso muito bacana, pois é um livro de grande importância para a ficção especulativa. É uma pena que ele esteja chegando ao Brasil com tanto atraso.

Ficção e realidade
Kindred possui muitos assuntos para se discutir, muitos. Eu não conseguiria contemplar todos eles aqui. É impossível não associar a imagem de Dana com a da própria Octavia, pois Dana também é escritora. Uma vez, Octavia disse:

Comecei a escrever sobre poder já que eu tinha tão pouco dele.

Mesmo quando lhe disseram que negros não podiam ser escritores, Octavia não se contentou com tal destino e persistiu. É uma pena que suas histórias tão pertinentes nunca tenham tido uma adaptação para o cinema. Por que será? Ela toca na ferida com força demais? Foi impossível, e seria hipocrisia da minha parte, não enxergar meus privilégios, que Octavia arremessou contra a minha cara neste livro. O que mostra que sua fala não mudou uma vírgula desde a publicação de Kindred no final dos anos 70. O mundo avançou, mas falta muito ainda. Basta ver o que fãs incomodados fizeram com o Hugo Awards.

Pontos positivos
Dana
Viagem no tempo
Grande análise sobre escravidão e misoginia
Pontos negativos
Não tem em português (ainda!)


Título: Kindred
Autor: Octavia Butler
Editora: Beacon Press
Páginas: 306
Ano de lançamento: 2004
Onde comprar: Amazon



Avaliação do MS?
Sabe aqueles livros que mudam vidas? Kindred é desses livros. Além de termos uma mulher viajante do tempo, algo que foi pouco trabalho na ficção científica, temos uma discussão primorosa sobre racismo, escravidão, como muitos negros acabavam institucionalizados ou não teriam como sobreviver, violência, estupro e machismo. Nem sempre é fácil passar por essas partes, mas o livro é muito importante, talvez uma das obras mais importantes do século XX. Selo essencial e uma forte recomendação para você ler também.

Até mais!

Já que você chegou aqui...

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





Leia esses também...

1 comentários

  1. Eu li esse livro esse mês também e achei incrível. Agora me surpreendeu mesmo foi saber que o livro é dos anos 70 e eu nunca tinha ouvido falar, nem tem tradução. Que bom que estão providenciando.
    Achei a historia da Dana incrível e muito bem escrita. Comecei a ler livros em inglês agora e posso dizer que esse livro foi um ótimo começo pra treinar. Não fica chato, só mais interessante. Ao mesmo tempo, senti uma dor terrível em alguns momentos, a temática toca mesmo na ferida.

    Estou fazendo o mesmo desafio literário, foi maravilhoso ler um livro com protagonista não branca. Quero ler muitos mais!

    ResponderExcluir

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.
O mesmo vale para comentários:
- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.
A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.

Curta no Facebook

Viajantes