Doppelgänger

segunda-feira, outubro 10, 2016

Um dos mais interessantes livros que li este ano foi Dark Matter, de Blake Crouch (que parece que será traduzido para o português pela editora Intrínseca e que terá resenha aqui). No livro, um físico cria uma maneira de viajar entre as diversas e infinitas realidades paralelas. E claro, que ele encontra seus doppelgänger com frequência.

Arte de Kate Radomski



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O livro explica bem a teoria por trás da tecnologia e tira várias dúvidas sobre o Gato de Schrödinger e como se aplica ao enredo, mas não posso dar muitos spoilers, até pra não tirar a graça do livro, que é muito bom.

Doppelgänger vem do alemão e quer dizer, basicamente, duplicata. Segundo as lendas germânicas, ele é um monstro ou um ser fantástico que tem o dom de representar uma cópia idêntica de uma pessoa que ele escolhe ou que passa a acompanhar, o que hipoteticamente pode significar que cada pessoa tem o seu próprio.

A ficção científica e a fantasia já trataram com alguma frequência a interação de doppelgänger em enredos. Seja na forma de alienígenas ou seres de luz, ilusões mentais, mecânica quântica, demônios e fantasmas, temos dentro da ficção especulativa uma salada mista bem curiosa de personagens. Mas é interessante analisar isso pela Física. E se a Física admite que existam realidades alternativas praticamente ao infinito, então você também teria milhões de doppelgänger por aí.

Assustador, não? Pensar que você existe em paralelo com o outro e que uma dimensão nos separa de nossos milhares eus. Somos a mesma pessoa? Somos, não é? Ou não? É o meio que nos define? Se em uma realidade paralela um asteroide acertou o planeta, que entrou em um inverno intenso com a camada de cinzas na atmosfera terrestre, será que minha 'eu' dessa realidade sobreviveu?

E em uma realidade em que a raça humana seguiu o rumo certo e conseguiu chegar às estrelas, erradicou doenças e miséria, como eu estaria? Eu poderia ter me formado em Medicina, como queria quando era adolescente em algum mundo desses?

As implicações são gigantescas. Segundo Dark Matter, o que nos impede de ver e transitar pelas diversas realidades paralelas e alternativas é orgânico. E até é uma forma de proteção. Já pensou você ser capaz de existir em quatro dimensões? Nosso cérebro nem teria, acredito eu, a capacidade de processar esse tipo de informação. Alguém poderia simplesmente enlouquecer.

Tem horas que eu não aguento minha própria presença, o que dirá aguentar minhas doppelgänger? Não consigo pensar em uma eu, em uma realidade alternativa, sendo eu. Não sei se consigo me fazer entender, mas esta realidade aqui me moldou de uma forma. Um planeta distópico me moldaria de outra maneira, um planeta utópico, de outra maneira, mesmo que todas sejamos a mesma pessoa.

Isso também nos dá uma pista sobre a formação da identidade. Nossas experiências, acumuladas com a vivência com outras pessoas, o aprendizado, a escola, os relacionamentos, as situações, tudo isso influencia em nossa identidade. Em Stargate SG-1, algumas vezes, é possível burlar a tecnologia do portal que garante que acidentes bizarros não aconteçam. Em um desses acidentes, todas as equipes SG-1, de várias realidades paralelas, começam a chegar na realidade dos nossos heróis. E só depois eles descobrem que quem fez aquilo foi outra equipe que, sem escrúpulos, queria roubar uma fonte de energia importante para o mundo deles. Eram as mesmas pessoas, mas agindo por motivos torpes, querendo roubar tecnologias de outras realidades. Que tipos de conflitos teríamos?

Não é apenas na esfera pessoal que a coisa complica. Viajar para realidades paralelas te apresentaria a parentes, amigos e conhecidos que aqui, nesta aqui onde estou escrevendo isso, já morreram. Ou você pode encontrá-los mortos lá na outra realidade. Imagine chegar em um lugar assolado por uma epidemia? Você acabaria levando para outras realidades qualquer doença que estivesse contigo. Até uma gripe poderia ser fatal se, por alguma razão, a Europa não tivesse colonizado as Américas e você atravessasse o portal para o planalto de Piratininga, onde hoje fica São Paulo.

Sliders foi outra série que abordou bem essa questão. Eles tinham condições de "deslizar" entre essas realidades paralelas com um portal que abria em determinados horários. E tudo o que eles queriam era voltar para sua realidade original. Às vezes, eles caíam em lugares com tão poucas diferenças de sua realidade original que quase ficaram no lugar errado. Em um episódio, eles chegam nos Estados Unidos dominado pela União Soviética e em outro, um mundo onde o matriarcado é a forma vigente e os homens têm dificuldades de arrumar emprego e são objetificados. Em uma realidade alternativa, os dinossauros não foram extintos e convivem com os humanos.

Se nossas escolhas abrem um novo ramo na imensa árvore de possibilidades da Física, pense na quantidade de infintas realidades paralelas por aí e no quanto você existe fora dessa nossa realidade. Saber que cada decisão pode virar um novo ramo, que até uma falta de ação pode levar a outro mundo, é bizarro, opressor até. É comum alguns enredos mostrarem a preocupação dos personagens com pessoas queridas em outras realidades. Mas lembre-se: o meio também moldou aquelas pessoas de maneira diferente. Elas podem não ser tão queridas lá do outro lado. Inclusive podem nem te conhecer naquela realidade. E já temos problemas demais nesta realidade aqui para nos preocupar com as outras.

Até mais!

Já que você chegou aqui...

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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3 comentários

  1. Eu tenho uma certa dificuldade com essa história de multiplos em outros universos. Eu entendoo conceito de que se existem infinitos universos, existem diversos mundos que se desenvolveram exatamente como o nosso, ok. Mas pq isso resultaria numa pessoa exatamente como eu. Talvez em questão de aparência sim, mas não sei, Mesmo os lugares serem os mesmos me parece estranho. E tem a questão do tempo, essas pessoas existem ao mesmo tempo que eu? Tá, eu sei que se existem infinitos mundos, existem infinitas possibilidades, mas... Talvez um duplo meu entanda isso em algum lugar muito distante daqui ^^

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  2. Já parei para pensar nos aspectos que contemplas neste texto, e realmente, seria complicado se nos encontrássemos com outros "nós" em outras dimensões, e como escreveu o Fael aí em cima, imaginar que talvez os tempos em que nossos "outros nós" existam possam ser outros. E as interações com a sociedade, o comportamento dos que aqui nesta realidade conhecemos como família e amigos, como seria? Até ficar muito tempo imaginando isso deixa a gente "meio maluco", imaginemos então como seria um encontro destes.

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  3. Caaaralho!
    Eu acho foda histórias com isso.
    Fiquei com vontade de ler Dark Matter.

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James W. Harris