Resenha: Frankenstein, de Mary Shelley

quinta-feira, maio 05, 2016

Eu tinha lido Frankenstein há muito tempo atrás, em uma galáxia distante, mas não tinha sido uma boa leitura. Desta vez, de posse do livro e de uma tradução melhor, resolvi ler a obra-prima que deu origem à ficção científica como a conhecemos hoje e não me arrependi da releitura. Não dá para questionar o status do livro nem as implicações profundas sobre humanidade e ciência que vemos expostas aqui. Este é mais um livro do Desafio literário 2016!



O livro

A obra começa com o capitão Robert Walton escrevendo para sua irmã, Margaret. Ele narra sobre sua expedição, as agruras de viver sozinho, a saudade da família e conta curiosidades e fatos que presencia. Eis então que um dia, ele avista de seu navio uma pessoa à deriva. E ao resgatar a pessoa, ele toma conhecimento de uma terrível estória narrada por ninguém menos que Victor Frankenstein.


O cinema fez o desfavor de tornar a criatura sinônimo do nome Frankenstein, mas na verdade ela não tem nome. Victor narra sobre sua vida, enquanto o capitão Walton toma notas e depois narra em cartas para a irmã. Ele nos conta sobre sua admiração pela ciência e pelos antigos mestres e de como chega ávido pelo conhecimento e experimentação na universidade. Sua vontade era tanta de transcender a vida e a morte que, ao aplicar os estudos galvânicos em partes de cadáveres, ele anima a criatura que fez e ela ganha vida. Victor fica tão horrorizado que foge. Ele se esquiva da criatura antes mesmo de conhecê-la.

Eis que, terminada minha escultura viva, esvaía-se a beleza que eu sonhara, e eu tinha diante dos olhos um ser que me enchia de terror e repulsa.

A partir daí temos criador e criatura em uma eterna corrida para ver quem pega quem primeiro. A vida de Victor começa a ser assolada por uma sucessão de desgraças e ele imediatamente culpa sua criatura. Durante a leitura, comecei a pegar um tremendo asco de Victor. Ele é, por falta de palavra melhor, um babaca. Atribui à criatura todo o tipo de nome, sendo que demônio é seu preferido, e externa uma raiva imensa sobre sua obra, mas não pensa em nenhuma saída para a situação que criou.

A criatura - que não tem nome, o que denota a completa desumanização de sua condição - demonstra uma profunda mágoa com o mundo. Tudo o que ele quer é ser aceito e o que recebe é ódio, raiva, desconhecimento. A posição da criatura é a mesma que pessoas de grupos minoritários são obrigadas a aceitar. Excluídas e incompreendidas, elas são vistas com desconfiança e muitas vezes suas reações são vistas como uma atitude digna de um grupo marginal. Desumanizada e infeliz, a criatura se volta para a vingança, imatura de sentimentos e de contato humano como está.

Frankenstein não é uma obra de terror. É um drama, um conflito entre ciência e seus limites. Podemos transportar a polêmica em torno da criação da criatura para o debate sobre células-tronco ou clones. Obviamente que, na época de Shelley, ainda não se tinha o conhecimento de incompatibilidade de tecidos e rejeição, mas a proposta dela foi nos fazer pensar sobre as implicações de nossas ações e do abandono a que submetemos aqueles que nos parecem muito diferentes.

Em estudos de outra natureza, chegamos até um determinado limite onde nada mais há a aprender. Mas na pesquisa científica os horizontes são ilimitados.

Ficção e realidade

Mary Shelley não deixa claro como que Viktor reanima o corpo da criatura, ela apenas menciona o galvanismo e é daí que podemos assumir que foi através da passagem de uma corrente elétrica. Luigi Galvani foi um médico, investigador, físico e filósofo italiano, precursor dos estudos da bioeletricidade. Foi através de experiências com partes de animais que ele percebeu que uma perna se contraía ao ter uma corrente elétrica passando por ela, mesmo que o animal estivesse morto. Já existiam estudos sobre animais capazes de gerar descargas elétricas, como as enguias e isso levou Galvani a supor que existia um tipo de "energia vital".

Nosso coração, por exemplo, é uma bomba elétrica que funciona com marcapassos naturais. A função do desfibrilador é devolver ao coração seu ritmo normal através de um choque elétrico. Nossas sinapses não passam de impulsos elétricos e até a Matrix precisa da bioeletricidade gerada pelo corpo humano. Sabemos hoje que o que manda no corpo humano não é o batimento cardíaco e sim a atividade cerebral. Se o corpo tem morte cerebral declarada, ele não pode mais viver.

Mas para a época de Shelley e por muito tempo antes disso, o coração era o centro vital do corpo. Experiências com bioeletricidade eram a ciência arrojada de acesso a poucos privilegiados. O que Galvani fez foi simplesmente desbancar Descartes e seus contemporâneos, que achavam que os nervos eram canais ou tubos de água. Na verdade, nosso corpo é uma pilha tamanho família.

Frankenstein

Frankenstein é considerado o primeiro livro de ficção científica devido à aplicação dos estudos de Galvani em um enredo fictício. E nada disso seria possível sem a Revolução Científica, que começou no século XVI e foi até o final do século XVIII. É quando temos a separação entre humanismo e teocentrismo. As explicações simplistas para os fenômenos - porque Deus quis - não mais satisfaziam as pessoas. Era preciso elaborar mais que isso e sair do campo da fé para o campo da experimentação. É a partir desta revolução que a ciência ganha seu caráter prático e estruturado.

- Devo ser tido como o único criminoso quando todo o gênero humano também errou contra mim?


Pontos positivos
Escrito por mulher
Ficção científica
Conflitos humanos
Pontos negativos
Personagens rasos
Victor
Se alonga demais em algumas partes

Título: Frankenstein Ou o Prometeu Moderno
Título original: Frankenstein
Autor: Mary Shelley
Editora: Martin Claret
Páginas: 220
Ano de lançamento: 2011
Onde comprar: Amazon


Avaliação do MS?
O que mais marca em Frankenstein é a dúvida que vem assim que terminamos a leitura: quem é o monstro? Um sujeito que, em nome da ciência, cria um ser que nem mesmo ele suporta e depois foge da responsabilidade ou uma criatura que foi feita à revelia, fruto da morte e de partes de cadáveres, que não consegue ser compreendida? Quais são os limites para a ciência e para o cientista? O livro é marcado pelo abandono. Do capitão sozinho e isolado no Ártico, à criatura feita sem consentimento, a um Victor frustrado, sozinho e aterrorizado.

Um livro para ler mais de uma vez. Recomendado fortemente.

Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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2 comentários

  1. Eu sou completamente apaixonada pela história de Frankenstein (inclusive tô assistindo uma série que tem o Victor como um dos personagens, rs) e esse livro muito me interessa. Me sinto mal por ainda não ter lido, haha! Acho que preciso resolver isso é já!

    Um bj,
    Re

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  2. Um dos meus 3 livros favoritos da vida.
    Bela crítica
    :)

    ResponderExcluir

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James W. Harris