Representatividade importa, mas incomoda

segunda-feira, agosto 03, 2015

Ombros tensos na comunidade de ficção científica. Encerraram-se as votações para o sequestrado Prêmio Hugo (Hugo Awards) de 2015 no dia 31 de julho, mas não se encerrou a discussão sobre o futuro do maior prêmio - considerado uma alta honraria - dentro da FC mundial. Dois grupos insatisfeitos com o andar do gênero nos últimos anos garantiram que vão destruir o prêmio todo se as pessoas não votarem do jeito que eles querem. E agora?





Para entender toda a treta, para saber o que é o Hugo Award e para saber mais sobre o que tem acontecido, é só clicar aqui.

The Legend of Korra

É com muita tristeza que a comunidade que ama, lê, produz e consome FC viu o que aconteceu este ano. Reacionários se utilizaram das regras flexíveis do prêmio para mostrar a insatisfação de terem que dividir o tanque de areia da creche com o resto das crianças. Eles não querem ninguém no parquinho, o parquinho é só deles. É um caso tão mimado de excesso de privilégios que não sei se rio ou se choro com tamanha babaquice.

Os filhotinhos do mal acreditam que a ficção científica ficou muito feminista, multiracial, dando vozes a gays, trans* e lésbicas, e acreditam que isso é muito ruim. Eles se mancomunaram, como aqueles meninos fortões e de pouco cérebro que rondam os corredores das escolas, batendo nos coleguinhas para certificar sua supremacia, criando listas com obras de seu gosto e colocaram nos indicados. Só faltaram mijar no corredor depois que o sistema de votação em bloco subiu e colocou todos os escritores reaças que eles querem ver premiados.

O que realmente choca com essa atitude é que eles estão incomodados porque o privilégio de concorrer ao Hugo esteve temporária - e principalmente nos últimos anos - nas mãos de gente que eles odeiam. Sim, odeiam. O que explicaria o que eles fizeram? Se você não é misógino, homofóbico ou racista, ver tantos livros escritos por mulheres, negros e gays não deveria incomodar, não é mesmo? Pois é. Só que incomoda, bastante, muito, grandão.

Incomoda porque a representatividade incomoda. Quem sempre foi privilegiado não vai gostar de ver uma mulher, que ele considera inferior (machismo, oi) divertindo as pessoas com seus enredos de FC e fazendo-as pensar. Um negro escrevendo afrofuturismo deve causar uma urticária em um país onde um negro é arrancado do carro com violência só porque não sinalizou corretamente, mas um assassino branco de negros ganha lanche do Burger King na delegacia.

A ficção científica sempre curtiu polêmicas, paradoxos, viagens, problematizações. É um gênero com alienígenas, com planetas extrassolares antes mesmo de sabermos que eles existiam. É um gênero guarda-chuva, onde tudo pode caber e cabe. Um lugar onde temos seres sexuados e assexuados, onde podemos discutir de tudo e mais um pouco. Então por que tem gente que ignora todos os aspectos humanos e multiétnicos do próprio planeta, do próprio país? Como que um gênero que consegue ser tão não-convencional consegue ser absurdamente conservador?

A blogueira sul-africana Lauren Smith fez um comentário interessante a respeito da ficção científica e fantasia:

A falta de diversidade - pelo menos  nas versões em língua inglesa - desses gêneros se deve aos escritores homens, brancos, cisgêneros e heterossexuais que escrevem seus personagens no mesmo padrão étnico deles. Quem e o que são mal representados: qualquer pessoa de cor, mulher, gay, lésbica ou transexual; estes costumam cair em culturas que não seja norte-americana ou europeia, como as mitologias e folclores não-ocidentais.

Ou seja, o herói é sempre o mesmo e toda a diversidade cai no lado "selvagem", "exótico", "inusitado" do enredo. Exatamente igual ao que se escrevia com as aventuras pelos confins do universo, onde uma trupe de exploradores brancos encontravam alienígenas ou os repeliam fortemente nas primeiras décadas do século XX. Exatamente igual a muitas aventuras espaciais até mesmo de nossas séries favoritas. Exatamente igual à forma como os privilegiados olham para aqueles que vem abaixo.

Katniss por Amanda Tolleson

O Hugo Awards, que representa a nata, especialmente, da ficção científica, deu as costas para o futuro. Algo impensável para a ficção científica como um todo, onde o futuro nos reserva o espaço, o universo e tudo mais. É especialmente chocante ver alguns escritores brasileiros - desinteressados ou ignorantes para o cenário lá fora - que realmente acham que existe uma conspiração gayzista feminazi dos unicórnios satânicos tirando o doce da boca deles, quando na verdade são eles os incomodados por serem incapazes de escrever sobre outra coisa que não eles mesmos. Eles não percebem que uma quebra permanente no prêmio vai empurrar para o gueto uma penca de leitores que busca representatividade e que nunca vai lê-los.

Os leitores querem a mudança; se não quisessem não teriam indicado tantas mulheres, negros, gays, trans*, genderfluid nas premiações dos últimos anos. E ficção científica não pode temer nem a mudança, tampouco o futuro. Ela deve temer aqueles que não querem que ela mude, porque se os Puppies ganharem, ninguém ganha. É bem simples.

Até mais.

Ficção científica é sobre tudo, sobre hospitalidade à alteridade, do alien ao incomum, sobre libertar a mente das pessoas e audaciosamente ir onde ninguém jamais esteve. Trata-se, centralmente, sobre a diversidade. Colocar para fora mulheres, negros, gays e trans* que escrevem FC é um atentado ao próprio gênero.

Adam Roberts - The Guardian



Leia mais:
#DiversityInSFF: Readers and Reviewers
It's time for science fiction to face up to discrimination
The Puppies are taking science fiction's Hugo awards back in time
AntiCast 193 – Os Asimovs que Não Amavam as Mulheres

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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James W. Harris