A Personagem Feminina Forte®

quinta-feira, junho 19, 2014

As séries de TV e os filmes estão mostrando cada vez mais personagens femininas fortes, decididas, com personalidade e que botam a mão na massa quando é necessário. Temos bons exemplos de mulheres cuja independência nas telas dá uma amostra das mudanças sociais das últimas décadas, onde as mulheres estão ocupando mais espaços. No entanto, nem tudo são flores. Tem um sério problema na construção dessa Personagem Feminina Forte®.





Eu sou uma das primeiras a afirmar que uma personagem feminina, que não seja somente um bibelô ou um enfeite na tela, é mais que desejável. Todos os seres humanos são dotados de múltiplas camadas, de bem e de mal e baixar um padrão para personagens é errado. Isso não nos representa, apenas nos estereotipa e faz com que toda uma indústria acabe voltada para um público masculino, branco e heterossexual. É possível olhar para um corpo e erotizá-lo ou objetificá-lo, desde que essa não seja a única função deste corpo.

Ao olharmos para algumas representações femininas temos a enganosa sensação de achar que todas as personagens são fortes e independentes. Eu digo enganosa porque em alguns filmes a personagem feminina tem tudo para despontar como sendo alguém tão relevante para o enredo quanto o personagem masculino e, no fim, não é o que acontece. É interessantíssimo colocar mulheres fortes na tela, mas em alguns casos parece mais um cala a boca do que representatividade. Além disso, o que é força? Como definir essa fortaleza em um personagem?

Mulheres fortes para quem?

Vejamos o caso de Trinity, na Trilogia Matrix. Forte, decidida, inteligente, hacker. Detona tudo quando passa. É baleada e depois morre, tudo para fortalecer a missão do herói, Neo. Especialmente em Matrix Revolutions ela praticamente nada fez, a não ser morrer e viver constantemente apaixonada por ele. E quem lembra do começo do filme deve lembrar também que o Merovíngio ficou sob a mira de sua arma, onde ela reafirma que morre sem pensar nem duas vezes, desde que isso salve Neo.

Essa tendência de mostrar personagens femininas fortes, mas que pouco colaboraram para os enredos onde estão inseridas ou que pouco fazem em tela além de morrer ou se ferir pelo herói, tem recebido o nome de Síndrome de Trinity, justamente pelo final que a personagem de Matrix teve. Outra personagem de Matrix que também me incomoda é aquela que está fazendo mísseis não para defender Zion, mas apenas porque ela quer ver o amado novamente. Nada contra em querer rever a pessoa amada numa guerra, mas defender seu lar pensando apenas em si mesma não me parece muito heroico, digno de uma personagem forte. Os heróis sempre colocam sua independência e o sacrifício pessoal acima de qualquer outra coisa. A personagem feminina se junta à uma luta para rever o herói ou para ajudá-lo em sua missão.

Temos também o caso de Tauriel, em O Hobbit, A Desolação de Smaug. Ela não existe originalmente no enredo do livro, porém foi adicionada no filme para trazer uma personagem feminina que ficasse mais tempo na tela e que fosse forte. Ela mata orcs e aranhas, dá show em cena, mas sua personalidade é praticamente suprimida e só aparece quando tenta salvar o anão Kili, se envolvendo em um bizarro triângulo amoroso que, em si, não faz nenhum sentido. Mais uma personagem forte e sem função alguma.

Tauriel.

Carol Marcus, em Star Trek Into Darkness, é outro caso clássico de mulher forte sem função alguma, além de ser resgatada pelo herói. Em Oblivion a coisa piora consideravelmente, já que a personagem forte de Andrea Riseborough, Vika, é praticamente vaporizada por um drone alienígena porque está morrendo de ciúmes de Julia, de Olga Kurylenko, a esposa perdida do herói. No fim, para completar a missão, ele coloca Julia em uma câmara de estase e parte sozinho para o Tet. Duas personagens fortes, inteligentes, profissionais, cuja única função é chamar a atenção do herói.

O que os roteiristas e diretores precisam pensar antes de escrever uma personagem assim é se eles seriam esta mulher que escreveram. Eles gostariam de agir daquela forma?, pois afinal seus personagens homens apresentam múltiplas camadas em sua jornada, sendo que a personagem mulher acaba orbitando em volta dele. Outras perguntas que eles devem se fazer:

  • Sua personagem feminina falha ao realizar qualquer feito significativo no enredo?
  • Ela só existe para atender as necessidades do herói masculino, seu desenvolvimento, ou motivações?
  • Essa personagem feminina pode ser substituída por um objeto inanimado?
  • Sua personagem feminina forte é a mais inteligente, mais cruel, mais rígida, ou mais experiente na trama, até que o protagonista chega?
  • Ela desaparece da metade do filme para frente por que morreu ou por que é refém?
  • Ela é estuprada, agredida ou morta durante a trama para motivar o herói?

Lara Croft.

O que fazer para mudar esse cenário? Como construir personagens femininas que sejam múltiplas em si mesma? Mais mulheres roteiristas e diretoras, mais mulheres escrevendo sobre mulheres, já daria conta do recado. Não é um trabalho impossível. Rita Vatraski, por Emily Blunt, em No Limite do Amanhã, é uma personagem feminina com esta pegada. Ela é valente, engraçada, inteligente, ágil, ela não orbita Cage (Tom Cruise), ela é independente por si mesma. Mesmo que a personagem troque a ação e o perigo para viver ao lado de seu amor, ela deve tomar essa decisão sozinha, sem ser um satélite orbitando o personagem masculino.

Os estereótipos, geralmente, são incompletos. Personagens bem construídos são sempre um prato cheio para qualquer enredo, especialmente aqueles tidos como fortes. Os personagens masculinos jã estão nesta fase, mas os femininos precisam evoluir mais.

Até mais!



Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

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