Onde acaba a ficção científica?

segunda-feira, março 18, 2013

Ficção científica não é um gênero literário simples, tanto para autores quanto para leitores. Tampouco é de fácil classificação, o que pode também empobrecer o gênero se for rigidamente enquadrado. Mas podemos nos perguntar, é possível identificar uma obra onde a ficção científica acaba para começar outro gênero? Eles podem estar todos misturados em uma obra?




Antes de se indignar e compartilhar este reclamando que eu estou acabando com a ficção científica, sugiro ler o texto inteirinho, duas vezes se for possível, para entender que não é disso que o texto trata. Obrigada.

A Pandora, consumidora do Saga, fez um comentário muito pertinente no post O que é Steampunk? e tomo a liberdade de reproduzir uma parte dele aqui, para mostrar a dificuldade que temos em classificar as coisas:

(...) acho anacrônico classificar as obras de Verne e Shelley dentro desse gênero, pois essa é uma expressão de nosso tempo e não do deles. Quando eles escreveram seus textos estavam "viajando" dentro das possibilidades do conhecimento cientifico de seu texto. O que eles fizeram foi mesmo ficção cientifica da melhor qualidade e no caso de Shelley ela ainda escreveu uma obra de um cunho existencialista fabuloso.


James E. Gunn, astrofísico norte-americano, disse uma vez que a diferença entre ficção científica e fantasia era que a FC é uma tentativa de explicar como e por que as coisas acontecem. Já a fantasia apenas acontece. Você não precisa de muita explicação. Eventos inexplicados são muito recorrentes na ficção científica e nem assim algumas pessoas desconsideram o filme/jogo/série por causa disso.

Muitos livros clássicos hoje estão dentro de um novo universo, de apelo recente e que, dentro da ficção científica, é o que mais tem crescido ultimamente, que é o steampunk. É uma volta ao passado, mas a um passado tecnológico, com máquinas a vapor e toda uma construção tecnológica avançada, como computadores também baseados nesta tecnologia. Por conta deste ar vitoriano, de uma época de luzes e progresso, algumas obras lançadas neste contexto histórico acabaram recentemente reenquadradas no sub-gênero steampunk, mas ainda, assumidamente, ficção científica. Ou não? Pode uma tecnologia inferior à nossa ser considerada ficção científica?

No entanto, quando foram lançados, nem todos estes livros eram chamados de ficção científica. Frankenstein ainda é considerado por muitos como apenas terror. Mas a ideia de costurar partes humanas e passar uma corrente elétrica no corpo recém construído para trazê-lo à vida tem um apelo científico muito grande. Todo hospital e todo local com grande movimentação de pessoas tem que, por lei, possuir um desfibrilador, cujo princípio é dar um choque no corpo da pessoa para parar a fibrilação do coração e tornar seu batimento regular. Temos um princípio científico aqui, não temos?

Mas ao mesmo tempo em que Frankenstein é animado pela eletricidade, uma ideia inovadora para a época em que Mary Shelley o escreveu, ainda não se tinha o conceito de rejeição de tecidos, incompatibilidade sanguínea e todos os problemas de contaminação ao se lidar com cadáveres. Ou seja, existe uma linha muito fina de ficção, ficção científica, sobre um quadro fantástico e de terror que tornam a obra um grande clássico para os amantes do gênero. Como podemos tirar uma obra do quadro ficcional puro para transportá-lo para a ficção científica? Vinte Mil Léguas Submarinas é tido também como um grande clássico e em 1870 ele era a vanguarda em assuntos de FC. Se olharmos para sua tecnologia, ela parece amadora perto do que temos hoje.


Ao analisarmos Star Wars, a polêmica sobe um pouco mais. Tem gente que, assim como eu, não considera a saga de George Lucas como ficção científica. Mas ela foi classificada como tal. Será que podemos considerar que um filme que contenha naves espaciais e lasers seja de FC? O que torna uma obra uma FC? Basicamente hoje tudo o que contenha tecnologia avançada e espacial é considerada ficção científica. Em parte é mesmo, pois tudo isso implica em um conhecimento científico acumulado avançado para gerar tais engenhos. Robôs, naves, alienígenas, armas de laser, mundos alienígenas, tudo isso já serve para classificar uma obra como de ficção científica, certo?

Vamos puxar a linha do futuro, onde em geral estas obras acontecem, para trás e trazer para a nossa realidade. Nós já temos naves espaciais, armas de laser, robôs e mundos alienígenas. Semana passada, o jipe-robô Curiosity achou fortes evidências de que Marte teve condições para abrigar vida em seu passado. Exoplanetas ocupam as manchetes de jornais como notas de rodapé, pois todos os dias surge um novo. E agora? Onde cabe a ficção científica neste contexto? Muitos atribuem à esta explicação o declínio do gênero nas prateleiras das livrarias. O encanto teria acabado.

Arthur C. Clarke uma vez disse: Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia. Os teletransportadores da Enterprise seriam mágica, mesmo que exista um princípio científico por trás, pois mesmo sendo possível teletransportar informações, um organismo seria muito mais complicado. Não basta transportar nosso corpo, mas toda a nossa flora intestinal e todas as bactérias na superfície do corpo, bem como fungos e vírus. Teríamos que ser destruídos para sermos reconstruídos em outro lugar. Mas tem ou não um princípio científico nisso tudo? Tem. Mas então como que Harry, Ronnie e Hermione desparatavam? Bem, aí é mágica.

Percebe que a linha é muito fina? Game of Thrones seria ficção científica se no lugar de uma espada Ned Stark usasse um sabre de luz? Romeu e Julieta é um dos romances mais bonitos e trágicos da literatura. Se eles fossem atacados por aliens e morressem, viraria ficção científica? E se esse alien fosse na verdade uma criatura invocada por um bruxo maligno para matar os amantes, aí é fantasia? Bem, temos uma confusão bem grande agora.

A beleza da coisa está em justamente a permeabilidade dos gêneros e sub-gêneros. Para fins de classificação, numa biblioteca, numa livraria, é necessário enquadrar uma obra em algum lugar. Mas não dá para reduzir tudo em "isto" ou "aquilo", pois acaba tirando a subjetividade que faz da literatura algo tão maravilhoso e importante para a sociedade. Acaba ficando meio que a critério de cada um o modo de classificar algo e de poder apreciá-lo, o que não acho errado. Literatura precisa chegar ao povo para que ele deva analisar seu conteúdo. Um escritor não termina um livro no ponto final, mas sim quando o leitor chega à página final e dali faz uma reflexão.


E agora a pergunta é para você. Como você classificaria um livro como ficção científica? Livro, jogo, filme, série, mangá, não interessa o formato, o que é para você ficção científica? Deixe seu comentário.

Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Bem, eu também não considero Star Wars como FC, rsrsrs. Acho que o cinema popularizou uma enxurrada de filmes sob essa classificação e deixou uma confusão grande. Não basta o cenário ser espacial, ou se passar no futuro pra ser FC, mas sim apresentar uma plausibilidade na trama relacionada aos fundamentos, inovações tecnológicas ou teorias científicas trazidas na história. E quando falo em ciência me refiro também às Humanas, pois muita gente tá acostumado às exatas. Ou seja, assim sendo o Nome da Rosa poderia ser classificado como FC, pois o autor pegou todo o contexto social e cultural da época com maestria. Ou será que viajei muito? Rsrsrs

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"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris