Corpo humano e exploração do espaço

segunda-feira, março 11, 2013

Muitas pestanas têm sido queimadas ultimamente quando o assunto é a colonização do espaço. Os entraves são muitos: econômicos, tecnológicos, políticos e claro, biológicos, já que nosso corpo, nossa fisiologia e nossa própria fragilidade são também grandes problemas para ocuparmos o espaço. Não temos como prever o que a permanência prolongada - ou até definitiva - pode de fato fazer com nossos corpos.





O ser humano é teimoso, ele vai continuar gastando grana para ir ao espaço. Sabemos disso. Mas sabemos também que as condições no espaço não são nem de longe tão agradáveis quanto as que temos aqui na Terra. E não temos também como saber se outro planeta passível de colonização e ocupação terá tais características. O Universo é grande demais para dizermos com certeza que outra Terra não existe. Mas ela talvez esteja tão longe que não faz sentido nos preocuparmos com isso.

colônia marciana
Colônia marciana.

Sabendo disso, como nosso corpo vai reagir vivendo no espaço ou em em qualquer outro ambiente que não seja o nosso planeta? De acordo com alguns pesquisadores, a vida moderna diminuiu ou quase suprimiu a seleção natural, já que estamos condicionados a um ambiente que pouco tem de condicionamento natural. Não acredito que ela tenha de fato parado, mas apenas tomado uma velocidade menor que o esperado. Mas devemos imaginar que lá fora, as pessoas estarão mais expostas à seleção natural e isso pode gerar linhagens diferentes de seres humanos. Ou quem sabe extinguir a todos nós.

O que poderia ser tão determinante para nossa biologia mudar drasticamente no espaço? Pressão e níveis de oxigênio já causariam muitos problemas. Primeiro de custo, já que ambientes com pressão constante são mais caros e complicados de construir. Segundo, queda de pressão atmosférica e aumento nos níveis de oxigênio interferem no desenvolvimento de embriões de vertebrados, o que levaria a um aumento de abortos e mortalidade infantil. Se imaginarmos tal evento ocorrendo em uma colônia, ou numa nave-mundo, por exemplo, poderíamos levar à uma queda de fertilidade e natalidade, que podem levar a população ao colapso.

No entanto, pensando pelo lado frio da evolução, isso também selecionaria aqueles cujos genes sejam mais adaptáveis à estas condições. As futuras gerações de colonos já estariam suficientemente preparados, do ponto de vista biológico para sobreviver nestas condições. Mas até onde podemos chamá-los de humanos com linhagens se separando tanto?

Baixa pressão atmosférica e altos níveis de oxigênio também alterariam a fala, já que o som se propagaria de maneira diferente. Novos dialetos, sotaques, pronúncias e até uma nova linguagem poderiam surgir por mudanças ambientais e futuramente anatômicas, como por exemplo nas cordas vocais.


Temos a questão da gravidade. Maior ou menor do que a que temos na Terra já será o suficiente para causar mudanças anatômicas consideráveis dentro de poucas gerações. Um ambiente lunar ou marciano levará a um corpo mais ágil, mais esguio, com uma musculatura pouco robusta, já que o peso será menor do que na Terra. Indo além, a gravidade menor poderá levar também à uma diferenciação cultural, no estilo arquitetônico, no padrão de beleza e até na linguagem corporal, algo essencial para todas as culturas da Terra. Pode parecer viagem na maionese, mas quando os vikings levaram camundongos para as Ilhas Faroe, não imaginaram que mil e duzentos anos depois eles seriam gigantes, do tamanho de gatos domésticos, pela ausência de predadores e pela farta comida disponível

Também não temos como viajar para um planeta distante ou colonizar Marte, sem a nossa carga viral, bacteriana e de animais domésticos que são a base da cadeia alimentar. Enviar alimentos da Terra para Marte será mais caro do que produzir no próprio assentamento. Podemos imaginar então vacas magrinhas e de pernas longas e torneadas, devido à diminuição da gravidade? Pode haver uma redução nas calorias por quilo de carne também? Afinal de contas, não será necessária uma hipertrofia em um ambiente em que o peso é menor. Redução na produção de carne?

A gravidade afetará a todos os organismos, inclusive às vacas. Uma nave-mundo, com uma população que levará gerações para alcançar seu destino, também precisará de linhagens de animais. Em um ambiente fechado como esse, nossa carga viral e bacteriana, misturada com as dos animais, poderia levar à uma doença que se espalharia rapidamente.


Precisamos imaginar que uma população para ir ao espaço deva ser saudável e geneticamente livre de doenças deletérias - ao menos em um primeiro momento - que possam vir a causar um colapso na colônia com futuros cruzamentos entre si. Mas uma população dessa, homogênea do ponto de vista genético seria um alvo fácil para qualquer doença que venha a se desenvolver, viral, fúngica ou bacteriana e acabar com a missão rapidamente.

É muito difícil tentar imaginar o que pode acontecer com uma população durante gerações de confinamento fora da Terra, mas posso imaginar um certo estranhamento quando vislumbrarmos estas pessoas. Poderão parecer alienígenas esquisitos tanto quanto vamos parecer a eles. E fica o pensamento: podemos perder o que nos torna humanos ao sair da Terra para nos estabelecermos em outro planeta ou numa nave no espaço? Estamos dispostos a correr estes riscos?

Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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