O primeiro livro foi daqueles volumes que estouram nossas mentes, então eu tinha que começar o segundo volume imediatamente. Esta é uma saga para quem curte space operas, com fungos (possivelmente) inteligentes, impressão de corpos, mapeamento mental e dois personagens complexos e marcados por traumas que, apesar de tudo, conseguem encontrar um ao outro.
Pode haver spoilers do primeiro livro!
O livro
Bora relembrar o contexto: neste futuro, a Terra está sendo devorada pelo shroud, um líquen alienígena. Não só ele, como outros mundos habitáveis também estão sucumbindo ao líquen e no final do primeiro volume descobrimos o motivo. Desesperados para encontrar um novo lar, livre da infecção, os governantes da MERIT, as cinco famílias que controlam toda a tecnologia futura, estão à procura de mundos livres de shroud. Cada família tem uma especialidade. A família Mercator, de longe a mais poderosa de todas, controla a extração e o tratamento de relkatita, mineral extremamente importante para a impressão de corpos resistentes o suficiente para viver no espaço.
As pessoas, Acaelus dissera certa vez a Tarquin, eram menos propensas a se voltar contra você se achassem que vocês compartilhavam um segredo. Dê a elas migalhas, dissera Acaelus. Dê a elas mentiras. Não importa; basta fazê-las pensar que você é especial, e elas implorarão a seus pés pela chance de serem úteis.
Essa parte sobre a impressão de corpos e a transferência de mentes lembra um pouco Carbono Alterado, mas aqui a ação acontece principalmente fora da Terra, em naves e estações espaciais. Descobrimos o primeiro livro que a humanidade vem sendo lentamente infectada por um fungo, canus, usando na biolixiviação da relkatita e que começa a aparecer consciente. Ou seja, não basta a humanidade não ter um planeta para chamar de seu, ainda tem que enfrentar um inimigo quase invisível e difícil de combater. Os protagonistas, Tarquin Mercator, herdeiro de Acaelus Marcator, e a exemplar (um tipo de guarda-costas), Naira Sharp, precisam lidar com tudo isso depois dos acontecimentos no planeta mencionado no primeiro livro.
Gosto muito da dinâmica desses dois. Tarquin é um jovem acadêmico, enquanto Naira é uma mulher forte, marcada pelos traumas de uma vida de abandono. Ele não sabe se defender nem pra salvar a própria vida, mas Naira se coloca na frente de uma bala sem nem pensar duas vezes. Parece improvável, mas esses dois vão acabar se apaixonando. Felizmente, isso não rouba o cérebro de nenhum deles ao longo da leitura. Eles têm objetivos importantes e não os perdem de vista nem por um segundo, afinal é a própria humanidade que está em risco.
Neste volume, teremos uma visão mais ampla de como funcionam as dinâmicas de poder dentro da Merit. Conhecemos os líderes das outras famílias, conhecemos melhor o pai e a irmã de Tarquin, que gerenciam a família com mãos de ferro. Também conheceremos uma figura desprezível que veio direto do passado de Naira e que vai fazer da vida desses dois um inferno. Fletcher, um funcionário de Mercator, também é um órfão como Naira, seu ex-amante e alguém que ameaça os planos de Tarquin. O herdeiro de Mercator cresceu bastante neste livro, finalmente encontrando um caminho que parecia inimaginável no primeiro livro.
O desenvolvimento do livro tem um andamento que nos impede de adivinhar o que vai acontecer a seguir. Mesmo assim, achei que alguns momentos não me pareceram tão bem amarrados como no primeiro volume. Houve muitas missões secundárias, especialmente para Naira à bordo de uma nave que, supostamente, deveria ter sido destruída, que parecem não ter conexão com o enredo principal. Especialmente no final, os eventos aconteceram num ritmo muito acelerado e fiquei pensando se eu tinha pulado alguma parte. Mas de maneira geral, a luta desses dois contra o canus me prendeu até o fim e fiquei bem ansiosa pelo terceiro e último volume.
É um erro tratar esses dois volumes como um grande romance de Tarquin e Naira. O livro fala muito mais sobre capitalismo, extração de recursos, degradação ambiental, estrutura da sociedade e as interações entre as pessoas que a compõem. O aspecto que O’Keefe explora com mais profundidade nesses dois livros é a incapacidade das pessoas de tomar as decisões "certas", uma vez que estão sob alguma influência, estejam elas "infectadas" por canus ou não ou apenas sendo guiadas pelo espírito capitalista da empresa.
Não funciona assim. Você não pode eliminar o que é ruim e esperar ter uma pessoa no final.
Uma pena não ter esse livro em português. A leitura em inglês foi agradável e lamentei ter chegado tão rapidamente no final. O destaque também vai para as capas lindíssimas, de Jaime Jones.
Obra e realidade
A incapacidade de muitas pessoas comuns de pagar as taxas de reimpressão é o que leva muitas delas a servir às famílias do MERIT. O conglomerado exige obediência e lealdade absolutas e, em troca, o pagamento de suas taxas de reimpressão costuma ser garantido, exceto em casos especiais. O livro não se aprofunda muito no funcionamento ou na origem dessas famílias, o que acredito que será tratado melhor nos dois livros seguintes, mas não é difícil perceber como a dinâmica empresarial predatória se mantém aqui e no mundo real. Ela não é muito diferente da Weyland-Yutani, da franquia Alien.
Megan E. O’Keefe é uma escritora norte-americana de ficção científica e fantasia, nascida em 1985. É conhecida sobretudo por suas space operas, como Velocity Weapon e a trilogia The Devoured Worlds, além do livro mais recente The Two Lies of Faven Sythe (2025).
PONTOS POSITIVOS
Tarquin e Naira
Bem escrito
Space opera!
PONTOS NEGATIVOS
Preço!
Começa devagar
Final apressado
Tarquin e Naira
Bem escrito
Space opera!
PONTOS NEGATIVOS
Preço!
Começa devagar
Final apressado
Avaliação do MS?
Foi uma leitura intensa, emotiva, perigosa, ainda que um pouco confusa perto do final! Lamentei quando cheguei ao final, porque passei dias imersa nesse universo e, de repente, estava virando a última página. Gostaria de ver essa trilogia traduzida em português. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!
Até mais! 🪐
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