Resenha: Carbono Alterado, de Richard Morgan

Quando a série Carbono Alterado estreou eu não assisti logo de cara. Hoje em dia eu prefiro assistir ou não às séries bem depois da estreia. Quando comecei a sondar para saber se seria uma série legal, me avisaram que não era tão bacana assim, que eu deveria partir para o livro que talvez fosse melhor. Foi o que eu fiz. E não foi melhor. Tem pontos altos bem interessantes no livro, mas a obra peca demais em outros aspectos.



O livro
Neste universo criado por Morgan, a humanidade não morre. Quer dizer, até morre, mas é bem difícil. Isso porque, no século XXV, é possível ter toda a sua consciência, memórias, toda a sua vida, armazenada em um cartucho na base do cérebro. Assim que o seu corpo atual se for ou envelhecer ou for morto, você pode simplesmente ser baixado em outro corpo, ou outros. A morte é uma falha de programa e existem até mesmo backups automáticos de consciência. Sendo assim, morrer é só um contratempo na vida de muita gente, principalmente os mais ricos, capazes de pagar por toda a tecnologia disponível.

Resenha: Carbono Alterado, de Richard Morgan

Takeshi Kovacs tem sua consciência baixada em um novo corpo depois de um tempo armazenado. Confuso, descobre que está na Terra. Ele mesmo é de uma colônia fora do sistema solar, pois nesta época a humanidade conseguiu se espalhar pela galáxia, criando novos assentamentos humanos, mas com os mesmos problemas deste aqui. Ex-militar da elite, um Emissário Kovacs é jogado em uma investigação sobre o suicídio de um ricaço. Não um ricaço qualquer, mas um Matusa, uma pessoa com mais de 300 anos, que troca de corpo constantemente. A polícia diz que ele se matou, mas o ricaço não acredita que tenha feito isso, pois não havia motivo e exige que Kovacs descubra quem tentou matá-lo.

Existem muitas implicações morais sobre o fato de uma pessoa não mais morrer. Uma pena que o livro não aborda nenhuma delas. As religiões seriam as primeiras a ter uma série de objeções a respeito, mas só os católicos são mencionados, brevemente. E as outras? Só os católicos se incomodaram? A morte é um evento que molda boa parte da nossa existência, já que sabemos que nosso tempo de vida é finito e precisamos viver o melhor que pudermos. Remover essa barreira mudaria drasticamente toda a nossa civilização. O mundo de Takeshi encarou numa boa. Ou então o autor apenas não mencionou.

Enquanto Takeshi se joga na investigação sobre o tal suicídio do ricaço, interagindo com robôs e com inteligências artificiais, como aquela que é dona do hotel onde se hospeda, ele percebe que há implicações mais profundas sobre essa morte estranha e acaba se deparando com uma conspiração. Ele é jogado de um lado a outro da região de Bay City procurando por evidências que o ajudem a explicar o caso. Por mais interessante que a construção de Takeshi possa parecer, Morgan não conseguiu me cativar com nenhum personagem. Todos são mal construídos e muitos deles são mencionados brevemente em um momento, depois eles retornam e eu já não lembrava mais quem era, pois existem muitas cenas e detalhes pelo meio do caminho, nem todos eles interessantes.

Um exemplo: as cenas de sexo. São tantas que depois de um tempo você só faz leitura dinâmica, já que elas não servem para nada. Outro problema do livro: a descrição das mulheres, todas elas com alguma sensualidade destacada e com "peitinhos" balançando ou repuxando por baixo da blusa. Caros escritores, sabe quando que uma mulher fica prestando atenção no peitinho balançando embaixo da própria blusa? NUNCA. A gente só pensa nos peitos quando eles doem, quando incomodam ou quando a alça do sutiã tá torcida. Fora isso, nem pensamos neles. Mas vocês, pelo visto, pensam muito, como Morgan pensou, já que ele adora mencionar as peitcholas a cada encontro que Takeshi tem com uma mulher.

Os ambientes descritos são bem feitos. É possível sentir a atmosfera do lugar e como ela é diferente do mundo atual, pena que não dá para falar sobre o mesmo sobre as pessoas, com personagens tão mal descritos e opacos como esses. Não só isso, Takeshi passa mais da metade do livro batendo cabeça para juntar todas as peças e de repente as coisas se encaixam, é isso aí, acabou o caso. Se observamos Carbono Alterado apenas pela ambientação noir e cyberpunk, o livro acerta em cheio. Mas peca nos personagens até nas premissas mais básicas, que é fazer com que os leitores se importem com eles. Chegou uma hora que eu só queria que o livro acabasse.

A edição da Bertrand Brasil vem em capa comum e papel amarelo e com vários problemas de revisão. Nota-se que o livro não foi bem revisado, pois faltam palavras onde até o sentido da frase pode acabar mudado. A tradução de Edmo Suassuna Filho está muito boa.

É assim que se faz guerras, afinal, com soldados que sentem mais medo de sair da linha do que morrer no campo de batalha.

Página 174


Ficção e realidade
Enredos que lidem com o fim da morte costumam jogar várias questões sobre os leitores. Em O Ceifador, a raça humana é imortal e precisou criar um serviço de matadores que ceifam as vidas das pessoas baseadas nas antigas estatísticas para poderem manter a curva do crescimento humano estável. Em Carbono Alterado fica a questão: a consciência de uma pessoa é a sua alma? Ela pode se transportada para outro corpo tranquilamente sem nenhum problema de adaptação? E a nossa auto-imagem, como fica? Estamos acostumados à nossa cara no espelho todos os dias. Se isso mudar, nossa consciência sobre nós mesmas permanece? São várias as implicações pessoais, morais, sociais, políticas, que uma raça humana virtualmente imortal precisaria lidar. Não sei se isso é tratado nos livros seguintes da série, mas senti falta de alguma análise nesta obra.

Richard Morgan

Richard Morgan é um escritor britânico de fantasia e ficção científica.

O olho humano é um dispositivo maravilhoso. (...) Com um pouco de esforço, ele pode deixar de ver mesmo as injustiças mais gritantes.

Página 282

Pontos positivos
Ortega
Ambientação

Pontos negativos
Takeshi Kovacs
Escrita confusa
Erros de revisão

Título: Carbono Alterado
Título original em inglês: Altered Carbon
Série Takeshi Kovacs
1. Carbono Alterado
2. Anjos partidos
3. Fúrias despertadas
Autor: Richard Morgan
Tradutor: Edmo Suassuna Filho
Editora: Bertrand Brasil
Ano: 2017
Páginas: 490
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Avaliação do MS?
Não digo que o livro é de todo ruim. Fazia tempo que eu não lia enredos cyberpunks e este aqui foi criativo e bastante ousado. Infelizmente só a ambientação não faz um livro inteiro e os personagens são tão insuportáveis que eu nem mais queria saber sobre a morte do ricaço ou se Takeshi resolveria tudo. Só queria que o livro acabasse e que eu pudesse partir para outro. Três aliens para o livro.


Até mais!


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2 COMENTÁRIOS

  1. o livro tem um potencial muito grande na construção de mundo quando se discute as implicações da tecnologia, as colonizações, mas ele se perdeu em tentar ser uma coisa que, hoje em dia (e ainda bem) é tosco: machismo, cenas de violência gratuita. A personalidade da policial e do cara são extremamente óbvias etc.

    O problema é que a série no primeiro ano é pior ainda que o livro, já que a ambientação de mundo se perde.

    O segundo ano da série já é melhor do que os livros e do o primeiro ano de série. E são história independentes. Ainda cheio de clichés, mas muito menos machista. E a discussão política fica mais intensa, o que é bom. Eu indicaria dar uma segunda chance e ver a série no segundo ano (pulando o primeiro ano), pois melhora rsrs

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  2. Obrigado pela resenha.

    Já vou pular fora de mais uma obra que usa cenas picantes só pra ter mais páginas. Estou numa raiva disso ultimamente na literatura, foi bom que nem perco meu tempo.

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