Admito que fiquei um tanto decepcionada com a leitura do livro de Francine Prose, então pulei direto para esse aqui, que tem uma proposta ousada: biografar todas as rainhas ptolomaicas de nome Cleópatra. A maioria das pessoas conhece apenas a última Cleópatra, aquela retratada tantas vezes no cinema, que seduziu Júlio César e Marco Antônio. Mas ela foi a última das sete Cleópatras que governaram o Egito antes de sua absorção pelo Império Romano, e as seis anteriores precisam ter suas histórias contadas.
O livro
O tema das mulheres da realeza ptolomaica costuma ser inevitavelmente dominado pela figura da última, e talvez mais famosa, Cleópatra. Por muito tempo, ela foi transformada em personagem de obras populares, embora raramente tenha recebido a devida atenção acadêmica, apesar da enorme importância de suas contribuições sociais, políticas e econômicas para o Egito e para o mundo mediterrâneo. Como em geral acontece quando se fala do período ptolomaico, o desfecho dramático, com sua morte e o colapso de sua dinastia, acaba obscurecendo os longos anos de governo relativamente bem-sucedido de Cleópatra VII, assim como o contexto dinástico em que ela surgiu.
O nome Cleópatra era composto de duas palavras gregas: kleos, um termo de peso considerável que significava "glória", "renome" ou "fama", e patér (genitivo, patros), que significava "pai", "ancestral", "pátria".
A imagem amplamente difundida da “ameaça” e do fascínio exercidos por Cleópatra VII acabou se misturando à narrativa de sua suposta excepcionalidade: a ideia de que ela teria sido uma figura única, quase monstruosa e fatal, exótica, uma feiticeira sedutora, que chegou muito perto de frustrar a expansão do domínio romano sobre o Mediterrâneo do século I AEC. Mas, ao ampliar o foco para incluir as outras Cleópatras das casas ptolomaica e selêucida, Llewellyn-Jones procura mostrar que Cleópatra VII não foi uma personagem isolada ou extraordinária em si mesma, mas a última representante de uma longa linhagem de mulheres poderosas. Essas mulheres passaram a ocupar posições cada vez mais centrais em um período em que as dinastias reais e as dinâmicas socioreligiosas abriram mais espaço para a atuação feminina no cenário político.
Llewellyn-Jones começa sua narrativa no turbulento mundo deixado por Alexandre, o Grande, após sua morte prematura em 323 AEC. Com o colapso de seu império, o Mediterrâneo oriental e o Oriente Médio foram divididos entre os generais macedônios. Entre eles estava Ptolomeu, que assumiu o controle do já milenar Egito e fundou a dinastia ptolemaica. Ao lado dos selêucidas, outra poderosa linhagem surgida após as conquistas de Alexandre, baseada na região da atual Síria, os ptolomeus protagonizaram séculos de guerras, alianças e disputas dinásticas que só terminariam com a conquista romana do Egito, em 30 AEC.
A primeira dessa longa linhagem foi Cleópatra Sira, uma princesa selêucida que se casou com a família ptolemaica, sendo, aliás, a última mulher de fora da dinastia a fazê-lo. A partir daí, os ptolomeus transformaram o casamento entre irmãos em uma prática oficial da casa real, em um nível que, como brinca o autor ao evocar Game of Thrones, faria os Lannister ou os Targaryen parecerem discretos. Aliás, o autor afirma que os egípcios até se casavam entre irmãos, mas que foram os ptolomeus que elevaram a prática a uma arte cotidiana.
Foi a própria Cleópatra Sira quem organizou o casamento entre seus filhos, Ptolomeu VI e Cleópatra II. Mais tarde, após a morte do primeiro marido, Cleópatra II acabaria se casando também com outro irmão, Ptolomeu VIII. As relações familiares, porém, tornaram-se ainda mais intrincadas quando Ptolomeu VIII, já casado com a irmã, tomou como segunda esposa a própria sobrinha, filha de Cleópatra II, que se tornaria Cleópatra III. Admito que teve momentos em que eu precisava voltar e acompanhar a cronologia dos casamentos e dos nomes, porque esse ptolomeus eram doidos! Felizmente, a narrativa do autor é muito agradável de acompanhar, mas é densa, cheia de detalhes e informações, e ele ajuda a organizar mentalmente essa teia dinástica.
Outro mérito do autor é evitar reduzir esses casamentos a um mero espetáculo de escândalo ou exotismo. Em vez disso, ele os analisa dentro de um contexto sociopolítico, histórico e religioso muito específico. Os faraós egípcios se apresentavam como deuses ou semideuses, e os ptolomeus buscaram se associar a essa tradição. Ao imitarem as divindades egípcias e gregas, que frequentemente se casavam com seus próprios irmãos na mitologia, os soberanos ptolemaicos tentavam reforçar sua legitimidade como governantes sagrados. Afinal, apesar de governarem o Egito, ainda eram estrangeiros, uma dinastia grega que estava no poder havia pouco mais de um século.
É provável que, à medida que as Cleópatras obtiveram mais e mais cuesso na acumulação de poder político, a família ptolomaica tenha começado a considerar suas mulheres "socialmente homens", um conceito que dava às rainhas e princesas maior liberdade para operar nas esferas política e sociocultural, negadas a outras mulheres.
Os assassinatos, alianças e casamentos continuaram marcando a história da dinastia ao longo do século II AEC, mesmo quando algumas Cleópatras passaram a se casar fora da própria família. Duas filhas de Cleópatra III, por exemplo, acabaram unidas a reis selêucidas envolvidos em sua própria guerra civil dinástica, um conflito tão brutal quanto o dos ptolomeus. Em meio a essa disputa, uma das irmãs ordenou a execução cruel da outra, mostrando como os laços familiares pouco significavam diante da luta pelo poder. A própria Cleópatra III teve um destino igualmente violento: foi assassinada por seu filho, Ptolomeu X. O episódio revela um dos elementos mais destrutivos da política ptolemaica, o costume de manter várias gerações governando simultaneamente como corregentes.
Foi apenas duas gerações depois que Cleópatra VII subiu ao trono. Herdando um reino já fragilizado, ela buscou fortalecer sua posição por meio de alianças com os homens mais poderosos de Roma: primeiro Júlio César e, depois, Marco Antônio. Ao mesmo tempo, tentou afastar os próprios irmãos da disputa pelo poder. Ambos chegaram a se casar com ela, seguindo a tradição familiar, e o segundo acabaria posteriormente assassinado por suas ordens.
Organizado cronologicamente, o livro está dividido em três seções. Princípios, Expandindo horizontes e Declínio final. Há mapas, imagens e genealogias no começo de cada seção. Com uma excelente tradução de Cássia da Rosa e Oliveira, a leitura foi muito agradável, ainda que carregada de informações e detalhes que precisam ser absorvidos aos poucos.
Obra e realidade
Não é de hoje que escuto dizer que ninguém tem bem certeza de quem foi a mãe de Cleópatra VII. Llewellyn-Jones, por sua vez, é bem categórico: a mãe dela não é nenhuma concubina desconhecida, e sim a rainha Cleópatra V Trifena. O autor argumenta que as fontes gregas, de fato, não batem o martelo sobre a identidade da mãe de Cleópatra VII, mas as fontes egípcias são bem mais certeiras, pois os ptolomeus foram ávidos construtores e deixaram obras espalhadas por todo o Egito. E Cleópatra V Trifena aparece ao lado do pai de Cleópatra, como sua consorte e mãe de seus filhos.Por mais que os romanos odiassem Cleópatra VII e tenham sujado sua biografia ao longo dos últimos dois mil anos, eles nunca duvidaram de sua ascendência e de sua linhagem. Ou seja, ela era uma mulher da realeza, que tinha todo direito de usar a coroa do Egito, então ela só poderia vir de pais da realeza e não de uma concubina desconhecida.

Lloyd Llewellyn-Jones é um historiador, pesquisador e escritor, especializado em história antiga com foco no Império Aquemênida.
PONTOS POSITIVOS
História do Egito
Bem escrito
Fontes e notas de rodapé
PONTOS NEGATIVOS
Preço
Acaba rápido!
História do Egito
Bem escrito
Fontes e notas de rodapé
PONTOS NEGATIVOS
Preço
Acaba rápido!
Avaliação do MS?
Este livro é mais uma obra incrível a chegar ao público leitor brasileiro que adora história e divulgação científica. Com muitas fontes e uma escrita agradável, o livro é um deleite para aquelas curiosas de plantão ou que querem saber mais sobre a história dessas mulheres lendárias. É daqueles livros preciosos da estante para se consultar de tempos em tempos. Cinco aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!
Até mais! 𓁐
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