Falou em Antigo Egito, eu logo estou buscando uma leitura! Cleópatra é uma das mulheres mais importantes e enigmáticas do mundo. Mas boa parte de sua vida permanece oculta em mitos que nada condizem com a pessoa que ela foi. Francine Prose tenta remover uma parte do véu de enigma e nos mostra como a imagem da rainha foi utilizada das mais diferentes formas ao longo da história.
O livro
A vida e a morte de Cleópatra a tornaram uma lenda. Mas o problema com lendas é que fica difícil separar o mito do fato. No caso da última rainha egípcia, há um outro fator que complica tudo: a misoginia que comandou a forma como ela foi interpretada por meio das artes. São peças de teatro, livros e filmes que mostram uma mulher que é praticamente o sinônimo de uma bruxa, uma feiticeira sensual e maligna que enfeitiçou dois distintos servidores romanos e destruiu suas vidas. Historiadores contemporâneos contestam essa visão e tentam buscar a Cleópatra histórica, além do mito.
Cleópatra foi privada de sua individualidade e transformada na mulher arquetípica: praticante de artimanhas femininas, de misteriosa infantilidade, com muita paixão e pouca inteligência - exceto por uma espécie de malícia animalesca.
A primeira metade do livro desfaz mitos sobre a vida e o reinado de Cleópatra. Essa parte é bastante breve, então se você quiser ler algo mais aprofundado sobre este período histórico, as disputas pelo trono egípcio com seus irmãos e como Cleópatra chegou ao poder e governou o Egito, vai precisar procurar outras obras. A autora não se demora na história da rainha, e sim em como a história a retratou.
Já a segunda metade examina as representações de Cleópatra na cultura popular. Ela retoma escritores clássicos como Plutarco e Shakespeare para mostrar como eles a retrataram em seus escritos. Essa parte do livro é mais eficaz e funciona melhor do que a primeira, quando Prose se distancia completamente da história, infelizmente incompleta, e lança um olhar crítico sobre como livros e filmes transformaram Cleópatra em uma vilã sedutora e fatal. E, para as mulheres, ao longo da história, só restavam duas posições: ou santa ou puta.
Nenhuma acusação contra Cleópatra era vil demais para ser dirigida a ela. Os romanos se encarregaram de perpetuar sua visão e, posteriormente, autores a carregaram com exotismo, sensualidade, mostrada em quadros, em que ela envenena pessoas inocentes para testar seus mais potentes venenos, ou em peças de teatro, em que ela era uma mulher malvada que corrompia os homens. Mas a autora também especula muito sobre quem ela teria sido realmente. Plutarco é a fonte mais utilizada pelos historiadores, mas até ele faz comentários horríveis a respeito dela, e ele nasceu quase um século depois da morte da rainha egípcia.
O livro é bem escrito, de leitura fácil, mas curto demais para tudo o que a autora se propôs a discutir. Prose assume que Cleópatra era uma rainha séria, comprometida com seu povo, que levava sua vida pela retidão e pela perspicácia, mas por mais que a gente queira pintar essa imagem da rainha, nós simplesmente não sabemos se ela era tudo isso mesmo. Prose pega essa mulher fascinante e acaba transformando-a numa heroína caricata de um reino exótico cobiçado pelos romanos.
Acredito que este livro funciona melhor quando aborda os mitos em torno de Cleópatra e como ela é retratada no teatro e no cinema, conforme a autora discute suas representações em diversas mídias e fontes. No teatro e no cinema, Cleópatra foi representada por grandes estrelas, como Theda Bara, Colette Colbert, Vivien Leigh e, a mais famosa entre elas, Elizabeth Taylor, mas muitas vezes essa interpretação era carregada de exotismo, infantilidade e malícia.
Contudo, embora Prose questione a veracidade dessas fontes e as analise criticamente, senti que, ao final do livro, ela se apoiava fortemente na interpretação de Plutarco sem refutá-la de fato. Também gostaria que Prose tivesse se aprofundado um pouco mais e explorado os aspectos mais obscuros da vida de Cleópatra, os fatos menos documentados, para proporcionar ao leitor uma visão mais ampla dela, como as doações de Alexandria e o desastre que foi seu relacionamento com Marco Antônio. Embora tenhamos conhecido a história de Cleópatra, não senti que a conhecemos de fato, até porque não a conhecemos mesmo.
A plurilíngue, inteligente e corajosa jovem rainha era, para Plutarco, Cícero e outros autores clássicos, não só uma excentricidade, mas um exemplo sedicioso para outras mulheres.
O livro está bem traduzido por Flávia Souto Maior e conta com imagens e mapas que nos ajudam a acompanhar melhor a leitura.
Obra e realidade
Cleópatra Filópator nasceu no começo de 69 a.C., filha do faraó Ptolemeu XII e de uma mãe desconhecida, provavelmente Cleópatra VI Trifena, também chamada de Cleópatra V Trifena, que também era mãe de sua irmã mais velha, Berenice IV. Poucos meses após o nascimento de Cleópatra, Cleópatra Trifena desapareceu dos registros oficiais e acredita-se que ela tenha morrido por volta dessa época.Os três filhos mais novos de Ptolemeu XII, Arsínoe IV, Ptolemeu XIII Téo Filópator e Ptolemeu XIV, nasceram quando sua esposa já não estava mais presente. Durante a infância, Cleópatra teve como tutor Filóstrato, com quem estudou as artes gregas da oratória e da filosofia. Acredita-se também que ela tenha estudado no Museu e na Biblioteca de Alexandria.
Sua morte é envolta em mistérios, embora se acredite que ela tenha optado pelo suicídio para não ser enviada a Roma como espólio de guerra. Seu filho com César, Cesarion, foi morto por Otávio Augusto e os três filhos de Cleópatra com Marco Antônio foram enviados a Roma para serem criados e educados por lá por Otávia Júlia, ex-esposa de Antônio. Sabe-se que sua filha, Cleópatra Selene II, se tornou rainha da Mauritânia. Quanto a Alexandre Hélio e Ptolemeu Filadelfo não se sabe o que aconteceu com eles. O reino do Egito desaparece nesse período para se tornar uma província romana.

Francine Prose é uma romancista, contista, ensaísta e crítica literária norte-americana.
PONTOS POSITIVOS
Cleópatra
Egito Antigo
História
PONTOS NEGATIVOS
Muito curto
Pouco aprofundado
Cleópatra
Egito Antigo
História
PONTOS NEGATIVOS
Muito curto
Pouco aprofundado
Avaliação do MS?
Cleópatra foi injustiçada por tantos anos através de tantas representações. Mas não podemos esquecer que ela conseguiu governar por 20 anos em uma época em que era perigoso para uma mulher fazê-lo. Ela conseguiu manter o poder romano longe do Egito por todo esse tempo, mas foi enfim vencida e depois vilipendiada pela história. Ainda há muito mistério sobre seu nome e sua vida e talvez a gente nunca saiba a verdade. Três livros para o livro.
Até mais! 𓂀
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