Este livro foi uma grata surpresa! O que eu sabia sobre as Cruzadas se resume ao que aprendi no colégio e o que li por cima nos anos seguintes. Eu já estava (ainda estou, na verdade), lendo outro livro do mesmo autor, sobre a Rota da Seda, e queria ler algum outro título de não-ficção com a mesma pegada. Aqui o autor volta no tempo para nos mostrar os antecedentes da Primeira Cruzada e como ela agitou a Europa para levar milhares de cristãos para a Terra Santa. O motivo foi uma baita revelação pra mim.
O livro
O que foi a Primeira Cruzada? Nas aulas de história, aprendi que foi uma expedição militar e religiosa incitada pelo papa Urbano II com o intuito de liberar Jerusalém da crescente ameaça do Islã. E que várias Cruzadas vieram em seguida, de maneira a garantir a segurança da Terra Santa. Mas muitos autores se concentraram no discurso do papa e no cenário religioso da Europa da época para contextualizar a expedição. Milhares de cavaleiros da Europa Ocidental se lançaram em uma longa e perigosa jornada, atravessando territórios muitas vezes hostis, para chegar até o local onde Cristo viveu, pregou e morreu. Mas foi mesmo uma expedição religiosa? Seu catalisador foi mesmo a fé?
Tanto o momento desse veemente pedido de ajuda como a espetacular resposta do papa tiveram motivações políticas. O apelo bizantino fora estratégico; a resposta de Urbano, impulsionada por interesses pessoas e pelo desejo do pontíficie de sobrepujar seus rivais na Igreja ocidental.
Peter Frankopan inverte o olhar e nada na contramão da historiografia oficial do período, que se concentrou no papado e na Europa Ocidental, e olha para o Oriente, mais especificamente para Constantinopla, sede do Império Bizantino cristão. O verdadeiro catalisador da Cruzada foi o imperador Aleixo I Comneno. Em 1095, ele incitou a cruzada ao solicitar apoio do papa para defender seu reinado dos turcos. Na verdade, o verniz religioso sobre a expedição era bastante fino, porque o evento teve motivações políticas. Aleixo vinha enfrentando vários desafios ao trono desde que chegara ao poder e viu suas fronteiras sendo pressionadas por diferentes povos e nações. Depois de usurpar o trono, ele percebeu que chefiava um reino em colapso, em guerra constante e, na esperança de deter o declínio bizantino e ensaiar uma recuperação, ele enviou seus apelos ao papa Urbano II.
Urbano também vinha sofrendo pressão devido à liderança da Igreja e a crescente pressão causada pela eleição de um anti-papa, Clemente III, apoiado por Henrique IV, Sacro Imperador Romano-Germânico. Em março de 1095, Urbano recebeu um embaixador do imperador bizantino, pedindo ajuda contra as tribos turcas que dominaram a maior parte da Anatólia, anteriormente bizantina. Nessa época, ele estava reunido em concílio para discutir reformas da igreja, mas em 27 de novembro, já no final do concílio, Urbano fez seu discurso em defesa de uma expedição de cristão para a Terra Santa.
O sermão foi bastante eficaz, pois ele conclamou a nobreza e o povo, prometendo a remissão dos pecados para todos os envolvidos, e muitos se jogaram de cabeça no empreendimento, vendendo seus bens, se equipando e reunindo adeptos para seguirem em marcha. Então, de fato, havia certa fé envolvida, mas os interesses políticos e socioeconômicos dos grandes jogadores desse tabuleiro eram peças muito mais importantes. O autor analisa essas biografias e como eles se comportaram para provar suas alegações, valendo-se de cartas, poemas e cantigas de quem testemunhou o evento.
Na primeira metade do livro, Frankopan descreve o contexto oriental desse discurso, incluindo o que é quase uma história de Bizâncio nas últimas décadas do século XI. Seu relato da própria cruzada, embora forneça uma descrição ampla dos cercos de Niceia, Antioquia e Jerusalém, bem como das batalhas e lutas subsequentes, concentra-se nas relações entre os líderes da cruzada e com o imperador. E isso não é ruim. Acho que temos uma boa ideia da carnificina que se seguiu em todos os cercos e combates, mas é interessante saber como estavam os ânimos dos líderes e toda a disputa de egos entre eles e sua relação com o imperador bizantino. O capítulo final versa sobre as consequências da cruzada e destaca o encontro posterior de Aleixo com Boemundo de Tarento, um nobre de grande influência na Cruzada (e que teve uma grande hostilidade contra o imperador), além de explicar por que Aleixo foi tão vilipendiado nos relatos ocidentais.
O foco aqui é a política, os ânimos gerais dos dois lados do Bósforo e as personalidades dos envolvidos, mas também há material fascinante sobre os desafios logísticos enfrentados no abastecimento dos cruzados, o contexto ideológico de suas motivações, destacado nos debates sobre os juramentos que fizeram ao imperador Aleixo, e outros tópicos que se conectam aos temas centrais. Algumas áreas não são realmente abordadas. Não há nada sobre tecnologia ou táticas militares, por exemplo, com Frankopan passando por cima dos detalhes e sugerindo vagamente que os cruzados simplesmente tiveram sorte em suas vitórias. E ele destaca o papel de líderes muçulmanos como Abu'l-Kasim e Çaka em levar Bizâncio à ruína, mas, fora isso, o mundo islâmico permanece em grande parte em segundo plano. No que Frankopan se comprometeu a fazer, ou seja, de falar sobre como a Cruzada surgiu, ele foi bem-sucedido.
O autor também se debruça sobre uma das obras mais importantes do período, A Alexíada, escrita por Ana Comnena, filha de Aleixo, uma das primeiras mulheres historiadoras. Escrito cerca de 50 anos após a Primeira Cruzada, é preciso cautela ao analisar o documento. Ela trata a tomada do trono bizantino pelo pai como um ato heroico, quase divino e faz diversas confusões na cronologia, além de manipular eventos e exagerar fatos, sem contar com a completa ocultação de alguns fatos. Por isso, toda vez que Frankopan aborda algum fato dentro de A Alexíada, ele o contrapõe com outras fontes, principalmente turcas ou de relatos de testemunhas que estavam na marcha para a Terra Santa.
Em outras palavras, os conflitos com o mundo muçulmano não eram de forma alguma inevitáveis; parece que a ruptura das relações entre cristãos e muçulmanos no final do século XI foi o resultado de um processo político e militar, e não o inexorável conflito entre duas culturas adversárias. No entanto, era do interesse de Ana Comnena criar a impressão oposta; e é uma impressão que perdura ao longo dos séculos.
Com muitas e densas notas de rodapé e uma lista de variadas fontes para consulta, o livro voa na mão. A leitura é bastante amigável até para quem não conhece muita coisa sobre a cruzada. A tradução foi de Renato Marques e está ótima. Não encontrei problemas de revisão ou de tradução.
Obra e realidade
A maioria dos historiadores concorda que houve nove Cruzadas oficiais entre os séculos XI e XIII, convocadas pela Igreja Católica com o objetivo principal de retomar Jerusalém e a Terra Santa do domínio muçulmano, sem contar as cruzadas populares. A violência e a intolerância são algumas de suas principais consequências, além da criação de ordens de cavalaria, como os Templários, para proteger peregrinos e rotas comerciais até Jerusalém e os estados latinos. Antes mesmo de seguirem para o Oriente, hordas de peregrinos e camponeses (a chamada Cruzada Popular) promoveram saques e o massacre de comunidades judaicas inteiras na Europa, aumentando o abismo entre cristãos e judeus.Ainda que tenha auxiliado na recuperação de partes da Anatólia para o Império Bizantino, a hostilidade e as divergências entre os cavaleiros ocidentais e os cristãos ortodoxos geraram forte desconfiança, agravando fissuras que culminariam no Saque de Constantinopla em abril de 1204, durante a Quarta Cruzada. Aleixo pediu a ajuda do Ocidente para salvar seu reino e acabou caindo no ostracismo pela história, enquanto Urbano levou a fama de conclamar os cristãos a lutar pela fé e pela igreja. A presença dos cruzados também abriu novas rotas comerciais no Mar Mediterrâneo e repúblicas italianas, como Gênova e Veneza, lucraram intensamente com o transporte marítimo e a criação de entrepostos, movimentando a economia feudal.

Peter Frankopan é um historiador, pesquisador e professor universitário britânico, autor de vários livros.
PONTOS POSITIVOS
História Medieval
Bem escrito
Fontes e notas de rodapé
PONTOS NEGATIVOS
Preço
Acaba rápido!
História Medieval
Bem escrito
Fontes e notas de rodapé
PONTOS NEGATIVOS
Preço
Acaba rápido!
Avaliação do MS?
Este livro é mais uma obra incrível a chegar ao público leitor brasileiro que adora história divulgação científica. Com muitas fontes e uma escrita agradável, o livro é um deleite para aqueles mais entendidos de história medieval e aqueles curiosos de plantão. É daqueles livros preciosos da estante para se consultar de tempos em tempos. Cinco aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!
Até mais! 🌍
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