Starfleet Academy: um balanço

Uma das séries mais polarizadoras dos streamings chegou ao final de sua primeira temporada e já anunciaram que ela não viverá para ver uma terceira, o que é uma pena. Starfleet Academy explora a formação de jovens oficiais da Frota Estelar no século XXXII, depois dos eventos apresentados em Discovery, em um mundo que está voltando a confiar na Federação, voltando a se unir por um bem comum.

Starfleet Academy: um balanço

Já vou adiantar o expediente: se você veio aqui pra me xingar ou xingar a série, dizendo que ela não respeita o legado de Roddenberry, dizendo que é uma porcaria, que é lixo woke, dê meia volta e vai se divertir. Vai viver a vida, vá respirar ar puro. Você pode comentar e criticar sem ser um babaca.

Sempre pensei que seria interessante ter uma série que se passasse na Academia da Frota Estelar. Por várias vezes, em várias séries, os personagens relembram seus tempos de estudantes, suas aventuras nos bares locais, exercícios ou atividades que fizeram ou as conversas com Boothby, o zelador da propriedade. Eu gostaria de ter visto essa série, por sua vez, se passando na linha do tempo regular, não no século XXXII, mas beleza. As mentes criativas por trás das séries novas querem apostar tudo no futuro distante para continuar cativando o público órfão de Discovery.

A premissa é simples: uma nova geração de cadetes entra para a Academia, inaugurando um novo momento para a Federação, antes preocupada com guerra e conflito. Ela começa 150 anos após o fechamento da Academia devido aos efeitos políticos d"A queima”, evento apresentado em Discovery. Ela traz também um pensamento bastante atual, diante de tudo o que temos acompanhado pela televisão. Uma série que reforça a importância da cooperação, da diplomacia, da educação e de conhecer o outro (algo que sempre esteve presente em Star Trek, desde seu primórdios). Esses jovens têm diferentes origens e histórias, cada um com seus motivos para estar lá.

Uma das coisas mais legais de uma série que mostre uma geração mais nova é justamente poder ver pessoas cometendo erros. Os supernerds do espaço ainda estão em formação, então eles ainda passarão por muito aprendizado até chegarem às naves e estações monumentais que vemos nas séries e filmes anteriores. Temos jovens competitivos, inteligentes, que cometem erros, que bebem um pouco demais numa confraternização, que se apaixonam e brigam ao mesmo tempo, tudo isso tendo aulas e participando de simulações de combate. Alguns rostos que já conhecemos estão presentes como professores na Academia, como o querido Doutor, médico da USS Voyager, interpretado pelo veterano ator Robert Picardo; a Engenheira-Chefe da Discovery e Comandante Jett Reno, pela brilhante Tig Notaro, e a fofa tenente Sylvia Tilly, também da Discovery, pela atriz Mary Wiseman.

Essa primeira temporada de Starfleet Academy foi bastante irregular. Temos episódios que resgatam o que Star Trek sabe fazer de melhor, que é encontrar soluções para dilemas morais, questões sobre a empatia e como resolver conflitos, encontrando saídas muitas vezes científicas para problemas. Porém, a série tem uma tripulação jovem, então ela também se torna uma série juvenil, algo que Star Trek pouco trabalhou. E a série sofre do mesmo problema que vemos em Discovery e em Picard: a falta de tempo para desenvolver tudo o que a série está propondo em tela.

Starfleet Academy

Começamos a série com o drama do jovem Caleb Mir, que vê a mãe (Tatiana Maslany) ser encarcerada e, depois de anos, é reencontrado pela chanceler da nova Academia, Nahla Ake, interpretada por Holly Hunter. Mir segue a linha da jornada do herói de forma didática demais para os fãs mais velhos, mas que pode ter um apelo nas audiências mais novas, justamente por ele ser um jovem em busca de um propósito, de um lugar no mundo (e no universo). Essa é uma jornada que pode não ter apelo aos fãs cinquentões, mas que cativa um público mais jovem.

A primeira temporada contou com apenas 10 episódios para contar sobre a reabertura da Academia e todos os problemas que isso pode gerar, sobre a reconstrução da sede da Federação, sobre o vilão Nus Braka (Paul Giamatti), um híbrido de Klingon e Tellarita que atuava como pirata Venari Ral e que aporrinha a capitã Ake desde o começo, sobre a jornada dos outros cadetes, cada um vindo de uma cultura e sociedade diferentes... Percebe o problema? É muito assunto, são muitos personagens, são muitos arcos para se tratar em apenas 10 episódios. O escopo de Academy deveria ser menor para ter tempo de trabalhar todos esses temas, o que não aconteceu. Resultado: tivemos episódios bons intercalados com episódios previsíveis e que foram salvos pela excelência de seu elenco mais velho, que sabe como levar adiante um roteiro ruim.

As séries mais antigas, como A Nova Geração, Deep Space Nine, Voyager, Enterprise, contavam com mais de 20 episódios anuais para trabalhar todos os personagens, o monstro da semana e ainda ter um problema geral de fundo sendo discutido. Deep Space Nine tinha um elenco gigante, principalmente de personagens secundários, e todos eles tiveram um tempo maravilhoso para se desenvolver, enquanto mostrava episódios de exploração espacial e a guerra contra o Dominion. Discovery não teve isso, Picard não teve isso e, infelizmente, Starfleet Academy também não teve. O tempo conta na hora de desenvolver personagens. E se a gente tem pouco tempo para desenvolver bons personagens, é preciso de bons roteiros, como Strange New Worlds muitas vezes tem mostrado.

Starfleet Academy

Mas ao mesmo tempo em que tivemos episódios irregulares, também tivemos discussões brilhantes sobre o que Star Trek faz de melhor. Oded Fehr, o almirante Charles Vance, disse em uma entrevista que precisamos de Star Trek nas nossas vidas. Precisamos daquela empolgação pelo desconhecido que os jovens apresentam, precisamos daquele olhar otimista. É preciso lembrar que a Frota Estelar e a Federação saíram de um momento sombrio para tentar recomeçar. É importante mostrar que mesmo depois desses períodos, ainda podemos contar com inteligência, diplomacia e bom senso, algo que anda tão em falta ultimamente.

Holly Hunter dá um banho nos atores mais jovens, que podem se beneficiar muito com tantos atores veteranos em cena. A chanceler e capitã Ake é meio humana, meio lantanita, bastante excêntrica, e tem muitos anos de estrada atuando pela Frota Estelar (Picard jamais andaria descalço pela Enterprise). Seu arqui-inimigo é Nus Braka, também muito bem interpretado pelo veterano ator Paul Giamatti. O Doutor já é um querido pelos fãs mais antigos e foi uma adição revigorante a uma série repleta de easter eggs ao longo dos episódios.

E por fim, fica aqui o lembrete: nem mesmo A Nova Geração tem uma primeira temporada boa. Se a pessoa for se basear apenas nela, nunca mais vai querer acompanhar as aventuras de Picard e sua Enterprise D. Deep Space Nine foi a mesma coisa, Voyager idem. Enterprise, então, nem se fala. E aí os magos da televisão matam a série na segunda temporada, sem dar tempo a ela, seus arcos e seus personagens. Uma pena mesmo. Mas acredito que, no frigir dos ovos, Starfleet Academy nos lembra que é bom ter ideais. Que é bom a gente pensar num futuro melhor. Nós vamos falhar e tropeçar, e aprender no processo, mas no fim todos nós começamos nossas carreiras em uma sala de aula com os nerds, a turma do fundão e um professor bem-intencionado para nos guiar.

Vida longa e próspera! 🖖

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