Sou uma ávida leitora de true crime e de thrillers de investigação. Não me interesso pelos detalhes sangrentos, eu quero saber como eles foram pegos, quero entender o que os levou a isso e se as vítimas foram encontradas ou se tiveram a justiça que mereciam. Este livro aqui é fictício, mas se baseia em um famoso serial killer, que assolou os Estados Unidos nos anos 70 e 80. Porém, seu foco é na luta por justiça daquelas que ficaram com as lembranças de entes queridos que partiram.
O livro
É um sábado à noite de janeiro de 1978. Há um clima de animação na irmandade, no campus da Universidade Estadual da Flórida. As garotas estão se arrumando, se maquiando, se preparando pra sair e curtir a noite, mas Pamela Schumacher decide ficar em casa cuidando dos afazeres da irmandade, da qual é presidente. No meio da madrugada, ela acorda com barulhos estranhos e levanta para investigar. O que ela encontra é sangue, caos, vítimas e mutilações. Ao ouvir passos, Pamela os segue e fica frente a frente a um assassino em série que no livro nunca é nomeado. É chamado apenas de Réu.
As velhas almas são apenas pessoas que tiveram que se defender sozinhas antes do tempo.
As semanas seguintes são difíceis para Pamela e as garotas da irmandade. Duas das moças morreram, duas estão mutiladas no hospital e mais uma vítima foi pega pelo Réu em um apartamento fora do campus. A mídia faz um circo em cima, sem se preocupar se estão expondo as garotas, e as autoridades fizeram uma bagunça, já que o Réy era fugitivo de outros estados, onde também tinha deixado vítimas. Mas para convencer a justiça a fazer a coisa certa, Pamela precisa se aliar com alguém. É então que surge uma das personagens mais fortes do livro, Tina Cannon, que também está atrás do Réu, depois que sua amiga Ruth desapareceu em um parque público, sem deixar rastros.
Em boa parte da leitura, ficamos com medo de que o Réu voltará a qualquer momento. É fácil reconhecer que o Réu em questão é o notório assassino em série Ted Bundy, executado na cadeira elétrica em 1989. Foi uma grande sacada da autora, pois Bundy foi considerado uma estrela pela mídia e pelos tablóides, considerado bonito e charmoso, e alguns jornais ainda diziam que ele era inteligente, já que estava fazendo a própria defesa. Mas tudo isso não passa de mentiras criadas para vender revistas. O mito do assassino em série superinteligente é culpa de Hannibal Lecter, pois na realidade, eles não eram mestres do crime.
Pamela percebe que o Réu se tornou uma celebridade, o que demonstrava um enorme desrespeito pelas vítimas e pelas mulheres que sobreviveram. Enquanto parte em busca de pistas que possam ajudar a aumentar a condenação do Réu, avançamos e retrocedemos no tempo na vida das duas, conhecendo outras mulheres, até mesmo outras vítimas, que tiveram suas vidas interrompidas. Mulheres brilhantes que nunca terminaram a faculdade, que não tiveram uma carreira por terem suas vidas interrompidas. E aquelas que tiveram as vidas impactadas pela ação do assassino. Essas vidas importam, então por que a mídia não falava delas?
Tina é a única que fornece a Pamela algum consolo, alguma verdade, já que também perdeu alguém para o Réu. Mas ela é considerada perigosa pela polícia, uma louca delirante que odeia homens. Que mulher nunca foi acusada disso apenas por falar as coisas como elas são? Por agir seguindo sua própria cabeça, suas ideias? Pamela também sente que não está alcançando seu potencial ao aceitar ir para uma faculdade menor, quando ela foi aceita numa das maiores do país? As ações do Réu não podiam imobilizá-la, ela pensa. Ela precisava agir por todas, inclusive ela mesma, e é o que a mantém firme durante o julgamento do Réu, em que ele tenta parecer o grande advogado que pensava ser.
Li algumas resenhas negativas pela rede, dizendo que o livro engana as leitoras, pois parece ser sobre true crime. Na verdade, ele é sim. A parte fictícia é apenas sobre Pamela e Tina e sua busca por justiça, mas os crimes cometidos pelo Réu são verdadeiros, inclusive alguns detalhes do que ele fez com uma das vítimas, que no enredo de Knoll é a melhor amiga de Pamela, Denise. Já adianto que a autora não se demora nesses detalhes, mas ela os comenta para mostrar a perversidade daquele que os jornais chamavam de carismático.
Como essa história é sobre a luta das sobreviventes, das pessoas que cruzaram o caminho do Réu, a leitura pode decepcionar aqueles que pensam ser uma investigação criminal. Em alguns momentos, admito que a leitura foi bem devagar, porque Knoll faz questão de construir as identidades das personagens, algumas vezes até a exaustão. Ela não tem medo de mostrar os defeitos e virtudes das mulheres, mas sempre ressalta que ninguém merecia morrer daquela forma, nem ter seu nome esquecido para enaltecer a vida e o suposto carisma do Réu.
Considere este meu próprio aviso: o homem não era nenhum gênio diabólico. Ele era um incelzinho comum que eu vi cutucar o nariz no tribunal.
O livro tem alguns errinhos de revisão bem irritantes, com palavras faltando ou com erro de grafia. A tradução foi de Karine Ribeiro e está muito boa.
Obra e realidade
Ted Bundy foi um dos mais violentos assassinos em série. Apesar de ter confessado a morte de 30 mulheres para evitar a cadeira elétrica, o que ele não conseguiu, a polícia acredita que suas vítimas podem beirar o número 100. Pouco antes de ser definitivamente preso e julgado, ele invadiu o prédio de uma irmandade na Flórida, estuprou e matou duas estudantes e feriu seriamente outras duas. Ele ainda conseguiu ferir uma segunda moça, fora do campus, além de sequestrar e matar uma criança.O circo midiático em torno de seu nome acabou elevando a fama dos assassinos em série como mestres do crime. Na verdade, a polícia teve azar em muitos momentos, além da falta de preparo ou conhecimento de lidar com crimes em série, sem contar o preconceito ao investigar casos de mulheres jovens desaparecidas ou até mesmo prostitutas. Caso a polícia levasse a sério seu trabalho, muitas vidas, muitas garotas brilhantes, teriam sido poupadas.

Jessica Knoll é uma escritora norte-americana. Foi editora sênior da revista Cosmopolitan e chefe de redação da Self.
PONTOS POSITIVOS
Pamela e Tina
Bem escrito
Construção de personagens
PONTOS NEGATIVOS
Pode ser lento
Violência contra mulher
Pamela e Tina
Bem escrito
Construção de personagens
PONTOS NEGATIVOS
Pode ser lento
Violência contra mulher
Avaliação do MS?
Foi uma leitura intensa e, por vezes, perturbadora. Volta e meia eu tinha que respirar fundo, fosse por uma cena difícil, fosse por ser um capítulo mais devagar. Fiquei pensando nesse livro por um bom tempo, de como ele nos mostra o outro lado, o das vítimas. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!
Até mais!
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