Resenha: Herdeiros do Tempo, de Adrian Tchaikovsky

Um dos meus livros favoritos de ficção científica, ganhador do Arthur C. Clarke Award, Children of Time, ganhou uma edição primorosa da Morro Branco em 2022! Os fãs de FC não ficarão desapontados com esta saga que atravessa gerações e descreve a perseverança humana em busca por um novo lar, já que não se pode mais viver na Terra. Mas nem tudo vai dar certo...

Parceria Momentum Saga e Editora Morro Branco


O livro
No futuro, a raça humana conquistou o espaço por meio de uma tecnologia muito avançada, sendo capaz de transformar planetas e prepará-los para a colonização. A história começa em órbita de um planeta que passou pela terraformação e está prestes a receber um contingente de primatas que serão geneticamente modificados por um avançado nanovírus. Como a situação política e ambiental na Terra vem se degradando a passos largos, a única esperança viável é buscar um lar no espaço. Mas encontrar planetas adequados para a vida humana se mostrou algo muito difícil. Daí a terraformação.

Resenha: Herdeiros do tempo, de Adrian Tchaikovsky

O problema é que um grupo na Terra é contra qualquer manipulação genética, qualquer máquina avançada que altere o estado natural das coisas. A oposição deles ao projeto dos primatas é intensa a ponto de conseguirem sabotar estações espaciais e naves. É o que acontece com a estação em órbita no momento em que o ambicioso projeto de modificação genética deveria começar. A responsável pelo projeto, Dra. Avrana Kern, só pode se colocar em hibernação à bordo de uma cápsula de resgate e torcer pelo melhor.

A história segue dois pontos de vista: do povo que se desenvolveu no planeta de Kern (milhares de anos depois) e a dos sobreviventes da raça humana à bordo de uma nave chamada Gilgamesh (também milhares de anos depois). O nanovírus que deveria transformar os primatas em seres sencientes acaba transformando outra população no planeta, é uma das que mais rápido se desenvolve e se torna inteligente. Passamos boa parte do livro imaginando o que vai acontecer se estas duas civilizações se encontrarem, pois um entendimento parece praticamente impossível.

РChegamos ṭo longe, e ainda cometemos os erros mais antigos.

Página 16

Este é um enredo que atravessa gerações, milhares de anos através do tempo e do espaço, abordando diversos temas. Além da vastidão do espaço, da raridade da vida complexa e de planetas capazes de suportá-la, fala da solidão e da esperança. Não se navega em um lugar tão hostil assim sem ter a esperança de dias melhores, enfrentando adversidades que ficam ainda maiores no espaço. Cada povo no livro tem seus motivos para sobreviver, para perseverar, porque se não fizerem isso, não haverá um amanhã para nenhum deles.

Também é um livro que toca na questão ambiental, reforçando que não existe uma Terra 2 esperando por nós em algum lugar. Que mesmo tentativas bem intencionadas de recriar o ambiente terrestre podem dar incrivelmente errado por situações que fogem de nosso controle. Adrian conseguiu descrever estes dilemas e desafios para ambos os povos sem soar maçante, sem ser árido, sem emoção, sem envolvimento com os personagens. Mesmo os personagens não humanos são surpreendente bem construídos, dotados de uma consciência que foi bem construída e descrita.

Aliás Adrian conseguiu manter um senso de deslumbramento muito presente no enredo. Tudo é novo e assustador, às vezes mortal, mas nunca será chato ou difícil de entender. Sei que o medo de muita gente ao ler ficção científica é com relação a termos complicados, mas não tema. Mesmo quando descreve uma tecnologia, que neste universo é muito avançada, a ponto de os tripulantes da Gilgamesh se referirem ao "velho império", essa explicação não é truncada, chata, cheia de detalhes. Ainda é um lugar que você reconhece por mais avançada que seja a tecnologia que permite uma viagem de centenas de anos. Mas nós percebemos um avanço que é muito superior a qualquer coisa que temos hoje ou no futuro próximo.

A bordo da Gilgamesh conhecemos Lain, a engenheira-chefe e o classicista Mason, membros da tripulação principal da nave e muitos eventos do livro ocorrem com eles, que dedicam sua vida a encontrar um planeta habitável para os humanos. Tantos eventos distintos acontecem nas duas narrativas que é difícil escolher os melhores. E mesmo com todo o tema ambiental, com todo o medo de nunca encontrar um novo lar, os problemas da missão e o longo tempo que se passa, o livro é espantosamente otimista, um tom clarkeano que os fãs vão curtir muito. Ultimamente o que mais precisamos são de livros com tom otimista.

Adrian também discute racismo, machismo, religião, evolução e a própria natureza do que significa humanidade. Ela está restrita apenas ao ser humano? Ou será que podemos encontrar aspectos humanos em seres que nunca seriam considerados assim? A convivência é possível nesses casos? Sabemos o quanto o ser humano teme o desconhecido e tudo o que é diferente dele e é por isso que a leitura de Herdeiros do Tempo fisga os leitores, porque esse desconhecido tem tantas similaridades com a gente que fica impossível não nos vermos refletidos nele.

O livro bem em capa comum e papel amarelo, acompanhado do já clássico marcador personalizado da editora. A tradução foi de Fábio Fernandes e está ótima. Praticamente não encontrei erros de revisão ou de tradução.

Obra e realidade
Um dos aspectos mais interessantes do livro é pensar na humanidade numa escala de milhares de anos. Nossa necessidade de sobreviver a qualquer custo pode nos levar a fazer as coisas mais imbecis e depois os outros é quem pagam o preço. Todos os personagens do livro são movidos pela sobrevivência e pelo medo do desconhecido. E quanto a Terra não pode mais nos abrigar, a raça humana é obrigada a se lançar no espaço, quase sem rumo, estudando os restos de uma civilização que eles nunca conheceram, sem saber o que os esperam.

Este livro é um épico sobre a natureza da consciência dos indivíduos, sobre o instinto de sobrevivência, sobre a evolução dos seres contra todas as expectativas. Também temos a discussão sobre como é difícil entender o outro quando ele é tão diferente de nós, mas quem disse que não devemos tentar?

Adrian Tchaikovsky

Adrian Tchaikovsky é um escritor britânico de fantasia e ficção científica, tendo estudado zoologia e psicologia na faculdade.

Pontos positivos
Lain e Mason
Portia e Bianca
Atravessa várias gerações
Pontos negativos

Preço
Começa devagar

Título: Herdeiros do tempo
Título original em inglês: Children of Time
1. Herdeiros do tempo
2. Children of Ruin
3. Children of Memory
Autor: Adrian Tchaikovsky
Tradutor: Fábio Fernandes
Editora: Morro Branco
Páginas: 520
Ano de lançamento: 2022
Onde comprar: na Amazon!

Avaliação do MS?
Apesar do começo tão desastroso para a raça humana e as dúvidas que temos sobre como a Gilgamesh vai sair dessa, este é um livro espantosamente otimista. O autor desafiou alguns estereótipos da ficção científica entregando uma space opera incrível, onde você se recusa a deixar os personagens quando tudo termina. Uma epopeia espacial sobre a sobrevivência e sobre responsabilidades. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também.

MUITO BOM!

Até mais! 🕷

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