Já vivemos em um planeta artificial

Se você assistiu ao filme Wall-E deve se lembrar das cenas que mostram o planeta Terra entulhado de lixo no futuro. Tanto é que o robô Wall-E foi criado para desentulhar o planeta para que a raça humana pudesse voltar de sua longa estada no espaço. Era tanto lixo que o robozinho criava pilhas do tamanho de edifícios de tralha compactada. Pois é. Ao que parece nós já chegamos neste ponto sem retorno em que a massa antropogênica, que recentemente dobrava a cada 20 anos, mais ou menos, ultrapassou toda a biomassa global.

Já vivemos em um planeta artificial


Em 9 de dezembro de 2020, o artigo Global human-made mass exceeds all living biomass foi publicado na revista Nature. Pesquisadores do Weizmann Institute of Science em Israel quantificaram a massa produzida pelas atividades humanas, a massa antropogênica, e a compararam com a biomassa do planeta. Em 2020, um pouco para mais e para menos, a massa antropogênica ultrapassou a biomassa. Em média, pouco mais que a mesma massa corporal equivalente a uma pessoa no planeta é produzida por semana. Multiplique isso por 8 bilhões...

Não é difícil perceber isso no nosso dia a dia. Chegamos agora em 2022 a 8 bilhões de habitantes. São bilhões de automóveis, smartphones, tablets, computadores, casas, edifícios, fábricas, estradas, ruas, sem contar a massa colossal de roupas e plásticos. E toda essa produção também gera resíduos. No que se refere à nossa esfera individual, não parece que nossas atividades impactem tanto no meio ambiente, mas se somarmos toda a atividade humana, o sinal de alerta se acende.

O conceito do antropoceno — do grego anthropos, que significa humano, e kainos, que significa novo — foi popularizado em 2000 pelo químico holandês Paul Crutzen, vencedor do Prêmio Nobel de Química em 1995, para designar uma nova época geológica caracterizada pelo impacto da humanidade na Terra. Ao quantificar a produção de massa artificial, os pesquisadores queriam demonstrar quantitativamente o que significa de fato essa designação.

A comparação entre essas duas massas, a dos vivos e a dos nossos objetos, alerta para a crescente dominação dos humanos no planeta. Por muito tempo existiu esse mito de que o planeta era um lugar de recursos infinitos e que seria possível produzir e consumir sem pensar no amanhã. Para se ter uma ideia, em 1900, a massa antropogênica beirava os 35 bilhões de toneladas. Isso dobrou em meados do século XX, acelerando no pós-Segunda Guerra Mundial, para chegar ao meio trilhão de toneladas no final do século. Se as tendências atuais se mantiverem, em 2040, chegaremos ao triplo disso. É o cenário de ficção científica se estabelecendo.

Essa visão de que o planeta é um grande depósito infinito de recursos também gerou a visão de que o ser humano é o ápice da evolução, um ser separado do ambiente em que vive por ser capaz de produzir cultura e por modificar o meio no qual está inserido. A questão é que nós somos parte da biosfera. Surgimos e evoluímos de acordo com os ritmos do planeta e dependemos dele para sobreviver. A pandemia da Covid-19 mostrou o quanto somos sensíveis às mudanças ambientais e como nossas atividades impactam na biosfera.

As atividades humanas estão impactando na biosfera, na atmosfera e nos nossos modos de vida. Somos testemunhas do encrudescimento do clima, do surgimento dos negacionistas e da desinformação desenfreada. Nós temos condições de refrear o impacto de nossas atividades, pois a ciência encontra maneiras de suprir necessidades quando os gargalos tecnológicos chegam. Se é possível, por que as mudanças são tão vagarosas? Por que a humanidade está jogando suas tralhas nas gerações futuras, sendo que há condições de mitigar nossos impactos agora?

Escritores de ficção científica são contratados não é de hoje para extrapolar cenários futuros e apontar tendências. Os tomadores de decisão não parecem ser capazes de fazer esse tipo de exercício, nem de ouvir aqueles que fazem. O capitalismo está entulhando o planeta e não há lugar algum para ir, diferente do que vemos em Wall-E. Lá as pessoas embarcaram em naves estelares confortáveis e viveram tranquilamente até a Terra voltar a produzir vegetação. E nós? O que temos?

Até mais!


Leia também:
How Plastic Is Trashing the Planet - Junior Scholastic
Anthropocene: human-made materials now weigh as much as all living biomass, say scientists - The Conversation


Já que você chegou aqui...

Comentários

  1. Assustador demais Sybylla. Eu assisti Wall-E outro dia com o meu filho e percebi que ele (por ser ainda muito pequeno) não entendeu muito bem a "função" do robôzinho, o porquê dele estar construindo aqueles prédios de lixo prensado. Explicar isso para ele foi surreal porque, ao mesmo tempo que é um filme de ficção, é muito próximo da nossa realidade também. Uma visão aterradora do futuro. E olha que, como você mesmo disse, infelizmente não temos naves espaciais para habitar enquanto esperamos o problema ser resolvido. Beijos!

    Não Me Mande Flores

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    Respostas
    1. A gente está tão acostumada a ver o lixo "desaparecer" depois que coloca na rua ou na caçamba do prédio que não pensa no depois, no que acontece com ele em seguida. E aí fica difícil mesmo explicar pros pequenos como isso se relaciona com o filme.

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