Resenha: Fifty Words for Rain, de Asha Lemmie

Me deparei com este livro no Instagram em uma dessas indicações de tags literárias. Um perfil disse que esse livro deixava qualquer pessoa que o lesse em prantos. Adorei a dica, né? Nem gosto de livro assim. Então peguei Fifty Words for Rain para ler e tenho que concordar com a indicação de que ele abala mesmo as estruturas. É uma longa e corajosa jornada de uma bastarda em um Japão pós-guerra.





O livro
Kyoto, 1948. Nori não sabe porque sua mãe a deixou na porta daquela grande mansão. Afinal, como poderia saber? É só uma criança, tem apenas oito anos. Mas ela não pretende questionar sua mãe. De frente para aquele magnífico portão, sua mãe lhe dá uma série de instruções severas sobre como se comportar dentro daquela casa. E sendo sua primeira e mais importante lição, não pretende desobedecê-la.

Resenha: Fifty Words for Rain, de Asha Lemmie


Não questione. Não lute. Não resista.

(tradução livre)

Noriko "Nori" Kamiza é uma bastarda. Filha de uma princesa japonesa com um afro-americano. A desgraça que isso trouxe para a nobre família Kamiza, ligada ao imperador, é imensa e acaba personificada na pobre da menina, largada na calçada enquanto sua mãe entra de volta no táxi e vai embora. Aliás foi uma partida muito cruel, a garganta já dá aquela travada com o desamparo dessa criança. Sem saber o que fazer, resolve obedecer à mãe. Sobe as escadas, toca na porta e espera.

As passagens de tempo costumam ser rápidas no livro. Nori acaba escondida e confinada no porão da casa por sua avó, sob os cuidados apenas de uma criada. Nori passa por banhos químicos fortes na esperança que isso "clareie" sua pele. A negligência é imensa. Nori tem perguntas, mas ninguém para respondê-las, apanha com frequência da avó e conta os dias para que sua mãe venha buscá-la, pensando se já teria passado no teste de resistência. É tudo muito triste, pois fica óbvio com o passar do tempo que sua mãe não tem intenção de retornar. O que isso faz com a cabeça de uma criança, eu nem consigo imaginar.

A vida de Nori muda quando ela conhece seu meio-irmão mais velho, obrigado a se mudar para Kyoto pela avó, que se vale de persuasão e dinheiro para controlar quem quiser. O garoto, por sua vez, acaba se aproximando de sua irmã e lhe mostra, à sua maneira, bondade e um pouco de liberdade que a garota nunca tivera antes. É interessante acompanhar a dinâmica dos dois, pois Akira é muito rígido, controlado, daqueles que não gostam de se sujar em uma incursão no jardim, mas ele se vê concedendo essas liberdades para uma garotinha que ele logo percebe ser vítima dos abusos da avó.

É a dinâmica e o relacionamento desses irmãos que vai reger a narrativa a partir daqui. O garoto é a esperança da avó de manter sua antiga dinastia viva, ainda que o imperador tenha extinguido uma série de privilégios para as famílias nobres. Porém, para a avó dos dois, essa linhagem, esse poder, ainda significam algo, afinal ela é prima do imperador. E ela vê Nori como uma pedra no brilhante caminho que prevê para Akira. Então pode imaginar o inferno que essa mulher tornará na vida dos dois, certo?

Sinto que esta vida é
Triste e insuportável
Embora eu não possa fugir
Já que não sou um pássaro.

(tradução livre)

Quando o perfil do Instagram disse que esse livro acabava com a gente, ele não estava mentindo. A vida de Nori é de fato muito triste. Acompanhamos essa menina sofrendo coisas inimagináveis, coisas que criança nenhuma deveria passar. Nori é vista como um fardo, como uma ameaça em um país que também está passando por uma nova fase, uma fase de descobertas, uma fase de muita tensão devido à presença norte-americana no arquipélago. E Nori acaba sendo a materialização desta presença, sofrendo com o preconceito descarado e aberto de muita gente.

As lágrimas fluíram muito fácil com a jornada de Nori. Às vezes é até insuportável, principalmente quando ela se comporta de maneira intragável e petulante. Mas como impedir essa criança a se comportar dessa forma se por tanto tempo ela nunca teve alguém para instruí-la? Sem nunca conhecer o cuidado, o amor, a atenção, ela acaba fazendo coisas questionáveis, acreditando que desta forma será amada, cuidada e vista. Mas não é assim que muitas coisas acontecem e as consequências são terríveis em alguns momentos. É doloroso demais saber o que invariavelmente acontecerá com tal comportamento, mas só podemos acompanhar sua jornada com esse lamento mudo porque não podemos segurar Nori pelos ombros e dizer "para, não faz isso".

A narrativa é, principalmente, pelo ponto de vista de Nori, mas às vezes temos visões de outras pessoas, como a do próprio Akira ou da empregada responsável por cuidar de Nori no primeiro terço do livro. São observações bastante tristes, inclusive, pois sabemos que são verdade. Gostei de ver como a autora inseriu estas observações, saindo um pouco do eixo de Nori e mostrando a forma como outras pessoas a viam. Como falei acima, é difícil conter as lágrimas.

Os direitos do livro já foram vendidos e tem o envolvimento de Malala na Apple TV+. Espero que com o lançamento da série o livro também acabe aparecendo por aqui, porque olha, que livro!


Obra e realidade
No idioma japonês existem, de fato, 50 palavras para chuva. Garoa, chuva de verão, chuva forte, chuva ao amanhecer, ao entardecer, à noite, com raios, com vento. O arquipélago japonês tem longas semanas de chuva e de certa forma é poético notar como o idioma se dedica a observar a estação das chuvas, dando um termo para cada tipo e momento em que ela cai. Nori menciona o fato em uma conversa com Akira e aí passamos a entender porque o livro tem esse título.

Li algumas críticas mencionando o fato de Asha Lemmie não ter conhecimento da cultura japonesa e de ter mostrado a cultura de forma negativa. Asha viajava para o Japão desde pequena para a casa da madrinha, em Kyoto, onde aprendeu o idioma e os costumes locais. Segundo uma entrevista, Asha disse que ser uma mulher negra que amava a cultura japonesa não era algo socialmente aceitável, pois quando alguém se desvia dos estereótipos predefinidos, as pessoas logo se opoem a isso.

Asha Lemmie


Asha Lemmie é uma escritora norte-americana. Formada em Literatura Inglesa, começou a escrever Fifty Words for Rain ainda no ensino médio.


Pontos positivos
Nori e Aira
Racismo e xenofobia
Leitura tensa
Pontos negativos

Violência
Não tem em português


Título: Fifty Words for Rain
Autor: Asha Lemmie
Editora: Dutton
Páginas: 463
Ano de lançamento: 2020
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Pensei que não fosse gostar tanto do livro como gostei. Chegou uma hora que eu precisava urgentemente terminar para saber como seria o fim daquelas personagens. E admito que, ainda que as resoluções não tenham vindo como muita gente espera, o livro foi bastante satisfatório. Nori é uma grande personagem e caminhar ao seu lado foi uma grande jornada, ainda que sofrida. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!




Até mais! ⛩️


Já que você chegou aqui...

COMPARTILHE

2 COMENTÁRIOS

  1. Faz tempo que eu não leio um livro que tenha me feito chorar, ficar emocionada mesmo. Já era sensível a isso antes, mas agora que sou mãe, fico ainda mais abalada quando leio/vejo injustiças e violência com crianças, abala meu mundo mesmo. Gostei da indicação, quero ler!

    Não Me Mande Flores

    ResponderExcluir
  2. Uau, Sybylla.
    Só de ler sua resenha me sensibilizei, se pegar o livro me desmancho, ahahha.
    Faz um tempo que não leio algo mais denso.
    Gostei da recomendação e da resenha!
    Tenha uma boa semana!

    ResponderExcluir

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, com Desconhecido ou Unknown no lugar do nome, em caixa alta, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.

O mesmo vale para comentários:

- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.

A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.