A crueldade de nossos tempos em O Preço do Amanhã

Apesar da atuação fraca de Justin Timberlake, acredito que O Preço do Amanhã (In time, 2011) seja um filme brutalmente atual e que dialoga com as rápidas, e às vezes insanas, interações que temos com as outras pessoas em um mundo onde "tempo é dinheiro". O longa de Andrew Niccol leva essa constatação ao extremo em uma metáfora inquietante: em um mundo que zerou o relógio do envelhecimento, é possível comprar e vender tempo, além de usá-lo como moeda corrente. Todas as pessoas param de envelhecer aos 25 anos de idade quando seus relógios, displays verdes implantados no braço, começam a rodar. E esse filme não está tão distante assim da gente.





Segundo o Dicionário Oxford, o capitalismo é “um sistema econômico e político no qual o comércio e a indústria de um país são controlados por proprietários privados com fins lucrativos, e não pelo Estado”. Criticado por intelectuais, especialmente por Marx, que o acusava de ser imoral, esse sistema é hoje usado no mundo todo. O que muitas vezes se questiona são suas consequências em nosso futuro, já que o capitalismo tende a ter efeitos terríveis como o aprofundamento das desigualdades e a degradação do meio ambiente. Desde a sua criação, muitos artistas denunciaram como eram as sociedades desumanas que funcionavam com base em teorias capitalistas.

O cineasta Andrew Niccol tem vários filmes onde critica a sociedade capitalista e em O Preço do Amanhã ele eleva a crítica em uma sociedade brutal onde existem apenas ricos e pobres. Não há classe média neste universo e como é muito caro mudar de uma zona para outra, ricos e pobres também nunca se encontram, morando em 12 zonas de tempo rigidamente controladas por guardiões. Ao invés de medir o valor das coisas em centavos ou dólares, tudo custa minutos, horas, dias.

Will Salas (Justin Timberlake) mora com a mãe, Rachel (Olivia Wilde) em Dayton, uma espécie de gueto dentro de uma das 12 zonas de tempo. Trabalhador braçal numa fábrica, a pequena família vive no aperto já que as coisas sobem constantemente de preço, obrigando as pessoas a trabalhar mais ou se arriscar em jogos de azar na esperança de conseguir mais tempo. É possível notar que as ruas de Dayton são em geral vazias à noite. Não há diversão a não ser frequentar um bar. Não há áreas de lazer, afinal quem conseguiria pagar por elas? Tudo o que vemos são construções cinzas, sem vida, fábricas, ruas vazias e locais para empréstimo de tempo com juros cada vez mais absurdos.

Ser pobre é extremamente perigoso em Dayton. Quem precisa contar cada minuto para poder sobreviver acaba não tendo muito tempo para fazer mais nada. Não são incomuns os corpos largados nos cantos de Dayton onde as pessoas ficaram sem tempo em seus displays. Com o risco de ser assaltado por gangues que roubam tempo, não é de se estranhar que Will corra ou faça tudo com pressa, um contraste chocante com o mundo dos ricos, em New Greenwich, onde eles podem se demorar em um almoço, afinal eles têm, literalmente, todo o tempo do mundo.

Às vezes invejo as pessoas do gueto. O relógio não é bom para ninguém. O pobre morre e o rico nunca vive. Claro, podemos viver para sempre, desde que não façamos nenhuma estupidez ou audacioso.

New Greenwich é o lado rico das zonas de tempo, onde as pessoas acreditam em darwinismo social. Os ricos não sentem qualquer obrigação em ajudar aqueles nas zonas de tempo mais pobres porque eles acreditam que os pobres não devem sair da pobreza. Que a seleção natural os criou daquela maneira, inferiores aos ricos e, portanto, subservientes. É o pai de Sylvia Weis (Amanda Seyfried) quem profere isso, um rico banqueiro, dono de todo o tempo das zonas. Sua filha rebelde é a primeira a reparar nas ações de Will, vendo como ele come com pressa, como começa a correr ao sair de um carro. Se ele é rico, por que precisa se apressar?

Niccol usa o tempo como dinheiro para criticar a sociedade capitalista que apenas quer acumular e se esquece de viver. A própria Sylvia comenta sobre isso e critica a decisão de Will de entrar no mar para tomar um banho. "Nós não entramos no mar!". Ela é rica, tem uma eternidade pela frente, mas nunca tirou a roupa e mergulhou no mar? Que vida é essa que os ricos vivem então? Só estão acumulando os anos e para que?

No capitalismo, o cálculo da força de trabalho é necessário para estimar o lucro que se poderia obter e aqui é a mesma coisa, exceto que o tempo se tornou o próprio dinheiro. Isso nos lembra o modo de produção de Karl Marx, pois o tempo aqui é tudo enquanto o ser humano foi reduzido a nada, ou pelo menos é menos valioso do que o resultado de seu trabalho. Isso é mostrado no filme onde as pessoas estão jogando suas vidas, o que significa que sua existência agora importa menos do que o tempo que poderiam ganhar.

Andrew Niccol se posiciona firmemente contra o neoliberalismo, definido como capitalismo de livre mercado e liberalismo econômico. No longa, ele usa o tempo para extrapolar seus fracassos. Três anos após a crise econômica de 2008, o colapso do capitalismo provavelmente inspirou o diretor, pois ele criou um mundo em que o tempo dividiu tanto as pessoas que elas não são capazes de suportar as diferenças e devem viver separadas de acordo com sua classe social. Tanto Dayton quanto New Greenwich exacerbam o contexto atual de ricos e pobres que parecem não conseguir se entender.

A relação tempo-dinheiro também mostra o egoísmo e falta de compreensão das pessoas, mesmo entre aquelas de uma mesma classe social. O motorista de ônibus que vemos no começo do filme está disposto a deixar uma mulher morrer para proteger seus próprios interesses e porque ele não está disposto a confiar quando ela afirma que pagará de volta a passagem assim que encontrar o filho. Mesma coisa é a posição de Philippe Weis (Vincent Kartheiser), que guarda 1 milhão de anos num cofre. O que ele fará com isso se nem aproveitar a vida ele aproveita? É essa a crítica contundente do longa, a crítica ao capitalismo que tanto arranca dos pobres, a ponto de as pessoas de um mesmo bairro se odiarem, enquanto os ricos acumulam um tempo que nunca usam.

É roubo se já foi roubado?

O mais interessante do filme é que há sinais de esperança, talvez uma forma do diretor de mostrar que todo sistema tende a cair. Indo contra o egoísmo do motorista, vemos as pessoas constantemente se ajudando. Rachel dá meia hora ao filho para que ele possa almoçar. Will dá dez anos ao amigo Borel para ele cuidar da família. Tal como fazemos nos dias de hoje, emprestando dinheiro para uma condução, fazendo uma vaquinha para ajudar amigos em dificuldades, as pessoas no filme estão constantemente trocando tempo entre si.

Uma tecla que o diretor também bate com frequência é a de que viver para sempre não quer dizer que você vai ser feliz. Quando o homem rico dá a Salas seu tempo, 116 anos, ele diz que há tempo suficiente para que todos possam viver suas vidas de maneira plena, mas que as zonas ricas de tempo estão drenando os pobres para poderem viver para sempre, serem sempre jovens.

No mundo atual, a sociedade capitalista criou esse estigma em que nos sentimos culpados quando não estamos usando nosso tempo trabalhando. No original em latim, procrastinatio quer dizer "adiar uma tarefa como um ato de sabedoria". O termo adotou essa conotação negativa após a Revolução Industrial, que vê com maus olhos um trabalhador ocioso. O capitalismo não vê o tempo livre como algo produtivo, portanto o sistema condenada o lazer, condena o tempo "improdutivo", concretizado pela ausência de áreas de lazer em Dayton.



No fim, Will e Sylvia acabam concretizando uma sabedoria bem conhecida em um mundo rígido pelo tempo e pela eternidade: viva como se não houvesse amanhã. E Andrew Niccol nos força a pensar em um sistema financeiro mais simples e igualitário que o dinheiro. Porém, no próprio filme, um personagem admite que o sistema nunca foi feito para ser justo e que a ilusão de equidade é a única coisa que mantém o sistema de pé. O que nos faz questionar: nunca teremos um mundo igualitário?

Até mais! ⏳


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