Resenha: 100 textos de história antiga, de Jaime Pinsky

Em 2022, a primeira publicação de 100 textos de história antiga completou 50 anos. Em 1970, Jaime Pinsky, então professor universitário recém-doutorado pela USP, decidiu produzir um livro que servisse de fonte para os estudantes da disciplina de história antiga. Com obras pouco acessíveis em língua portuguesa na época, o livro se tornou uma referência nas salas de aula, tanto do ensino básico quanto do ensino superior.





Parceria Momentum Saga e
editora Contexto


O livro
Este livro conta com transcrições de documentos históricos para a pesquisa e o ensino da Antiguidade. Na época em que foi confeccionando, muitos alunos e professores tinham dificuldade de consultar documentos antigos já que eles dificilmente estavam disponíveis nas bibliotecas universitárias ou tinham traduções em francês ou inglês. Além disso, alguns textos estavam em grego, hebraico ou latim e era preciso chamar padres ou especialistas para trabalhar com tais fragmentos, o que também era um empecilho para o dia a dia das aulas.

Resenha: 100 textos de história antiga, de Jaime Pinsky


Para quem está na faculdade é de grande importância ter acesso a textos e materiais de consulta e em se tratando da Antiguidade, tão distante da nossa vivência, com apenas fragmentos de textos, uma tradução bem feita pode ser determinante em uma pesquisa. Desde sua publicação, a obra nunca mais ficou fora de catálogo, mesmo mudando de editora (antes era da Hucitec, depois da Global, hoje é publicado pela Contexto). Em 50 anos, o texto praticamente não mudou, apenas correção de grafia para adaptá-lo ao novo acordo ortográfico.

Pinsky, junto de quatro alunos e três professores, começou a trabalhar no livro na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, no interior de São Paulo, que hoje faz parte da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Encorajado por seu orientador, Pinsky escolheu alunos com conhecimento em línguas clássicas e durante um ano eles trabalharam na seleção, tradução e revisão dos conteúdos. De Aristóteles a Plutarco, de Tito Lívio, Júlio César e a textos do Velho Testamento, o livro contém trechos do Código de Hamurábi, trechos sobre a lei romana e hinos aos deuses muito bem traduzidos e bem editados.

Em todas as circustâncias da vida, dever-se-ia acreditar que a história é a mais útil das disciplinas. Aos jovens ela confere a prudência dos adultos. Em relação aos velhos, ela redobra e multiplica a experiência já adquirida.

Deodoro da Sicília (página 151)

Organizado em eixos temáticos e não em ordem cronológica, o livro trata de vários segmentos das sociedades antigas. São 11 temas: escravismo e justiça social; guerras de conquista; mitos, hinos e culto; escolha de governante; mudanças políticas; sistemas e órgãos políticos; a educação, a família, a mulher; agrupamentos humanos; perfis; a propriedade; e historiografia. Curti muito essa divisão, mostrando as semelhanças e diferenças entre os diferentes povos a quem os textos pertencem.

Adorei o fato de ter o Hino a Aton! Já ouvi falar muito sobre ele e as semelhanças com um dos Salmos bíblicos, o Salmo 104. Algumas traduções que li pela internet eram muito ruins, mas a do livro está ótima. O Hino a Aton, acredita-se, foi escrito pelo faraó Akhenaton, que subverteu a religião egípcia, renegando o já consagrado panteão divino e cultuando o deus único Aton. Este é o principal documento sobre a fé e as práticas rituais de Akhenaton, pois depois que Tutancâmon subiu ao trono, houve um grande esforço para apagar o reinado de seu pai.

Outro texto bem interessante é do geógrafo e historiador Políbio. No livro ele trata sobre os diferentes poderes que compunham a República romana e suas respectivas atribuições, destacando a importância da Constituição para o sucesso das conquistas romanas em territórios mediterrâneos. É um texto super importante para entender a divisão dos poderes entre Executivo, Legislativo e Judiciário, que está presente em diferentes democracias pelo mundo, inclusive o Brasil.

É preciso levar em consideração a antiguidade dos textos, pois há coisas revoltantes neles. Eles devem ser estudados como frutos de suas épocas e sociedades e não para que se encaixem na nossa visão atual de como uma sociedade deve ser. Esta é uma fonte de pesquisa, com textos importantes de diversos povos, textos estes que foram essenciais para o estabelecimento de outros povos, códigos de leis e Constituição, como o Código de Hamurábi.

O livro deve ser trabalhado com conjunto com outras obras. Não há qualquer introdução a respeito dos povos dos quais vieram. Gregos, romanos, hebreus, egípcios, babilônicos, mesopotâmicos, são estes os povos aqui reunidos. Uma obra pequena e bem sintética, mas que pode ser meio cansativa às vezes. Ele vem em capa flexível com tendência a deformar e papel amarelo. Não há problemas de revisão ou diagramação.


Obra e realidade
O livro hoje já se tornou bibliografia de graduação em história, direito, filosofia e letras, até mesmo para alunos do ensino médio. Gostaria inclusive de ter conhecido na minha época de faculdade. Achei interessante a história sobre o título. Quando o livro estava praticamente pronto, Pinsky levou os textos, 97 na época, para seu orientador, o historiador Eurípedes Simões de Paula. O professor então questionou "por que 97? Consiga mais três bons textos e o livro se chamará 100 textos de história antiga". E assim ficou!

Jaime Pinsky


Jaime Pinsky é um historiador, escritor, professor universitário e editor brasileiro. Diretor da Editora Contexto, é professor titular aposentado da Universidade Estadual de Campinas.


Pontos positivos
Textos históricos importantes
Bem escrito
Bem traduzido
Pontos negativos

Bem sintético
Pode ser devagar


Título: 100 textos de história antiga
Autor: Jaime Pinsky
Editora: Contexto
Páginas: 160
Ano de lançamento: 2021
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Não sou historiadora, mas estudei alguns textos antigos na faculdade e ter esta obra em mãos teria sido de grande ajuda na época. Os textos podem ser antigos, mas foram traduzidos de maneira a facilitar a compreensão e o estudo de suas respectivas civilizações, além de sua influência em nosso mundo atual. Você sendo uma especialista ou não, é uma ótima adição à sua biblioteca. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!




Até mais! 🏛️


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1 Comentário

  1. Conhecia a o meu xará Pinsky, mas esta obra eu não conhecia e achei bem interessante. Fiquei curioso nas semelhanças entre o hino a Aton e o Salmo 104.

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