Resenha: Alamut, de Vladimir Bartol

Considerado o romance mais famoso da Eslovênia, Alamut ganhou uma edição caprichada da editora Morro Branco agora em 2022. Publicada em mais de 20 idiomas, era ainda inédita no Brasil, em mais um capítulo escandaloso da série "Livros importantes que nunca ganharam tradução por aqui". Alamut se baseia em fatos reais e mostra como se constrói o pensamento de um líder carismático capaz de converter multidões.





Parceria Momentum Saga e
Editora Morro Branco



O livro
Nas montanhas de Elburz, no atual Irã, no século XI, encontra-se a poderosa fortaleza de Alamut. Nossa jornada começa com Halima e sua jornada até a fortaleza pelas mãos de homens fortes que a transportam a cavalo. A jornada é longa, cansativa, até que enfim ela conhece Miriam, é acolhida, bem tratada, banhada e alimentada. Ali dizem que ela está segura, que tudo vai estar bem e logo começa a ser ensinada em várias artes que de início confundem e muito a menina. Esse começo parece que não vai se interligar com nada e aqui fica o primeiro ensinamento sobre Alamut: paciência. A narrativa peca em agilidade, mas nos garante uma visão única por dentro de uma estrutura feita para desconstruir pessoas para depois refazê-las segundo a ideologia dominante.

Resenha: Alamut, de Vladimir Bartol


Foi prometido ao antigo dono de Halima que ela viveria uma vida de princesa. Ainda que seja tudo muito confuso para a garota no começo, ela logo passa a analisar as colegas, jovens meninas como ela, ex-escravas, moças vendidas que nunca viram seu mestre. Halima se afeiçoa a Miriam, uma das mais velhas e que parece saber de tudo por ali. O lugar parece um pequeno paraíso, com animais, plantas e flores por todo lugar, intercalados com aulas, leituras e jantares.

Em seguida, começamos a acompanhar a jornada do jovem ibn Tahir, que viaja até Alamut para satisfazer o desejo da família. Ao chegar, depois de se identificar e se apresentar ao comandante da guarnição, ele é indicado para um grupo de soldados que passa por intensas provações em seu treinamento. Se necessário, eles devem dar a vida por seu senhor, sem pestanejar. É bem interessante ler sobre algumas discussões de Tahir com os colegas sobre a santidade do líder deles e ver como a mentalidade do grupo foi construída. A semente do fanatismo germina enquanto Halima e Tahir estão na fortaleza.

Nada é verdadeiro, tudo é permitido.

Alamut tem seus pontos baixos, mas os pontos altos valem a espera e a narrativa pouco ágil do autor. Bartol é um bom juiz (ou melhor, um bom retratador) do caráter humano, e apresenta aqui um elenco envolvente de personagens. É bem mais um romance psicológico do que um de ação, pois ficamos muito tempo mergulhados na mente dos personagens do que vivendo cenas de ação e batalhas. Não que elas não existam, mas é a análise do estado mental e da transformação dos protagonistas o que mais importa aqui.

O fato de Bartol descrever muito ao invés de mostrar pode incomodar algumas pessoas. Parece que em alguns momentos até mesmo falta mais técnica na hora de descrever certas coisas, em especial o estado de espírito de seus personagens. Temos que pensar também que este é um livro de 1938 dentro de um contexto específico e que não deve ser avaliado de maneira rasa, como se fosse uma estereotipação dos muçulmanos, porque não é. Na verdade, o livro serve para analisar como se forma o pensamento terrorista, o pensamento de qualquer extremista, não apenas ligado a essa ou aquela religião.

O mestre dessa fortaleza se vale de vários artifícios para conseguir o que quer enquanto o fundo político da época se desenrola. E nisso ele não é diferente de qualquer líder populista de discurso fácil que encanta as pessoas para conseguir o que quer. Ele se identifica como alguém abençoado e indicado por Alá, alguém que tem o poder de enviar as pessoas para o céu, manipulando fé e a vontade das pessoas como se fosse uma massa de modelar. Suas táticas visam acabar com o medo da morte em seus homens de maneira a impeli-los a fazer qualquer coisa. Olha o perigo...

Não pense que a obediência é fácil. O espírito maligno da rebeldia vai começar a sussurrar em seu ouvido, seu corpo vai se recusar a obedecer e sua mente vai levantar mil objeções às instruções que receber dos comandantes. Você vai precisar entender que essa resistência é só o desígnio maligno dos demônios para desviá-lo do verdadeiro caminho.

Página 70-71

Alamut é uma alegoria atemporal para a política. É uma análise sobre o abuso da fé, bem como o abuso da inocência e da religião. É sobre distorcer mentes para aceitar o inaceitável, mostrando como a obediência impensada vem sendo instigada ao longo dos séculos. É possível ler Alamut apenas como uma aventura no deserto, mas é difícil dissociar o romance do contexto histórico real.

A edição da Morro Branco é lindíssima, em capa dura e papel amarelo com uma introdução breve, mas que nos instiga a encarar o livro não como uma caricatura para o Islã, como muitos podem acabar pensando, mas como um documento que analisa o fanatismo. A tradução foi feita da edição em inglês por Alexandre Boide e está ótima. Não encontrei grandes problemas de revisão ou de tradução.


Obra e realidade
Vladimir Bartol reimaginou em Alamut a história de Hasan ibn Sabbah, conhecido como “o velho da montanha”. No século XI, ele fundou A Ordem dos Assassinos, uma tropa suicida de elite alimentada por uma intensa paixão religiosa e pela promessa de paraíso que os aguardava. Originalmente publicada em 1938, o autor usou a alegoria da Hasan para falar dos levantes totalitários da Europa da época, prestes a entrar na Segunda Guerra Mundial, mas que também serve para analisar outros movimentos onde as pessoas são manipuladas por líderes carismáticos que transformam simpatizantes em fanáticos.

Inspirando diversas obras ao longo do tempo, sendo a mais famosa a série de games Assassin’s Creed, Alamut é daqueles livros que podem ser lidos várias vezes e ainda assim será possível descobrir coisas novas a respeito, além de seus surpreendentes paralelos com a realidade.

Vladimir Bartol


Vladimir Bartol foi um escritor esloveno, pertencente à minoria eslovena na Itália.


Pontos positivos
Halima e Tahir
Bem escrito
Romance histórico
Pontos negativos

Violência
Pode ser devagar


Título: Alamut
Título original em inglês: Alamut
Autor: Vladimir Bartol
Tradutor: Alexandre Boide
Editora: Morro Branco
Páginas: 576
Ano de lançamento: 2022
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Admito que o começo não foi fácil. Eu lia, lia e lia, sem entender direito o que Halima estava fazendo ali, mas conforme as páginas voam, conforme Tahir chega e seu treinamento começa, e começamos a ver as maquinações e manipulações, as peças vão lentamente se encaixando. O livro começa em fogo baixo e conforme a temperatura vai subindo, fica difícil largar a leitura. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!




Até mais! ⚔️


Já que você chegou aqui...

COMPARTILHE

Seja o primeiro a comentar.

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, com Desconhecido ou Unknown no lugar do nome, em caixa alta, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.

O mesmo vale para comentários:

- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.

A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.