Resenha: Estado Elétrico, de Simon Stålenhag

Fãs de Tales from the Loop já conhecem o trabalho de Simon Stålenhag. Suas paisagens do interior da Suécia são combinadas com robôs, drones e grandes estruturas automatizadas, em um misto cativante de modernidade e nostalgia. O artista estreia no mercado brasileiro com um quadrinho incrível sobre uma jovem em uma jornada pelas estradas dos Estados Unidos de 1997. Mas este não é exatamente o passado que a gente conhece.





Parceria Momentum Saga e
Quadrinhos na Cia


O quadrinho
Estamos em 1997, nos Estados Unidos. É um passado distópico, um país em declínio. Uma guerra aconteceu, vencida por drones. Mas os efeitos devastadores da guerra foram sentidos por muito tempo. Temos dois narradores aqui que se intercalam. Um narrador oculto que vamos adivinhando conforme o quadrinho avança e uma jovem de 19 anos, Michelle, no meio do deserto na companhia de um robozinho amarelo. Ela carrega uma escopeta, ele carrega um caiaque. Juntos eles buscam por um veículo que funcione. Precisam viajar.

Resenha: Estado Elétrico, de Simon Stålenhag


O vento traz uma calcinha rosa até seus pés. Quando segue a rota que ela deve ter feito encontra um veículo em bom estado. Os donos estão caídos de lado, mortos há muito tempo, os visores de realidade aumentada presos em suas cabeças. O veículo felizmente está funcionando e isso encurta a viagem dos dois. Não seria tarefa fácil passar por algumas estradas, mas é preciso.

O que estamos fazendo não é civilizado, eu sei. Mas sei que também deve ter acontecido com você. Assim como eu, você deve ter acordado um dia e constatado o inevitável: já não vivemos em tempos civilizados.

Página 104

Estado Elétrico


Conforme acompanhamos a jornada dessa moça e seu robô vamos acompanhando o cenário do interior dos Estados Unidos. Entre as propagandas do novo Mode6 de realidade aumentada, existem carcaças de antigos drones, robôs e naves abandonadas e acumulando poeira. O contraste entre as paisagens do interior com gigantescos robôs ao fundo dão uma sensação de abandono profunda. Mesmo sabendo que são imagens digitais, a impressão que eu tive era de estar observando cenas reais e pinturas a óleo ao mesmo tempo. É uma mistura de alienação fria e distante com nostalgia.

A carga emocional das imagens é tanta que não precisamos olhar para o rosto da personagem, em geral encoberta pela penumbra ou indistinguível pela distância, o rosto oculto por um capuz. O quadro nos dá todas as informações que precisamos pela forma de andar, a solidão do carro na estrada em contraste com o céu e uma mega estrutura a dominar o horizonte. As imagens são tão vívidas que você consegue ouvir o estalar das linhas elétricas, o passo dos drones na areia fofa. É até difícil descrever as sensações que tais imagens evocam, como se o quadrinho ocupasse o lugar do visor de realidade aumentada.

Interessante apontar que são poucas palavras escritas. Em poucos blocos de texto conhecemos todo o contexto da vida dessa jovem, já tão marcada pelo abandono, em busca de conexão que a tecnologia não pode fornecer. Michelle se sente só em meio a tantas pessoas, todas plugadas em seus visores de tecnologia Sentre, cujas propagandas vemos o tempo todo pelas páginas. Eles começaram como uma tecnologia para os pilotos de drones e deixou os quartéis para entrar nas casas das pessoas, causando um desastre.

Com delicadeza e empatia, o autor desfia a vida dessa jovem, bem como conta o outro lado, o lado oculto da história. Com um olho afiado, Simon junta tecnologia antiga e nova em meio a um ninho de ratos de cabos e luzes piscantes. O contraste entre os robôs também é gritante: em um momento são grandes e perigosos, tecnologia militar pesada, enquanto em outros são robôs infantis, com grandes olhos e bocas, chapéus e formas curiosas. E há aqueles que foram construídos roubando-se partes de vários outros, em uma quimera tecnológica digna de um pesadelo.

Estado Elétrico


O último terço do quadrinho é praticamente sem palavras e depois que entendemos o contexto, elas praticamente não são mais necessárias. Como eu disse acima, a arte de Simon é suficiente para te fazer ouvir o cenário; é possível ouvir os passos de Michelle na grama, o vento das árvores, o mar se desmanchando na areia. Sobra o mar, um robô e um visor da Sentre sobre a areia. E é isso.

A edição da Companhia das Letras é lindíssima, em capa dura e papel branco. A capa tem um efeito de gotas de chuva no para-brisa do carro de Michelle que ficou perfeito.


Obra e realidade
Estado Elétrico terá com uma adaptação cinematográfica estrelada pela atriz Millie Bobby Brown e dirigida pelos irmãos Russo, conhecidos por dirigirem alguns dos maiores sucessos da Marvel, como Capitão América: Guerra Civil e Vingadores: Ultimato. E torço para que tenha a mesma perfeição do quadrinho, pois é de fato impressionante.

Apesar de ter ouvido falar da série Tales from the Loop (e não ter assistido ainda), nunca tinha ouvido falar do autor. Portanto assim que o quadrinho chegou em casa, fiquei impressionada com as imagens e com a arte bucólica e nostálgica, tecnológica e campestre onde parece caber muito bem a frase "os opostos se atraem". Vamos torcer para que mais trabalhos de Simon cheguem ao Brasil.

Simon Stålenhag


Simon Stålenhag é um ilustrador, músico e designer sueco especializado em imagens digitais retro-futuristas focadas em ambientes nostálgicos de história alternativa do interior da Suécia. Sua arte é a base para a série dramática de TV da Amazon de 2020, Tales from the Loop. Neste link aqui você pode ouvir a trilha sonora composta por Simon para o quadrinho.


Pontos positivos
Bem escrito
Capa dura
Trabalho gráfico
Pontos negativos

Preço

Título: Estado Elétrico
Título original em sueco: Passagen
Autor: Simon Stålenhag
Tradutor: Daniel Galera
Editora: Companhia das Letras (selo Quadrinhos na Cia)
Páginas: 144
Ano de lançamento: 2022
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Intenso, brutal, humano, triste, nostálgico, tudo isso pode ser usado para descrever este quadrinho. As imagens substituem o texto e nos joga em cenários distópicos belos e estranhos à sua maneira. Fruto de uma campanha de financiamento coletivo, fiquei muito feliz de conhecer o trabalho do autor. Cinco aliens para Estado Elétrico e uma forte recomendação para você ler também!





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2 COMENTÁRIOS

  1. Ótima resenha! Eu conhecia o trabalho do Simon de algumas imagens que vi espalhadas pela internet, e depois quando assisti o Tales from the Loop. Posso dizer que é um seriado fantástico, assim como parece ser o caso desta HQ, mescla um sentimento de nostalgia com tristeza e frustração de formas muito delicadas em meio a imagens muito bonitas. O bonito é encontrarmos o pouco de humanidade que resta no meio de toda a sucata tecnológica.
    É realmente um pouco caro, mas terminando a resenha tive que comprar um. Me convenceu!

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    1. A arte dele é incrível, não? Você não vai se arrepender!

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