Capitalismo selvagem e política em Robocop

Pude reassistir recentemente à trilogia de Robocop e, apesar de mostrar certas tecnologias datadas, é interessante notar como os longas se mantém atuais, afinal pouca coisa mudou desde então. Nesses mais de 30 anos desde a estreia do primeiro filme, que parodiava a Era Reagan, sua representação do capitalismo não nos parece nada estranha.

Capitalismo selvagem em Robocop
Robocop, por Josan Gonzalez





Situado em uma Detroit futurista exacerbada pela escalada do crime e da depressão econômica, o filme conta a história do policial Alex J. Murphy (Peter Weller) assassinado enquanto cumpria seu dever. Murphy é trazido de volta à vida através de uma avançada tecnologia robótica; meio homem/meio ciborgue ele sai pelas ruas defendendo a lei em nome de uma organização corrupta, a OCP, disposta a quebrá-lo a qualquer custo, se isso se adequar à sua agenda. No entanto, à medida que a história avança, Murphy começa a recuperar suas memórias da vida que deixou para trás, o que o coloca no caminho para encontrar seus assassinos e lidar com eles de acordo.

Nos filmes seguintes Murphy luta contra a OCP para ser reconhecido como um ser humano e não como uma propriedade. A OCP trata tudo como sendo sua propriedade e é poderosa o suficiente para comprar a polícia e até mesmo a prefeitura (mostrando um cenário brutalmente real, onde a política se tornou cada vez mais dependente do dinheiro privado) enquanto tenta recriar o sucesso de Murphy em várias tentativas malsucedidas. No terceiro ele até encontra um ciborgue japonês super avançado enquanto luta contra a OCP para proteger famílias pobres inocentes junto da força policial que, enfim, assume o lado correto da história.

Isso foi retratado durante um período de grande confusão política no mundo real, particularmente nos Estados Unidos. A administração corrupta de Ronald Reagan deixou as pessoas sem saber em que acreditar, além do fato de que a autoridade nacional era o verdadeiro vilão. Essa foi uma ideia que Hollywood logo popularizou, para o deleite dos governos em todos os lugares.

Não se fazem mais filmes de ação antiautoridade como antigamente, porém. Na virada do século XXI, o gênero de ação perdeu de vista quem eram os bandidos, provavelmente porque agora vivemos em tempos ainda mais politicamente confusos. Assim, os enredos modernos tornaram-se complicados e impregnados de idealismo. A diferença entre o bem e o mal é muitas vezes uma questão de perspectiva, e o vilão tradicional e unidimensional foi substituído por indivíduos complexos que exigem e distorcem a simpatia do público. Um bom exemplo é o de Thanos de Vingadores: Guerra Infinita, que quer acabar com metade do universo, mas apenas porque acha que isso ajudará a resolver o problema populacional.

Mas se o vilão não é mais unidimensional, também significa que o herói de ação tradicional foi perdido. Os super-heróis dos quadrinhos podem agora conquistar a admiração em massa, mas não cumprem mais a fantasia de “uma pessoa sozinha enfrentando o mundo inteiro”. Quantas vezes vimos isso nos antigos filmes de Arnold Schwarzenegger? Em Comando Para Matar, ele derrota um ditador corrupto e todo o seu exército para salvar sua filha; em O Sobrevivente, ele luta para sair de um reality show de luta mortal; em O Predador, ele luta contra um alienígena bombado que gosta de caçar seres humanos; e em O Vingador do Futuro liberta mutantes em Marte, onde o ar respirável foi privatizado.

Mesmo nos enredos da Marvel, onde heróis ficam divididos e lutam entre si em um dos longas, podemos ver que a questão da perspectiva sobre quem é herói e quem é vilão é muito tênue. O Soldado Invernal causou diversas tragédias ao longo das décadas, mas ao tentar se redimir tudo o que alguns conseguem ver é a face da maldade. Se antes os inimigos eram óbvios e diretos, ainda que poderosos, o borrão da realidade tornou isso difícil de discernir no cenário atual.

A graça de enredos como o de Robocop, que tirava sarro descaradamente do capitalismo selvagem dos anos 1980 com seus comerciais absurdos e notícias escabrosas nos noticiários era esse sarcasmo, essa ironia. Era a capacidade de rir do estereótipo do lobo de Wall Street, do engravatado poderoso que podia massacrar as pessoas apenas porque tinha dinheiro. Era saber que o bem ainda podia vencer. E talvez o principal, identificar o capitalismo como o verdadeiro problema de Detroit - e do mundo.

Os filmes de herói de hoje se levam muito a sério. Capitalistas milionários se fantasiam e saem pelas cidades combatendo o crime como se fossem os salvadores da pátria, como se sozinhos pudessem mudar o sistema que os gerou, algo que eles não vão fazer. Se em Robocop 3 Murphy e toda a força policial se juntam aos moradores de um bairro pobre de Detroit para defender suas casas da OCP, hoje os super heróis são mega ricos, precisando urgentemente de terapia, enquanto inventam instrumentos que os tornem mais fortes, mais assustadores, mais rápidos. Esse tipo de homem rico, poderoso, branco, considerado uma autoridade só porque tem dinheiro não vai salvar ninguém.

Os supercapitalistas bilionários de hoje que buscam monopolizar a experiência da vida cotidiana não se parecem mais como supervilões sorridentes, maníacos e homicidas. Em vez disso, eles são os “mocinhos”. Eles doam dinheiro para caridade (enquanto exploram brechas fiscais), se preocupam com o meio ambiente (enquanto privatizam fontes de água e detonam com mata nativa), as escolas e os direitos LGBTQ (enquanto não têm pessoas LGBT em posições de liderança), alguns até querem ir para Marte, enquanto impedem os funcionários de usarem os banheiros ou de terem sindicatos. Eles orbitam a política sem parecerem abertamente políticos. E esse aparente isolamento da esfera da política é sua maior força já que as pessoas estão "cansadas da política".

Robocop


Como uma sátira mordaz à natureza socialmente irresponsável e desumana das corporações, a mensagem da trilogia Robocop é sem dúvida mais pertinente do que nunca. Como uma crítica à mentalidade de condenação rápida do sistema de justiça, ela nunca foi tão vital e atual. Embora seja perturbador saber que nada mudou nas últimas três décadas, a capacidade do filme de zombar de tais questões destaca o quão absurdo o mundo em que vivemos às vezes pode ser.

Até mais!


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1 Comentário

  1. Saudade dos roteiros mais críticos (e de todo o surrealismo) dos anos 80.
    Nunca assisti 'Robocop', mas lendo o seu texto só conseguia pensar em 'They Live'.

    Não Me Mande Flores

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