Resenha: Outras Mentes - o polvo e a origem da consciência, de Peter Godfrey-Smith

Os polvos são a forma de vida mais distante dos mamíferos que manifesta claros sinais de inteligência. Por si só esse já é um fato desconcertante e interessante. Mas o que ele pode nos dizer sobre a inteligência em si? E a consciência? É preciso ter um para ter o outro? O que esses seres tão exuberantes podem nos ensinar e o que podemos aprender com eles são o foco deste livro de Peter Godfrey-Smith.




O livro
Os polvos sempre me pareceram criaturas fascinantes. Seus longos tentáculos, seu comportamento atípico e a capacidade de realizar tarefas que poucos animais conseguem, como abrir potes ou se lembrar das pessoas. Mergulhador experiente, Peter presenciou muitos desses comportamentos bizarros da parte de animais que poucos veriam como sendo inteligentes. Mas décadas de pesquisa e observação mostram que sim, os polvos são incrivelmente mais complexos do que poderíamos imaginar e isso abre todo um leque de perguntas e interpretações sobre a evolução e a inteligência em si.

Resenha: Outras Mentes - O Polvo e a origem da consciência, de Peter Godfrey-Smith


A premissa do livro é a de que a inteligência evoluiu separadamente em dois grupos distintos de animais: os invertebrados, como os polvos e chocos, e nos vertebrados, como as aves e os seres humanos. Descrevendo vários de seus encontros com polvos e chocos em seus mergulhos nos mares australianos, Peter os descreve como sendo observadores, curiosos, até mesmo amigáveis, porém com uma arquitetura cerebral totalmente diferente daquela observa nos vertebrados. A inteligência de um polvo está distribuída em seu corpo. Eles têm duas vezes mais células nervosas em seus tentáculos do que em seu cérebro.

Explicando a evolução dos seres vivos complexos desde os mares primordiais, 500 milhões de anos atrás, aos dias de hoje de maneira bastante simples e direta, Peter nos leva por uma viagem ao longo do tempo para investigar a sagacidade de animais completamente diferente de nós. É uma explicação bastante simplificada e o próprio autor admite que precisou reduzir os ramos evolutivos para que o leitor possa compreender a proposta, mas sua explicação é suficiente para compreender o tema mesmo entre o público leigo.

A química da vida é uma química aquática. Só podemos sobreviver em terra carregando uma enorme quantidade de água salgada junto conosco. E muitas das mudanças evolucionárias realizadas nesses estágios primordiais (...) teriam dependido da livre movimentação de substâncias químicas no mar.

Página 26

Os polvos possuem um sistema nervoso e sensorial muito sofisticado. Possuem um cérebro e um sistema visual bem desenvolvido, comunicando-se através da mudança de cor em suas peles. Eles também são inventivos e curiosos. Isso tudo nos leva a questionar por que esses seres possuem tal aparato refinado e preciso. Seriam os polvos mais um experimento de inteligência e consciência ocasionado pela evolução?

Peter argumenta que a consciência é parte de uma ativa relação entre o mundo e os seres vivos, que mexe com os sentidos e com a memória. Desta maneira ele descreve como até bactérias possuem algumas capacidades conscientes, como a de detectar a química de seu ambiente, passando pelos insetos, onde as abelhas lembram dos lugares com as melhores fontes de alimentos.

Explicando em linhas gerais como surgiram os animais complexos, o autor mostra o quão longe na linhagem evolutiva nós estamos separados. O último ancestral comum entre humanos e dinossauros viveu há 320 milhões de anos. E isso é entre animais vertebrados. Se voltarmos ainda mais no tempo, o antepassado mais antigo entre humanos e polvos ficou lá trás, há 600 milhões de anos. A vida é mesmo incrível e o autor descreve alguns comportamentos que viu em polvos que chegam a ser engraçados, como um polvo que jogava um jato de água no pesquisador quando entrava no laboratório. A empatia do autor nos faz repensar a forma como os animais são tratados, inclusive os invertebrados.

A leitura às vezes corre bem devagar, mas as informações que o autor nos traz compensam essa sensação. Intercalando os fatos científicos e neurofisiológicos com suas aventuras subaquáticas e filosofia, o livro é daqueles exemplos bem-sucedidos de várias ciências unidas estudando um tópico bem específico. Ainda há muito o que se estudar, é claro, mas talvez o livro de Peter estimule a próxima geração de cientistas a dedicar um olhar mais atento aos polvos. Quem sabe daí vira a grande descoberta sobre a consciência desses animais?

A edição da Todavia tem uma bela capa de tentáculos, mas não gostei do formato. Acho que o livro devia ter saído num formato maior, mais agradável de manusear e com uma brochura melhor. Percebi que ela tende a quebrar e se for manuseada várias vezes, ela certamente quebrará. A minha está tão marcada que mexo no livro com todo cuidado para as páginas não se soltarem da cola. Uma pena mesmo.

Existe imagens em preto e branco e um conjunto de páginas brancas com imagens coloridas no miolo com vários polvos captados em momentos descritos ao longo do livro. No final temos notas, sugestões de leitura e índice remissivo. A tradução de Paulo Geiger está muito boa e encontrei alguns erros pontuais durante a leitura, como palavras sem acento.

Se quisermos compreender outras mentes, as mentes dos cefalópodes são as mais outras de todas.

Página 19


Obra e realidade
Peter diz algo muito interessante no livro: que os polvos são o mais próximo que chegaremos de conhecer uma forma de vida alienígena. Se pararmos para pensar, os alienígenas da ficção, praticamente todos, são uma imitação da espécie humana com diferenças faciais. E até compreendo que muitas séries de TV tivessem problemas de orçamento e de efeitos especiais para produzir aliens que fossem um pouco diferente de nós.

Os polvos nos fazem pensar em toda a diversidade de vida inteligente que talvez exista no universo. Eles serviram de inspiração para os heptapodes do filme A Chegada e podem - quem sabe - nos surpreender no futuro conforme novas pesquisas sobre seu comportamento surgirem.


Peter Godfrey-Smith


Peter Godfrey-Smith é um filósofo da ciência e escritor australiano, mergulhador experiente e professor da Universidade de Sydney.


Pontos positivos
Bem escrito
Bem pesquisado
Imagens coloridas
Pontos negativos
Formato e revisão
Pode ser meio lento


Título: Outras Mentes - o polvo e a origem da consciência
Título original em inglês: Other Minds: The Octopus and the Evolution of Intelligent Life
Autor: Peter Godfrey-Smith
Tradutor: Paulo Geiger
Editora: Todavia
Páginas: 280
Ano de lançamento: 2019
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Mesmo que você não entenda muito bem de ciência, nem de evolução ou de biologia, pode se jogar neste livro sem medo. O autor é bastante didático, dando informações sem enrolação e sem complicação. Até os leigos vão conseguir ler e compreender a mensagem. Ao final da leitura, muita gente, assim como, eu, ficará pensativa sobre os polvos e como a vida pode ser incrível. Quatro aliens para o livro e uma forte indicação para você ler também!


MUITO BOM!


Até mais! 🐙


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2 COMENTÁRIOS

  1. Que pena essa questão do formato e da encadernação. Achei o tema super curioso. Nunca pensei muito sobre os polvos, mas me peguei interessada em conhecer mais a respeito dessas criaturas tão exóticas (quase aliens, realmente). Beijos

    Não Me Mande Flores

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    Respostas
    1. Foi uma leitura super interessante. Recomendo demais o livro. Só tome cuidado com a brochura! 🐙

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