As preguiçosas resoluções em Star Trek Picard

Com o fim da segunda temporada de Star Trek Picard muitas questões ficaram em aberto a respeito de várias resoluções que os roteiristas adotaram para os protagonistas. E a maioria delas, se não foi mal executada, foi completamente preguiçosa devido aos roteiros ruins. É triste ver que tão bons personagens, que brilharam em séries anteriores, que possuíam tamanho potencial, evoluíram para maneiras tão desleixadas como foram nessa temporada.

As preguiçosas resoluções em Star Trek Picard




Já vou adiantando o expediente para dizer o seguinte: não tem problema algum se você gostou dessa temporada, se está gostando da série. Tudo bem, de verdade. Eu adoro Jean-Luc Picard e estou acompanhando um dos meus personagens favoritos da minha franquia favorita, assim como você. Qualquer coisa escrita aqui não é um ataque pessoal. São minhas impressões apenas. Também terão spoilers dessa segunda temporada, então se não quiser ler, pare por aqui.

A segunda temporada começou com uma situação de bastante perigo para Picard e seus amigos: os Borgs apareceram e começaram a tomar conta dos computadores de várias naves estelares. Temendo que a rainha Borg tenha acesso aos dados das naves, Picard coloca a Stargazer no modo de autodestruição. Ele em seguida acorda em uma versão de sua casa, o Chateau Picard, para reencontrar seu velho inimigo, Q, que lhe apresenta uma realidade caótica onde não existe Federação e sim uma Confederação totalitária e paranoica onde Picard é um herói condecorado e bastante temido.

Sempre tive muita preguiça dos episódios do Q. O melhor episódio dele é justamente aquele em que ele perde os poderes e pede ajuda a Picard e sua tripulação. É neste episódio, inclusive, que ele diz que, entre todas as criaturas do universo, era justamente Picard a quem ele considerava um amigo. Essa informação, aliás, é bastante importante para o desfecho da temporada.

Preguiça é algo que também marcou vários momentos desse segundo ano do retorno do intrépido capitão. As resoluções dadas a vários personagens foram preguiçosas, mal escritas, onde os atores tiveram que performar verdadeiros milagres para um monte de má decisão dos roteiristas. Consigo entender as motivações do Q, de dar uma oportunidade ao Picard de se perdoar e de deixar de temer o evento em seu passado, com o suicídio de sua mãe. Ele amava Picard, considerava seu amigo e queria dar uma guinada em sua vida.

Maaaaaaas já não deu de episódios em universo espelho? Já não tivemos demais disso em Discovery e em todas as temporadas das séries anteriores? Não se sabe mais trabalhar com enredos sem criar novas realidades sombrias, totalitárias, distópicas? Star Trek nos mostrou diversos episódios em que conflitos foram resolvidos sem mudanças na linha do tempo, sem disparos de phaser, sem entidades onipotentes interferindo na evolução humana. Onde estão esses episódios?

A resolução dada ao capitão Rios também foi desleixada. Dizer que não se encaixa num século utópico para viver no século XX é um contrassenso. Eles tiveram a experiência em primeira mão de como nossos tempos são caóticos, desiguais e cruéis. Quem iria querer viver nisso? E não vamos esquecer da Terceira Guerra Mundial, que está logo aí (seja na realidade, seja no universo de Star Trek). Se ele estava assim tão apaixonado, por que não levou a médica e o garoto para o futuro?

O relacionamento de Rafi e Sete de Nove foi outro desleixo. Nós não o vemos em momento algum. Nem seu desenvolvimento, nem seu começo. Só vemos as duas dando as mãos no final da temporada anterior e depois as duas brigadas no começo dessa daqui. Já comentei em um texto sobre Sete de Nove o quanto essa personagem sofreu nas mãos de roteiristas que só sabiam sexualizar e abusar dela. De sua roupa desconfortável ao fato de ficar incapacitada de se relacionar romanticamente, Sete viveu três anos num porão de carga da nave. Considero um avanço ela usar roupas normais em Picard. Porém a preguiça de desenvolver melhor essa personagem continuou. Por exemplo: ela não foi aceita na Academia da Frota Estelar por ser Borg, mas Icheb - também assimilado quando criança, também com implantes Borgs - foi. Ué??

Aí chegamos à Dra. Jurati, que talvez seja o ótimo exemplo de como os roteiristas ignoraram o legado de Star Trek. Usaram e abusaram de saudosismo ao longo das duas temporadas para no fim deixarem o legado da franquia de lado. Jurati se deixa contaminar pela rainha Borg que a usa para poder criar uma nova coletividade, assimilando seres humanos. O episódio até que começa bem, com Jurati mostrando para a Rainha que assimilar as pessoas não pela força, mas pelas vantagens da coletividade, sem suprimir as individualidades, era muito mais vantajoso do que criar milhões de zumbis.

As coisas poderiam ter parado por aí, com a rainha se inspirando na consciência e empatia da Jurati e fazendo a coletividade evoluir para algo melhor. Jurati se sentia solitária, deslocada; talvez ter acesso à mente da rainha pudesse ter inspirado a nobre cientista. Quem sabe todos os outros personagens que de fato gostavam dela se tornassem a sua coletividade, assim como a tripulação da Voyager se tornou a da Sete de Nove. Quem sabe os roteiristas pudessem ter se inspirado no legado de Reginald Barclay, que também era um solitário, um incômodo, mas que acabou sendo aceito pela tripulação, foi promovido, atuou para o retorno da Voyager. Enfim, quem sabe, né? Tantas possibilidades.

Agnes Jurati


Mas resolveram tornar Jurati um híbrido de humano com Borg que a transformou em uma zumbi. No frigir dos ovos cibernéticos não vi ganho algum para Jurati além de se tornar uma autômata que volta e meia tem atos de empatia. Aliás empatia faltou e muita quando ela pegou La Sirena, deixando Picard e os amigos encalhados na Terra. Se isso era para ser algum tipo de arco de redenção, sinceridade, não funcionou. Poderiam ter criado muitos enredos com inimigos temíveis que causassem a anomalia que abre a temporada sem reciclar os Borgs (cadê os iconianos, gente??). E falando em Borgs, onde estava essa "facção Juraborg" nos últimos 400 anos? Estiveram se escondendo dos outros?

Houve tentativas de "humanizar" os Borgs antes. Em Voyager ficamos sabendo da Unimatrix 01, para onde alguns drones Borgs iam quando estavam regenerando. A capitã Janeway teve a oportunidade de destruir os Borgs de dentro, mas precisou abrir mão disso quando a rainha descobriu o plano e começou a destruir naves com milhões de Borgs dentro. Os roteiristas tomaram esse caminho para não destruir de vez o temível inimigo da Federação, mas essa tentativa de humanizar os Borgs nem é nova. Ela só foi reciclada para pior com a Jurati que, sinceramente, não merecia tal resolução.

Enfim... Quero assistir à nova - e última - terceira temporada quando estrear, sabendo que eles vão rasgar tudo o que a série já fez antes. Devo dizer que gostei de como o Q se revelou no final, um ser que também tem medo, que também tem seu fim como todas as coisas no universo e que ele poderia ter um último momento junto de um amigo. Mas no geral, foi uma temporada ruim, com resoluções frágeis e sem sentido para a maioria dos personagens.

Vida longa e próspera! 🖖🏼


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3 COMENTÁRIOS

  1. Nossa, esse nova temporada até começou morna, mas não demorou para cair numa espiral descendente cujas soluções de roteiro beiraram ao insulto à inteligência do telespectador! Algumas ideias legais salpicadas, o esforço e o carisma de alguns atores, nada disso teve como salvar a qualidade da série diante da história preguiçosa e do fan service barato.

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  2. A Paramount irá sugar tudo possível de Startrek, mas estão fazendo isso de uma forma não muito boa...

    Eu gostei da primeira temporada de Picard, e as primeiras de Discovery. Na verdade, eu comecei a assistir star trek justamente pela Discovery. Porém, a última temporada de picard e da discovery deixaram a desejar, por tudo que você disse.

    Agora terá "Star Trek: Strange New Worlds", e espero que seja melhor.

    Mas estou com medo dessa "Marvelrização e Disneyzação" que tem acontecido nos universos ficcionais, algo que não tem acontecido só com Star Trek.

    O engraçado é que a série Halo, que eu comecei a ver só pq era sci-fi, achando que seria uma série de ação boba, está me agradando (justamente por ser boba)

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  3. Em maio vim falar da minha expectativa com "Strange New Worlds"

    E agora, falando só um episódio para o término da temporada, posso dizer que... UAU!

    Até perdoo os erros com Discovery e Picard, pois a Paramount acertou em cheio com Strange New Worlds!!!

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