Resenha: A Dama e a Criatura, de Mallory O'Meara

Li esse livro ainda em 2019, em inglês, depois que o conheci por intermédio da Jéssica Reinaldo, lá do Fright Like a Girl. E desde então estava aguardando ansiosamente pela publicação aqui no Brasil, pois além de uma biografia de uma mulher injustiçada do cinema, é também um retrato do próprio cinema, que mudou bem pouco desde então. Mallory O'Meara trabalha com filmes de terror e nos dá um livro muito pessoal, muito real e honesto a respeito do estado da arte e a coisa não é muito boa.




Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide



O livro
Mallory O'Meara tinha 17 anos e acabara de assistir ao filme O Monstro da Lagoa Negra. Então ela fez o que todas nós fazemos quando assistimos algo que nos agrada muito: ela foi para a internet pesquisar a respeito. Enquanto lia sobre os bastidores e via imagens da produção, ela se deparou com uma que parecia destoar de todo o entorno: era a de uma mulher de vestido listrado, em frente ao ator vestido com a roupa da criatura, usando um pincel. E a descrição da imagem dizia: Milicent Patrick, animadora e designer de criaturas.

Resenha: A Dama e a Criatura, de Mallory O'Meara


A experiência foi um divisor de águas para Mallory, pois era evidente que Milicent era parte da produção do filme. Não era uma assistente, nem uma dama em perigo nos braços da criatura. Era uma artista trabalhando na produção de um grande clássico de terror. Isso a inspirou tanto que Mallory hoje trabalha com filmes de terror. Milicent se tornou uma luz que começou a guiá-la pelos tortuosos caminhos da arte. Um dia, mostrando a tatuagem que fizeram com o rosto de Milicent e a criatura, alguém disse que ela deveria escrever um livro sobre essa mulher tão incrível. E aí tudo começou.

Mas ninguém disse que a jornada seria fácil. Em um misto de biografia de Milicent e relato pessoal de sua própria jornada, Mallory vasculhou documentos, entrevistou pessoas, escaneou fotos em busca de detalhes da vida desta artista pioneira. Ainda há muita coisa que ela não sabe, a própria autora admite, mas o que conseguiu levantar é admirável e bem detalhado. A autora reconhece a dificuldade de levantar informações sobre Milicent até mesmo nos escritórios da Disney, onde ninguém tinha ouvido falar dela.

Nascida Mildred Elizabeth Fulvia Rossi em 1915, em San Francisco, seu pai Camille Rossi foi um dos engenheiros que ajudou a construir o Castelo Hearst, na Califórnia, uma obra descomunal e cara de um dos grandes barões da mídia da época. Por causa do trabalho do pai, a família se mudava constantemente, o que tornou a criação das crianças multicultural. Mas a família não era muito feliz. Pelas informações levantadas por Mallory, a mãe de Milicent era bastante infeliz no casamento.

Milicent se formou no Chouinard Art Institute, em Los Angeles, uma das poucas instituições que admitiam mulheres na época e em 1939 tornou-se uma das primeiras animadoras e coloristas da Disney. Mesmo tendo ficado apenas dois anos no estúdio, ela ajudou a criar um estilo único para pintura em animações. Nesta época, os ilustradores eram majoritariamente homens, mas quem fazia a pintura dos acetados para as animações eram mulheres, o que deu a Milicent uma constante enxaqueca por trabalhar horas seguidas em uma caixa de luz. Tendo deixado os estúdios e sem apoio da família conservadora, Milicent começou a trabalhar como modelo e atriz.

Se na época de Milicent mulheres já sofriam com discriminação na indústria, nos dias de hoje isso pouco mudou e Mallory conta alguns casos de sua própria carreira, como um ator se oferecendo pra depilar suas partes íntimas ou um produtor perguntando se ela estava transando com o diretor para conseguir trabalhar numa produção. Em 60 anos, a indústria que Milicent conheceu mudou nada ou quase nada. A inserção de mulheres ainda é difícil, rodeada de boatos e dúvidas sobre sua competência e a distribuição de prêmios mostra bem isso.

As mulheres são o elemento fundamental do horror, já que, na maioria, elas são as vítimas do horror. Mulheres precisam suportar, lutar e sobreviver - tanto nos filmes como na vida real. São elas que vivem sob o risco de serem atacadas pelos monstros do mundo real.

Página 21

Em 1954, Milicent começou a trabalhar no Universal Studios, que já era famoso na época por seus monstros como Frankenstein, a Múmia e Drácula. Naquele ano, estavam produzindo O Monstro da Lagoa Negra, e Milicent foi a primeira mulher a criar um monstro para um filme na indústria e na época da confecção do livro (2018), ainda é. Seu trabalho foi tão impactante que o estúdio a lançou em uma turnê de duas semanas para fazer a divulgação do filme e falar de seu trabalho.

Milicent nos estúdios da Universal trabalhando na máscara do Monstro da Lagoa Negra
Milicent nos estúdios da Universal trabalhando na máscara do Monstro da Lagoa Negra

O livro está entremeado pelas memórias e experiências de Mallory no cinema de horror e pela vida de Milicent resgatada por seu trabalho impecável. A narrativa está muito gostosa, o livro voa na mão e a tradução de Rebeca Puig, que é roteirista e formada em cinema, está ótima. A edição da DarkSide é um show à parte. Em capa dura e papel amarelo, ela conta com um incrível trabalho gráfico, onde temos ilustrações do filme e fotos em preto e branco de Milicent em várias fases da vida. Há ainda um índice remissivo, fontes para consulta e um epílogo.

Milhares e milhares de mulheres estão por aí, sentindo-se sozinhas com suas paixões criativas. Milhares nem sequer consideraram a ideia de fazer arte, porque não conseguem imaginar um lugar para si nesse mundo.

Página 330


Obra e realidade
Quando Mallory começou a escrever o livro e comentou com os amigos sobre quem ela estava escrevendo, seus amigos ficaram curiosos. Quem era Milicent Patrick e por que ela achava que essa pessoa merecia uma biografia? Mallory foi bem direta no livro quando traça paralelos de sua própria jornada no cinema com a de Milicent e de como ainda é difícil ser considerada uma boa profissional no meio sem ter um patrono ou amante. Se em 2019 isso pouco mudou, Milicent aguentou uma carga ainda maior, já que sua família não via com bons olhos sua carreira, muito menos a de atriz e deixou de ampará-la muito cedo. Se para os nossos dias atuais, 60 anos depois de seu trabalho com O Monstro da Lagoa Negra, a situação da mulher na indústria do cinema pouco mudou, significa que ainda temos uma longa estrada pela frente.

Mallory teve dificuldades em conseguir dados sobre ela justamente pelo ambiente tóxico entre colecionadores e nerds que só se interessaram em Milicent por ela ser uma mulher muito bonita. Eles desdenhavam do projeto de Mallory e desdenhavam ainda mais das contribuições de Milicent para a história do cinema. Ou seja, nestes mais de 60 anos desde o trabalho pioneiro de Milicent Patrick, pouquíssima coisa mudou. Fico muito feliz por ver esse reconhecimento dado a Milicent, ao mesmo tempo fico muito triste por ter demorado tanto e por tão poucas mudanças.

Mallory O'Meara
Foto de Allan Amato, 2017

Mallory O'Meara é roteirista e produtora na Dark Dunes Productions. Morando em Los Angeles, é uma das apresentadoras do podcast Reading Glasses, junto da atriz e cineasta, Brea Grant.


Pontos positivos
Bem escrito
Bem pesquisado
A vida de Milicent Patrick
Pontos negativos
Preço
Acaba rápido!

Título: A Dama e a Criatura - Segredos da Lagoa Negra
Título original em inglês: The Lady from the Black Lagoon: Hollywood Monsters and the Lost Legacy of Milicent Patrick
Autora: Mallory O'Meara
Tradutora: Rebeca Puig
Editora: DarkSide Books (selo Macabra.TV)
Páginas: 368
Ano de lançamento: 2022
Onde comprar: na Amazon ou no site oficial da DarkSide Books com um brinde exclusivo!


Avaliação do MS?
Fiquei muito impactada com a leitura e sensibilizada pela trajetória, tanto de Milicent quando de Mallory. Não tem uma mulher que não simpatize com tudo o que Milicent foi obrigada a aguentar apenas porque era muito boa no que fazia e intimidava os homens ao seu redor. E só posso lamentar o que aconteceu com ela e tantas outras mulheres que não tiveram a chance de contribuir para suas áreas da maneira que queriam porque eram mulheres, tantas mulheres talentosas que são obrigadas a enterrar seus talentos porque o mundo não lhes dá valor. Leitura super recomendada para você que gosta de biografias e da indústria do cinema. Uma leitura essencial e obrigatória!

Até mais! 🖤


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