Resenha: Woman on the edge of time, de Marge Piercy

Ganhei este livro de um amigo muito querido. Esse é mais um daqueles casos escandalosos de livros que deveriam ter ganhado uma tradução há muito tempo e não ganharam, sabe? Considerado por William Gibson como o berço do cyberpunk, Woman on the Edge of Time é um clássico da ficção científica e da literatura feminista desde sua primeira publicação, em 1976. Marge Piercy trata de diversas questões pertinentes e extremamente atuais neste livro marcante.





O livro
Connie Ramos tem 37 anos, mora no Harlem espanhol, em Nova York, e perdeu tudo. Perdeu a filha, perdeu o marido, não tem mais como se sustentar e agora querem também tirar sua sanidade. Estamos nos anos 1970. Connie abre a porta para ajudar a sobrinha Dolly que acabou de apanhar do marido, que a faz se prostituir para sustentar a casa, e agora pede socorro. Mas o infeliz vai atrás de Dolly, invadindo apartamento de Connie e soltando toda uma fileira de palavrões. Quando Connie tenta defender a sobrinha, ela acaba sendo outra vítima dele. E Connie vai parar em um hospital psiquiátrico para controlar sua suposta tendência à violência.

Resenha: Woman on the edge of time, de Marge Piercy


Connie já tinha sido internada antes. A autora nos dá pedaços dessa história conforme a crise com Doly desabrocha, mas é na sua segunda internação que vamos sabendo mais a respeito. Connie é uma mulher bastante empática, bastante perceptiva. É através destas qualidades que ela começa a se comunicar com Luciente, uma mulher de aparência andrógina que veio do futuro. Luciente vem do ano 2137 e suas conversas com Connie acontecem desde sua primeira internação, mas ficam cada vez mais reais conforme a medicação que Connie recebe no hospital aumenta.

Os poderosos não fazem revoluções.

(tradução livre)

O futuro de Luciente é um lugar idílico, onde as demandas dos movimentos civis nos anos 1960 e 70 foram atendidas. Nas décadas seguintes o mundo viu o fim do patriarcado, da poluição, da homofobia, do racismo, do colonialismo, do consumismo, do totalitarismo, da misoginia, levando a um mundo de governo descentralizado em uma versão baseada no anarquismo. Luciente mostra a Connie uma sociedade agrária, chamada Mattapoisett, onde as crianças não são encaixadas em rígidos papéis de gênero, são encorajadas a ter criatividade e a se conectar com suas emoções.

Também é um mundo de gênero neutro, onde se usa "per" ou "person" (pessoa) no lugar de ele/ela. Um livro de 1976 se valendo de gêneros neutros sendo que tem gente em pleno 2022 dando piti a respeito, né? Continuando... O problema é que este paraíso idílico é apenas um dos futuros possíveis. Há um cenário em que o consumo e a exploração atingem o ápice no hiper-capitalismo que está se formando. O meio ambiente está degradado pela exploração consumista, o planeta está em perigo, a sociedade está cada vez mais desigual e há um uso desregrado de tecnologias, principalmente médicas e químicas. Racismo, homofobia, misoginia são moeda corrente, as mulheres são profundamente exploradas para encaixar em um ideal de beleza através de cirurgias plásticas cada vez mais desfigurantes. Ou seja, nosso mundo atual.

Piercy trabalha muitos temas entrelaçados com a jornada de Connie. Simpatizei com a protagonista desde o começo e senti sua dor e sua luta por sua sanidade ao longo do livro. Não é fácil saber que suas ações podem estar naquele mesmo instante moldando um futuro que pode ser brilhante ou pode ser um completo desastre. Como agir, então? Como saber qual é o caminho a seguir? Será que dá para saber? A própria Piercy comenta na introdução que ninguém é bom em prever nada, que a ficção científica nem tem esse papel. Então fica essa eterna questão sobre nossos atos. E Connie também fica com essa sensação, mas sem saber exatamente o que fazer e como proceder, acreditando porém que ela tentou e isso é suficiente.

Há também uma sensível e contundente crítica ao sistema manicomial e a forma como Connie é tratada pelo hospital no momento de sua segunda internação. Os fatos que a levaram para lá são totalmente ignorados. Na verdade, quanto mais ela protesta, mais isso é visto como um sinal de sua doença e mais e mais remédios são prescritos para "controlar" esta mulher tão desobediente. É muito fácil acreditar que Connie é só uma esquizofrênica em episódio maníaco que criou essa personagem do futuro como uma alternativa ao seu próprio mundo.

Parece que as pessoas lutaram mais arduamente contra aqueles que tinham um pouco mais do que eles mesmos ou muitas vezes um pouco menos, em vez lutar contra aqueles que ficaram cada vez mais ricos.

(tradução livre)

Mas também é fácil acreditar que ela de fato estava se comunicando com alguém vinda do futuro. Talvez a internação fosse a única maneira de fazer seu cérebro se dissociar do presente, através das drogas, a fim de receber as visitas de Luciente? Talvez sua internação fosse inevitável no frigir dos ovos futurísticos e era assim que tinha que acontecer desde o começo? Percebe a quantidade de cenários que podemos descrever diante das ações de Connie e de Luciente? Podemos abrir um leque de possíveis interpretações e ainda assim ficar na dúvida, sendo que isso não invalida as discussões feitas.

Connie representa todas as pessoas numa sociedade que não têm voz, que não têm direito a se expressar, que são ignoradas pelo sistema, pessoas consideradas "excêntricas", "desobedientes", "difíceis de amar", pessoas que não merecem o tempo e a atenção dos outros. Connie é o símbolo do que acontece quando aceitamos o totalitarismo como uma forma de reger uma sociedade. Connie não é ouvida por ninguém. Não é assim com os grupos minoritários, com os ambientalistas, com as feministas, que gritam a plenos pulmões o quanto a sociedade está errada e todo mundo ri, aponta o dedo, tira sarro?

Minha edição é a de capa comum e papel jornal com a terrível tendência a deformar por qualquer coisa. A introdução da autora de 2016 é fantástica e um tapa na nossa cara, em nossos tempos de smartphones e tablets. É um romance muito atual, mesmo tendo mais de 30 anos. É uma pena mesmo que não tenha esse livro em português.


Obra e realidade
Li algumas resenhas sobre esse livro que dizem que ele retrata uma "utopia feminista". Fiquei curiosa a respeito antes de ler e enquanto lia percebi que ele não é feminista. É uma utopia sim, Piercy deixa isso bem claro na forma como descreve a sociedade e a forma como as pessoas se organizam. Entretanto, é curioso notar que se os homens não estiverem no controle de uma sociedade, se não houver capitalismo, opressão, totalitarismo, e imperialismo, ela logo é rotulada de "feminista".

Essa identificação automática é bem preocupante e triste, pois o que a autora descreve é uma sociedade colaborativa, onde todos podem ter voz, não apenas um grupo específico, onde não se explora o outro para se obter vantagens econômicas, onde não se tenta calar as diferenças, mas onde se vive com elas, onde elas são bem recebidas. É triste também pensar o quanto esse tipo de mundo, o nosso mundo, é tão confortável para certas pessoas.

Marge Piercy


Marge Piercy é uma poeta, escritora e ativista social norte-americana.


Pontos positivos
Bem escrito
Connie
Muito atual
Pontos negativos
Violência contra a mulher
Não tem em português
Preço

Título: Woman on the edge of time
Autora: Marge Piercy
Editora: Ballantine Books
Páginas: 432
Ano de lançamento: 2016 (reimpressão de 1997)
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Um clássico da literatura de ficção científica que, infelizmente, não chegou ao Brasil. É lamentável, pois ele conversa diretamente conosco em nosso momento atual e sobre o futuro que queremos, as atitudes que devemos tomar, o quanto estamos sem voz. Ninguém tem como saber como será o futuro, nós podemos apenas esperar pelo melhor, como Connie. Quatro aliens para o livro e uma forte indicação para você ler também!


MUITO BOM!


Até mais!


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3 COMENTÁRIOS

  1. Fiquei tensa só de ler a sinopse. (risos nervosos)
    Como assim esse livro não foi publicado ainda no Brasil? Fiquei bem interessada em ler. E, nossa, conforme você descrevia o cenário caótico eu só conseguia pensar: nosso mundo AGORA, né? Impressionantes os paralelos.

    Não Me Mande Flores

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    Respostas
    1. Pois é, mais um daqueles livros essenciais que nunca ganhou uma tradução, não sei bem por quê. O que é uma pena, o livro é incrível. E muito importante pros tempos que estamos vivendo.

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  2. Lendo a resenha, os pontos relacionados a uma comunidade agrária lembraram um pouco o livro que li recentemente, Walden II, do Skinner, de 1948, em um contexto pós segunda guerra que o fez pensar em diferentes formas de comunidade. Gostaria de ler sua opinião ou resenha algum dia, mas ambos, esta da Percy e do skinner parecem tentar soluções para problemas que até hoje persistem em um ciclo aparentemente, e digo de maneira um pouco pessimista, sem fim.

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