Resenha: Kentukis, de Samanta Schweblin

Não é preciso ir muito longe para imaginar um mundo com kentukis, bichinhos de pelúcia que as pessoas compram e que podem ser operadas por qualquer um. O bichinho não tem como se comunicar com alguém, exceto por alguns gestos e sons limitados. Nessa distopia tão próxima de nossas vidas, é possível reconhecer vários cenários que não são tão ficcionais assim.





O livro
Imagine a cena: você está em uma loja e vê à venda um simpático robozinho com formas variáveis chamado kentuki. Ele é de pelúcia, todo fofinho, dotado de rodinhas e câmeras atrás dos olhos. Você compra, leva para casa e liga. Mas a pegadinha é que qualquer pessoa cadastrada nos servidores pode se conectar ao seu kentuki e observar tudo o que você faz. Você, por sua vez, não sabe nada sobre essa pessoa, nem de onde ela é. Parece bastante assustador, certo? Mas está tão distante assim do nosso mundo de redes sociais e compartilhamentos instantâneos?

Resenha: Kentukis, de Samanta Schweblin


Quase como uma legista literária, que disseca o corpo da nossa sociedade, a autora começa a narrativa saltando de cidade em cidade, de personagem em personagem, contando um pouco de suas rotinas com o kentuki, tanto os donos dos bichinhos quanto aqueles que os controlam. Existem operadores solitários, que apenas querem uma conexão com a pessoa do outro lado ou como um garotinho que sonha em ver a neve, mas também tem aqueles que começam uma pesada extorsão sexual para cima de três garotas.

Pode parecer um absurdo completo ter um bichinho desses ou querer ser um operador. Mas não precisamos pensar muito em como as pessoas embarcariam nisso de braços abertos. O que é o Big Brother, afinal? Lembro que quando o programa estreou, lá pelos idos de 2002, muita gente, até mesmo amigos meus, acharam um absurdo assistir um programa por 24 horas para acompanhar um bando de desconhecidos. E o programa está aí, na sua 20ª edição, com altos índices de audiência. Nunca curti BBB, nunca assisti um programa sequer, mas por causa das redes sociais acabo ouvindo e sabendo de um nome ou outro porque milhões embarcaram na onda do programa. Por alguma razão, assistir a vida de completos anônimos é muito interessante para alguns.

Um kentuki não é muito diferente. Um operador assiste tudo o que acontece com seu amo (ou tudo o que ele permita assistir). Enquanto tem gente bem intencionada no livro, que lembra a tomar seu remédio, outras não têm um coração tão bom. As relações que as pessoas têm com seus bichinhos varia muito, assim se têm com as redes sociais e seus gadgets. Assim como alguém pode usar o Twitter para se conectar com pessoas com gostos semelhantes e fazer amizades duradouras, outros usam a plataforma para espalhar mentiras, assediar pessoas e aplicar golpes.

Não se podia contar com o bom senso das pessoas, e ter um kentuki circulando por aí era a mesma coisa que dar as chaves da sua casa a um desconhecido.

Página 34

Kentukis é um livro sobre os limites da conexão virtual e em como a tecnologia pode nos infantilizar, nos fragilizar ou nos tornar prepotentes a ponto de querer controlar a vida dos outros. Não faz muito tempo a ideia de compartilhar sobre nossas vidas para que estranhos vissem soaria um absurdo. Fotos eram coisas privadas, guardadas com cuidado em álbuns, reveladas em locais específicos. Hoje eu tenho em minhas mãos uma câmera poderosa para gravar vídeos e tirar fotos em questão de segundos, compartilhando meus gatos jogando bola no corredor de casa. Uma coisa boba e fofa rende centenas de visualizações em poucas horas que anos atrás seria apenas um momento da minha vida que eu talvez esquecesse facilmente.

Apesar de ter gostado muito da temática e das discussões feitas pela autora, a narrativa em si não foi muito cativante para mim. Acho que eu teria me envolvido mais com o livro se no lugar de tantos personagens e pontos de vista nós tivéssemos um aprofundamento em apenas alguns deles. Emília, por exemplo, foi uma personagem que adorei mas lamentei o fato de o foco da narrativa saltitar tanto.

Acredito que a ideia da autora era mostrar o fenômeno acontecendo e não os personagens em si. Schweblin queria mostrar como os kentukis estavam afetando pessoas diferentes, de vivências e contextos diferentes, mas acabou sacrificando a conexão que poderíamos ter com os personagens. Sua abordagem é relevante, mas para mim não rolou muito e foi difícil vencer as poucas mais de 190 páginas.

A edição da editora Fósforo vem em capa comum e papel amarelo. Não encontrei grandes problemas de revisão ou diagramação, mas admito que os números de páginas não centralizados foram enervantes. A tradução de Livia Deorsola está ótima.


Obra e realidade
Em uma ótima entrevista para o The New York Times, Schweblin comenta sobre a ausência de discussões tecnológicas na literatura. Se um livro aborda essa dinâmicas e problemas que envolvem uma rede social ou robótica, ela logo cai na prateleira da ficção científica e é encarada como algo menor, "escapista". Nem o mais imaginativo escritor de ficção científica conseguiu "prever" as redes sociais. Temos muitos exemplos de discussões sobre a presença de robôs e até mesmo a aplicação desse conhecimento conforme a robótica avança. É um exemplo de ficção impactando nossas vidas reais.

Mas e as redes sociais? Como lidar com elas de maneira responsável? Como não ultrapassar linhas de privacidade? É possível utilizar as redes de maneira responsável e saudável, mas parece que cada vez menos gente vem sabendo lidar com elas. Um mimo feito por um pai que comprou sorvetes para a filha se tornou uma discussão horrenda sobre desigualdade social e privilégios no Twitter. Uma brincadeira sobre um brigadeiro numa festinha infantil virou uma espiral louca sobre pedófilos e sequestradores de crianças.

A mesma responsabilidade que os personagens, em geral, não tiveram com seus kentukis no livro é a que está faltando em muitas interações nas redes. Isso só mostra o quanto a ficção pode ser um retrato fiel da realidade, por mais que alguém julgue um enredo com robôs como "escapista".

Samanta Schweblin


Samanta Schweblin é uma escritora argentina. Ganhou o Prêmio Casa de las Américas de 2008 com seu livro de contos Pássaros na boca. Em 2010, foi eleita pela revista Granta uma das 22 melhores jovens escritoras de língua espanhola.


Pontos positivos
Kentukis
Distopia
Bastante atual
Pontos negativos
Muitos personagens
Personagens rasos


Título: Kentukis
Título original em espanhol: Kentukis
Autora: Samanta Schweblin
Tradutora: Livia Deorsola
Editora: Fósforo
Páginas: 192
Ano de lançamento: 2021
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Uma boa analogia aos kentukis é com os tamagotchis. Se você é da minha geração, com certeza, se lembra deles. Um kentuki é uma evolução dessa tecnologia. Pode reparar que nem é tão novo esse fenômeno. Me lembro de colegas na escola manuseando os bichinhos virtuais. A tecnologia pode ter evoluído, mas a curiosidade, a morbidez em querer bisbilhotar e cuidar da vida dos outros estão lá e foram extrapoladas em Kentukis. Não é um livro ruim, recomendo a leitura, ainda que faça ressalvas sobre os inúmeros personagens e pontos de vista. Três aliens para o livro.





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