Resenha: A mão esquerda da escuridão, de Ursula K. Le Guin

Essa é uma resenha que me cobram há anos aqui no blog. Mas como fazia muito - MUITO - tempo que eu tinha lido, não achei que seria legal resenhar um livro que li em outra época, em outro momento, com outra cabeça. Assim me programei para reler este clássico ainda em 2021. E obviamente não deu certo e acabei relendo agora em 2022!

👓 Este livro faz parte do Projeto Releituras!




Parceria Momentum Saga e
editora Aleph



O livro
Genly Ai, um terráqueo nativo, é enviado para convidar o planeta Gethen a se unir ao Ekumen, uma coalizão de mundos humanoides, algo semelhante à Federação de Planetas Unidos, de Star Trek. Genly é enviado sozinho, enqunato seus companheiros estão em hibernação em órbita. É claro que há um interesse maior nisso tudo. Os habitantes de Gethen pertencem a uma humanidade superior, mas não possuem qualquer interesse em progresso tecnológico e tecnologias espaciais. Genly cai em um mundo complexo, com desconfiança correndo solta entre os reinos do planeta.

Resenha: A mão esquerda da escuridão, de Ursula K. Le Guin


Uma das principais dificuldades encontradas por Genly nesse planeta é o fato de que os habitantes de Gethen são ambissexuais. Eles têm a capacidade de desenvolver dois gêneros. Eles oscilam entre o feminino e o masculino em períodos específicos de reprodução ou afeto, o kemmer. Genly é inclusive considerado um "pervertido" por estar "sempre no cio", já que é um homem cisgênero. Isso contribui para o ambiente de desconfiança que os habitantes nativos têm com ele, exceto pelo político de Gethen chamado Therem Hart rem ir Estraven.

Genly, ou Genry, como os habitantes de Gethen chamam por causa do L, pode colocar tudo a perder justamente por não entender esse conceito particular do povo. Narrado por dois pontos de vista, de Genly e de Therem Hart, os dois enfrentam uma batalha social, política, sexual, onde se veem obrigados a enfrentar o povo e a cultura de um planeta que quer permanecer isolado.

Uma voz proclamando a verdade é uma força maior do que frotas e exércitos, se lhe derem tempo.

Página 43

Eu disse uma vez que os livros da Le Guin que são mais recentes são os que me agradam mais. Este aqui foi lançado no final dos anos 1960 e consigo entender as críticas que foram feitas ao livro por críticas como Joanna Russ. A começar pela forma como Ursula retrata os habitantes de Gethen quando estão no gênero feminino, que me incomodou bastante desde a primeira leitura que fiz.

Para começar, os gethenianos apresentam traços tratados tipicamente no masculino, com pronomes e artigos masculinos. Depois tem a questão de estereótipos de gênero. Quando os pronomes e artigos são masculinos, o narrador sempre associa a força, competência, racionalidade, violência, postura política e etc. Mas quando um personagem demonstra impaciência, suavidade, sensibilidade, fraqueza, ele associa ao feminino.

Isso invalida as discussões do livro? Não, de maneira nenhuma, mas foram o suficiente para a própria Ursula repensar a forma como retratou os personagens. Há até uma sugestão de um relacionamento entre Genly e Therem Hart que é bastante superficial e poderia ter sido aprofundado. Novamente, entendo as dificuldades da autora em publicar na época em que publicou.

Ela é muito hábil com as palavras, ainda que eu tenha achado este livro bem cansativo em alguns momentos quando comparado com outras obras da autora que já li. Valendo-se de lendas, mitos e ciência fictícias para criar Gethen e deixar o cenário o mais verossímil possível. É uma pena que todos os livros do Ciclo de Hain não estejam publicados no Brasil, pois este livro faz parte de um universo ainda maior. O livro é um mosaico de fontes primárias, um caderno de um etnógrafo interestelar, variando de entradas de diário a fragmentos de mitos alienígenas. Esse formato talvez desagrade aqueles que queiram uma narrativa mais convencional.
 
A autora não deixa escapar nada e se vale de mitos, lendas, descrições geológicas e temporais, quase que completamente inventadas, para deixar o cenário mais real, mais palpável para o leitor. Vamos descobrindo isso aos poucos pela forma como ela espalha esse mundo pelas páginas, conforme vamos lendo. É daqueles livros que prendem porque você sempre quer descobrir mais.

Tenho duas edições em casa, a primeira, em capa comum, que li há anos e uma segunda, em capa dura, mas as duas tem a mesma tradutora, Susana L. de Alexandria. A diferença é que na de capa dura há uma introdução da própria Aleph a respeito do livro e uma de Neil Gaiman. E ele faz parzinho com Os Despossuídos, situado no mesmo universo.


Obra e realidade
Em uma entrevista, Ursula uma vez disse que ela escrevia em um mundo literário onde os homens fizeram as regras. Então, se ela quisesse ser publicada, precisava escrever pelas regras deles. As mulheres revolucionárias que vinham expandindo e modificando o gênero estavam distantes de seu universo. E temos mesmo que relevar pela época, pelo contexto e pela própria forma de pensar de Ursula.

A própria autora se desculpou por erros cometidos neste livro. Ela justificou o uso da linguagem masculina porque não queria dificultar a leitura inventando outros pronomes e artigos. Mas reconheceu que acabou recaindo em estereótipos que tentou evitar. Consigo entender e concordo com Ursula a respeito. Eu mesma já caí muito na armadilha dos estereótipos no começo da minha escrita. Felizmente, escrita é um exercício constante que sempre nos faz melhorar.

Mas se tem uma coisa que eu gosto muito são de seus ensaios. No começo deste livro ela diz algo que é essencial: ficção científica não prevê, ela descreve. Não só isso, ela pede que você não acredite nela. Ela é uma escritora e sua função é mentir. Sabe quando as pessoas pegam a ficção científica e dizem que ela "previu" alguma coisa do futuro? Então, esquece isso. Gênero literário nenhum prevê qualquer coisa.

(...) nossa sociedade, problemática, desnorteada, em busca de uma direção, às vezes deposita uma confiança completamente equivocada em seus artistas, usando-os como profetas ou futurólogos.

Página 13

Ursula K. Le Guin


Ursula K. Le Guin foi uma premiada escritora norte-americana, autora de vários livros de ficção especulativa. Ela faleceu em 2018.


Pontos positivos
Gethen
Universo bem construído
Masculino X Feminino
Pontos negativos
Errinhos de revisão
Pode ser meio lento


Título: A mão esquerda da escuridão
Título original: The Left Hand of Darkness
Autora: Ursula K. Le Guin
Tradutora: Susana L. de Alexandria
Editora: Aleph
Ano: 2019
Páginas: 304
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Não vou dizer que é uma leitura fácil. O andamento da leitura pode ser bem lento de vez em quando, o que pode incomodar quem queira uma leitura mais ágil. Mas não vejo isso como um grande problema. Às vezes é preciso desacelerar mesmo. É um grande livro, que quebrou barreiras, que é discutido até hoje, que merece uma leitura ou releitura sua. Quatro aliens e uma forte recomendação para você ler também!




Até mais!


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