Resenha: O Chamado de Cthulhu, de H.P. Lovecraft e François Baranger

Se você é fã do trabalho de H.P. Lovecraft, se procura uma obra de arte relacionada ao famoso conto e curte as ilustrações incríveis de François Baranger, então encontrou tudo isso! Em uma primorosa edição, capaz de dar vida aos maiores pesadelos induzidos pela narrativa do autor, o quadrinho é um deleite visual e estético, além de contar a história da temida criatura mítica Cthulhu!





Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide


O quadrinho
O proeminente professor de línguas semíticas George Angell faleceu de forma misteriosa em 1926. Sem encontrarem nada que explique sua morte, os médicos concluíram que foi de causas naturais, até porque Angell tinha 92 anos. Se sobrinho-neto, Francis Thurston, por sua vez, não concorda com a conclusão, em especial depois de ler os documentos do professor que estavam lacrados em uma caixa. Sendo seu único herdeiro, os materiais do professor ficaram sob sua responsabilidade. Dentro dessa caixa, mais material misterioso, principalmente um baixo-relevo com inscrições bizarras e um ser grotesco estavam esculpidos.

Resenha: O Chamado de Cthulhu, de H.P. Lovecraft e François Baranger

Parecia ser um tipo de monstro, ou um símbolo representando um monstro, de uma forma que apenas uma fantasia doentia poderia conceber. Se eu dissesse que minha imaginação um tanto extravagante remeteu simultaneamente a imagens de um polvo, um dragão, uma caricatura humana, eu não seria infiel ao espírito da coisa. Uma cabeça polpuda e tentacular coroava um corpo grotesco e escamoso com asas rudimentares; mas era o contorno geral do todo que o tornava mais chocantemente horrendo.

Francis decide conversar com a pessoa que fez o baixo-relevo, Henry Anthony Wilcox, aluno local, que baseou sua criação em um sonho delirante que teve, onde viu uma criatura titânica e bizarra, quase impossível de explicar. Há várias menções a Cthulhu e R'lyeh em cartas escritas por Wilcox. Francis acaba descobrindo delírios semelhantes em outras cidades, com outras pessoas.

Na segunda parte, voltamos alguns anos no passado, para ver como um policial, o Inspetor Legrasse, se deparou com um culto bizarro e com uma estranha estatueta de um ídolo em uma pedra esverdeada e escura. Ele descobriu a relíquia após uma batida em um culto que supôs ser vudu, nos pântanos de Nova Orleans. O que é aquele ídolo? Por que as pessoas parecem perder o juízo em seu culto?

Pendendo mais para um livro ilustrado do que um quadrinho, a obra não contém balões de texto e sim texto corrido sobre impressionantes ilustrações de François Baranger. Toda a penumbra e mistério evocadas no conto estão presentes, com traços por vezes indefinidos, tal como o próprio Cthulhu parece ser. Ainda que a descrição dada por Lovecraft não seja muito detalhista, Baranger conseguiu captar a essência da criatura e ainda mesclar a visão que já se cristalizou na cultura pop.

As criaturas de Lovecraft, em geral, fogem à convenção estabelecida na literatura de horror. Isso talvez explique porque o autor não teve tantas representações visuais de suas obras, já que seu horror é muito mais dependente da percepção dos leitores do que outras formas, como o slasher. Um horror cósmico, mítico, que foge às barreiras do tempo, do espaço e da mente humana, de fato, podem ser bem desafiadores.

O Chamado de Cthulhu


A arte de Baranger está perfeita. Não há o que discutir. A escolha da paleta combina perfeitamente com o tom sombrio da narrativa e com as dificuldades de se descrever Cthulhu. A penumbra nas cenas urbanas, relutando em nos revelar os detalhes, ajuda na composição dos cenários, onde por vezes apenas um feixe luz ilumina os olhares apavorados dos personagens. Dá um friozinho na barriga observar as ilustrações e acompanhar a leitura, pois Baranger conseguiu retratar o medo e a apreensão com maestria.

Por ser o conto em sua versão integral, e ele não é exatamente pequeno, temos blocos imensos de texto sobre as imagens, com uma letra um tanto pequena. Com o fundo escuro de algumas páginas, foi um pouco chato de ler. Não é uma leitura para ser feita rapidamente, mas ela pode ser um pouco desconfortável em alguns momentos. A edição é em capa dura, papel especial e com introdução de John Howe, ilustrador canadense, conhecido por ilustrar cenas da série de livros O Senhor dos Anéis. No final ainda temos uma biografia breve dos autores e uma nota do editor falando sobre o racismo de Lovecraft que foi bem em cima do muro. A tradução foi de Ramon Mapa e está muito boa, ainda que tenha erros de revisão, como palavras repetidas em alguns lugares. É um quadrinho grande, medindo 23,2 x 30,6 cm.

Em sua casa, em R'lyeh, Cthulhu, morto, aguarda sonhando.


Obra e realidade
Comentei acima sobre a nota do editor, falando sobre o racismo já bem conhecido de Lovecraft e como ele transpira pelas obras do autor, inclusive nessa aqui. Não são poucos os exemplos de xenofobia de Lovecraft, inclusive com um relato de sua esposa sobre como ele ficava irritado ao encontrar pessoas de outras etnias andando na rua.

Muitos eventos traumáticos na vida de Lovecraft moldaram sua escrita no futuro, como o colapso que seu pai sofreu, muito provavelmente devido à sífilis e a perda de entes queridos. Ele cresceu com medo da morte, com medo do desconhecido, temendo tudo o que fosse diferente. Na época em que se correspondia com seus amigos, suas cartas transpiravam xenofobia e racismo, onde ele defendia grupos de linchamento contra negros e até há uma menção de que Hitler era uma escolha menos nociva para a Alemanha do que o bolchevismo...

Defender o autor e dizer que "ah, naquela época era assim mesmo" é ignorar o fato de que já nos anos 1930 teorias supostamente científicas que justificavam racismo tinham caído por terra. E dizer que ele se casou com uma judia e por isso começou a mudar de ideia é usar a carta do "não tenho nada contra judeus, tenho até amigos que são".

O impacto de Lovecraft na cultura pop e na literatura é indelével. Este quadrinho de Baranger é perfeito, uma obra de arte. Mas não podemos ignorar os posicionamentos e preconceitos de Lovecraft, nem como isso afetava sua produção literária, pois afetou. A nota do editor poderia ter sido mais expressiva ao invés de alegar que "ele até tinha uma esposa judia".

H.P. Lovecraft e François Baranger

H. P. Lovecraft foi um escritor norte-americano que revolucionou o gênero de terror, atribuindo-lhe elementos fantásticos típicos dos gêneros de fantasia e ficção científica.

François Baranger é um ilustrador francês, que trabalha sobretudo produzindo concepts para filmes (Harry Potter, Fúria de Titãs, A Bela e a Fera) e jogos de computador (Heavy Rain, Beyond: Two Souls), além de ilustrar várias capas de livros.


Pontos positivos
Arte incrível
Cthulhu
Trabalho gráfico
Pontos negativos

Preço
Errinhos de revisão

Título: O Chamado de Cthulhu
Título original em inglês:The Call of Cthulhu
Autor: H.P. Lovecraft
Ilustrador: François Baranger
Tradutor do conto: Ramon Mapa
Tradutor do prefácio: Paulo Raviere
Editora: DarkSide
Páginas: 64
Ano de lançamento: 2021
Onde comprar: na Amazon ou no site da DarkSide com um brinde exclusivo!


Avaliação do MS?
A edição é perfeita. Tudo nela ressalta as qualidades do conto e dá vida às pessoas assustadas demais para falar ao se encontrarem com o inominável, com o horror indizível de seres míticos e bizarros das profundezas. Se você é fã do trabalho de Lovecraft e busca uma obra definitiva para um de seus contos mais importantes, então encontrou. Cinco aliens para o quadrinho e uma forte recomendação para você ler também!


MARAVILHOSO!


Até mais!


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