Resenha: Robinson Crusoé, de Daniel Defoe

Até ler a obra original, meu único contato com Robinson Crusoé foi com o filme estrelado por Pierce Brosnan, de 1997. Assim eu apenas conhecia o básico, sobre um náufrago que mora sozinho durante vários anos em uma ilha até encontrar uma pegada na areia. Romance de aventura por excelência, há muito mais a se discutir em Robson Crusoé do que apenas a solidão do personagem.





Parceria Momentum Saga e
Ed. Zahar



O livro
Nossa jornada começa em agosto de 1651, quando o jovem Crusoé contraria os desejos do pai de que ele se formasse em direito e se lança ao mar. Após uma viagem conturbada, seu navio é pego em uma tempestade. Resoluto em continuar no mar, ele navega mais uma vez, quando a viagem termina em tragédia novamente (tu era pé frio, hein Robinson??) e seu navio é capturado por piratas. Dois anos depois, fugindo de bote com a ajuda de um garoto chamado Xury, ele é resgatado pelo capitão de um navio português na costa da África, empenhado em levar escravizados para o Brasil. Crusoé então vende Xury que o ajudou a fugir ao capitão que depois o ajuda a encontrar uma fazenda no Brasil

Resenha: Robinson Crusoé, de Daniel Defoe


Ao participar de uma expedição que capturaria e escravizaria pessoas na costa da África, seu navio naufraga e Crusoé vai parar em uma ilha fictícia próxima à costa da Venezuela, próxima à foz do rio Orinoco, em setembro de 1759. É possível dizer que a história do personagem começa, de fato, aqui e que tudo o que lemos foi uma longa introdução ou um momento de aprendizado e amadurecimento do protagonista que vai precisa de todo o seu conhecimento e perseverança para conseguir sobreviver na ilha.

Munido de tudo o que conseguiu encontrar no navio, como ferramentas e armas, Robinson precisa aprender a se virar com o que tem. Vai precisar domesticar animais, cortar lenha, construir sua própria habitação, coisas que um senhor inglês definitivamente não estaria acostumado a fazer nessa época. É uma amostra das consequências da desobediência de Crusoé para com seu pai, mas que depois acaba se redimindo ao se mostrar muito bom no que faz, pois ele acaba habilidoso com as ferramentas.

Romance de aventura lido por gerações e tendo inspirado outros escritores, Robinson Crusoé é um fruto de seu tempo e não podemos perder isso de vista quando lemos a obra. É possível ler o livro como sendo apenas uma história de aventura, mas é preciso pensar nas entrelinhas e mensagens que o autor acabou colocando aqui. A primeira e mais evidente é sobre o colonialismo e as discussões sobre raça, formação de identidade e relações de poder, todas elas apresentadas por uma perspectiva colonialista.

Este é o enredo sobre um homem branco europeu que estabelece sua própria colônia, com suas regras, civilização e cultura, onde Crusoé se torna o mestre de uma ilha e senhor de tudo e de todos (ou seja, ele mesmo). É também uma jornada espiritual do protagonista, que se aprofunda na religiosidade, onde ele é aterrorizado pela culpa cristã. Pode-se dizer que Deus acaba sendo até mesmo um personagem secundário do livro de tanto que ele influencia na vida de Crusoé. E por fim, uma das coisas mais abomináveis do enredo, é a relação de branco salvador que ele tem com Sexta-Feira.

É interessante apontar que Sexta-Feira tinha um nome entre seu próprio povo, como todo mundo tem. Isso aparece no livro? Não. A identidade dele é obliterada pelo salvamento e novo nome que Crusoé lhe dá. Ele lhe ensina sobre o cristianismo, ensina o idioma inglês, ressaltando a característica colonialista do livro, como o apagamento da cultura do outro, o uso da linguagem ao invés da força, a imposição da cultura invasora sobre a cultura local. Sem contar o fato de que Sexta-Feira o chama de "mestre". Ou seja, Crusoé salvou Sexta-Feira dos canibais em um nobre ato cristão, mas age como qualquer senhor inglês sobre os colonos.

Uma das principais mensagens do livro é sobre a superação das adversidades através do trabalho duro, da fé e, principalmente, da esperança. Especialmente o trabalho, que é visto como uma obrigação ética e religiosa e não uma punição divina.

E se nada acontece sem Seu conhecimento, Ele sabe que estou aqui, e nesta situação horrível; e se nada acontece sem Seu desígnio, Ele designou que tudo isso acontecesse.

Página 123

A edição da Zahar está excelente. Ilustrada e comentada, ela tem uma introdução perfeita feita pelo tradutor da obra, o professor José Roberto O'Shea, que nos ajuda a compreender melhor quem foi Daniel Defoe e o impacto de Robinson Crusoé na literatura. Considerado um precursor do romance moderno, o livro é claramente uma obra de seu tempo e o tradutor explica algumas dessas diferenças entre ambos. Ele também explica como trabalhou algumas características do autor como o uso excessivo de longos períodos compostos, o gerúndio e o uso de ponto e vírgula. Ele não procurou corrigir nada, mas suavizar e melhor adaptar para nosso idioma a não deixar o texto chato e verborrágico. Creio que a tradução foi excelente e não senti dificuldade de prosseguir na leitura.

A edição vem em capa dura e papel amarelo, com diagramação confortável para ler, além de 25 ilustrações originais de Walter Paget.


Obra e realidade
Alexander Selkirk foi um marinheiro escocês que passou quatro anos como náufrago após ser abandonado em uma ilha deserta, e teria sido a inspiração de Defoe para seu Robinson Crusoé, ainda que ele tenha ficado pouco tempo em sua ilha, quando comparado com Crusoé. No romance pretensamente autobiográfico, é o contexto da solidão de Crusoé que definirá o tom da narrativa. Somos apresentados à todas as dificuldades de se viver longe da civilização, o sofrimento e o exílio prolongados. Mas é justamente essa adversidade que o fara crescer, arvorado em uma fé inabalável e na consciência de que só assim ele poderá sobreviver.

Acredito que o autor conseguiu imprimir bastante complexidade em seu protagonista, ainda mais se for verdade que ele baseou Crusoé em Selkirk. Mais do que um romance de aventura, ele também fala da evolução de um ser humano que se viu obrigado a crescer e amadurecer em um ambiente hostil, sem qualquer contato com a civilização. Ele poderia ter voltado a um estado selvagem, mas perseverou.

Daniel Defoe

Daniel Defoe foi um jornalista e escritor britânico. Escreveu mais de 300 trabalhos entre livros, panfletos e revistas, sobre os mais variados temas que iam desde aventura, política, romance e sobrenatural.


Pontos positivos
Bem escrito
Clássico universal
Leitura amigável
Pontos negativos
Colonialismo
Loooooongas descrições
Pode ser lento em algumas partes



Título: Robinson Crusoé
Título original em inglês: Robinson Crusoe
Autor: Daniel Defoe
Tradutor: José Roberto O'Shea
Editora: Zahar
Páginas: 352
Ano de lançamento: 2021
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Fãs de romances de aventura podem se jogar nesse livro e nesta edição. Muito bem acabada e trabalhada, a tradução está perfeita e há belas ilustrações pelo miolo para acompanhar a leitura. A narrativa é bastante amigável, ainda que seja um livro antigo e creio que, a despeito de ser um fruto de sua época, vai agradar leitores de várias idades. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais! 🏖️


Já que você chegou aqui...

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1 Comentário

  1. Oi Sybylla! Eu li uma adaptação quando muito jovem, mas essa edição está na minha lista, com certeza hoje tenho uma visão critica sobre o colonialismo que quando mais nova eu acho que não tinha...

    Bjs, Mi

    Na Nossa Estante

    ResponderExcluir

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