Resenha: Nós somos a cidade, de N.K. Jemisin

Me tornei uma grande fã do trabalho de N.K. Jemisin com sua maravilhosa trilogia Terra Partida, toda resenhada aqui no blog. Jemisin é uma força da natureza, uma inspiração, uma das minhas escritoras favoritas e estava bem ansiosa por sua fantasia urbana Nós somos a cidade.






Parceria Momentum Saga e
Ed. Suma



O livro
Toda cidade tem alma, sua própria identidade, suas características. Mas elas também tem um lado sombrio, obscuro. Existe um mal antigo espreitando sob a terra, aguardando o momento certo para atacar. Neste universo de Jemisin, as cidades são personificadas em avatares. No caso de Nova York, nosso cenário e também protagonista, o avatar é um jovem franzino, um garoto de rua, que ainda não entende bem o que deve fazer. Quando ele sofre um ataque brutal e cai em um coma mágico, o mal acaba se espalhando pelas ruas, becos, avenidas da cidade, infestando inclusive as pessoas, ameaçando destruí-la bloco por bloco.

Resenha: Nós somos a cidade, de N.K. Jemisin


É então que cinco outros avatares, cada um representando um dos distritos de Nova York entram em ação. Adorei a forma como Jemisin os trabalhou e como foram caracterizados. Aliás, adoro a construção de personagens da autora desde A Quinta Estação. Manhattan é representada por um jovem universitário que entende seu lugar na luta, ainda que sua memória sobre sua vida pregressa tenha quase sido totalmente perdida. Representando o Bronx, tem uma nativa americana de 60 anos, a mais velha entre os avatares, que trabalha em uma galeria de arte. No Brooklin, temos uma rapper, que também é advogada, que tira sua força da música. Representando o Queens, temos uma jovem imigrante tamil que não entende como pode se tornar cidadã de um lugar que mal conhece. Por fim, em Staten Island, a filha oprimida de um policial violento sente o resto da cidade chamando por ela.

A grande lição é: cidades grandes, como todas as outras coisas vivas, nascem, crescem, definham e morrem quando chega a hora.

Página 14

Tal como Jemisin fez na trilogia da Terra Partida, ela retoma o tema da discriminação e do racismo. A figura do Inimigo, o mal que se espalha pela cidade, age através daqueles que guardam preconceitos, rancor, que discriminam e odeiam com base em cor de pele, orientação sexual e por aí vai. Essas pessoas acabam personificando o mal, enquanto a cidade, na tentativa de se defender, desperta na figura dos avatares (na maioria deles pelo menos, pois um deles vai ser um problema).

Aqui entra a forma brilhante com quem Jemisin trabalhou os personagens: esses avatares não são perfeitos, não são heróis imaculados e mágicos, longe disso, e cada um tem características e problemas que serão trabalhados como partes constituintes de seus distritos. A cidade é tanto um lugar de união, de amor, de amizade, como também um lugar que maltrata e desumaniza. Para quem não conhece a cidade de Nova York direito pode ficar complicado imaginar tudo isso, mas dá para pensar em qualquer cidade grande passando pelos mesmos desafios já que muitos são semelhantes.

Quem não conhece a escrita e o estilo da autora pode achar esse começo de leitura um pouco confuso. Achei o começo até bem chato em um primeiro momento. Minha cabeça estava tão imersa no universo da Terra Partida que levei um choque ao cair em uma Nova York senciente e contemporânea. Mas uma vez que você conhece os personagens, submerge no dia a dia da cidade e na ameaça iminente, a leitura começa a fluir muito bem, pois a criação de mundo de Jemisin é criativa e cativante. Você não quer parar de ler.

Devo dizer que há um avatar de São Paulo! Lembro que a autora chegou a pedir desculpas para o caso de ter cometido algum erro na personificação da cidade, mas adorei a forma como ela o criou e como ele atua dentro do enredo. Tem até brigadeiro, gente! Todas as pessoas interessantes vão interagir e agir para impedir o derradeiro final e destruição. Admito que senti o ritmo cair em alguns momentos, com longas explicações da autora que poderiam ter sido encurtados, talvez trabalhados de outra maneira. Mas no geral, achei a leitura muito proveitosa e muito semelhante ao horror cósmico de Lovecraft, o que é uma ironia maravilhosa, já que HP Lovecraft era um baita de um racista.

O livro segue a capa original em inglês. Logo no começo temos um mapa estilizado de Nova York, com nomes de alguns avatares. Achei a letra pequena e um pouco desconfortável de ler, pois parecia que uma página se multiplicava em duas. A tradução foi de Helen Pandolfi e está ótima. O livro não tem problemas de revisão ou diagramação.


Obra e realidade
Milton Santos dizia que se você jogar uma bomba de nêutrons sobre uma cidade, tudo o que é orgânico vai perecer, mas as construções permanecerão de pé. É o fim da cidade. Uma cidade não se constrói com paredes, portas e janelas. Ela se constrói com pessoas. São as pessoas que dão significado e função à uma cidade. É o vai e vem de pessoas que determina a existência do transporte público. São as pessoas que determinam a existência de bairros e casas. Sem as pessoas tudo o que você tem são ruínas.

É por isso que cidades abandonadas, ruínas, ou a cidade vazia e parada durante a pandemia, dão uma impressão tão ruim. É a presença humana que anima uma cidade, que lhe dá vida, que lhe dá significado. Somos nós que damos sentindo aos espaços. Isso era uma coisa que eu falava para os meus alunos logo no começo das aulas, sobre o que era a geografia. E eu falava sempre da cidade, de como estudamos uma favela, um conjunto empresarial, um morro, um rio, olhando todo o conjunto do espaço e seus significados. Quando vemos a cidade pela perspectiva das pessoas e de suas necessidades, passamos a entender melhor as desigualdades e desafios das metrópoles.

Assim que li a sinopse do livro de Jemisin, me transportei novamente para as aulas de Geografia Urbana, quando nossa professora deu o exemplo da bomba de nêutrons. Tal como os avatares, precisamos defender a cidade - esse grande caldeirão de significados e pessoas - dos males ancestrais.

N.K. Jemisin

N.K. Jemisin mora no Brooklyn, é psicóloga e conselheira educacional de formação e hoje é escritora em tempo integral. Foi resenhista do The New York Times por três anos e é também autora da Trilogia Legado, lançada no Brasil pela Galera Record, além de vários contos. Mora com seu gato, Ozzy.


Pontos positivos
Bem escrito
Trabalho gráfico
Crítica à tortura
Pontos negativos

Pode ser lento em algumas partes



Título: Nós somos a cidade
Título original em inglês: The City We Became
Autora: N.K. Jemisin
Tradutora: Helen Pandolfi
Editora: Suma
Páginas: 410
Ano de lançamento: 2021
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Se você procura uma fantasia que não envolva dragões, elfos e magos, então achou! Aqui os personagens não usarão varinhas mágicas, mas se valerão da própria arquitetura da cidade para lutar. Se o começo parecer difícil e meio embolado, não desista, pois a fantasia urbana que você encontrará supera essa dificuldade inicial e muito. Personagens perfeitamente irritantes e imperfeitos, muita discussão sobre desigualdades e preconceito e, claro, tudo isso em Nova York. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais! 🏙️


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