Resenha: Jaqueta Branca, de Herman Melville

Herman Melville é bastante conhecido por sua obra-prima Moby Dick, mas o livro que serviu de precursor para o romance, Jaqueta Branca, chegou há pouco tempo no Brasil (em 2017 pela Carambaia e em 2021 pela Zahar). Com uma edição primorosa e comentada, o livro é um manifesto e uma crônica de viagem quase autobiográfica, narrado por um marinheiro que se identifica como Jaqueta Branca, devido à roupa que ele mesmo confeccionou.





Parceria Momentum Saga e
Ed. Zahar



O livro
Em agosto de 1843, Herman Melville (1819-1891) embarcou na fragata USS United States, que partiu de Honolulu, no Havaí, contornou as Américas e aportou em Boston, na Costa Leste dos Estados Unidos, em outubro do ano seguinte. Uma de suas últimas paradas foi no Rio de Janeiro, onde a tripulação recebeu a visita de Dom Pedro II. As vivências do autor à bordo do USS United States se tornaram a base para Jaqueta Branca e seu personagem homônimo.

Resenha: Jaqueta Branca, de Herman Melville


É por isso que o livro não é bem um romance. Ele faz uma crônica de viagem envelopada com as memórias do autor (que na época passava por dificuldades financeiras e precisava publicar desesperadamente), com as histórias que seus colegas contaram e com um manifesto. Registrando todas as trivialidades de uma vida a bordo e os desafios imputados pelo oceano, pela distância da família, as dificuldades diárias, o livro chega a ser chato em alguns momentos, com um registro quase enciclopédico e excessivas descrições. Admito que dei umas bocejadas fortes em alguns momentos.

Uma das principais críticas levantadas pelo trabalho de Melville, o que torna o livro também um romance social, é sobre a prática terrível de açoitar os marinheiros. Eles viviam em condições precárias, com uma dieta pobre, carga de trabalho desumana, uma cama estreita e pouco direito ao descanso. Melville inclusive comenta que as pessoas em terra firme tinham mais direitos que os homens do mar. Um marinheiro era punido com severidade por meio de açoitamentos, o que fez o autor comparar os capitães bem nascidos do norte dos Estados Unidos com os donos de terras do sul escravagista por tamanha perversidade.

Comparando os navios com cidades flutuantes, Melville questiona constantemente como que num país fundado sob os preceitos da liberdade, principalmente individual e da democracia permitia que tais crueldades acontecessem a bordo de seus navios. Um capitão era, automaticamente, um rei de seu navio, um prefeito de sua cidade, um juiz de direito e um torturador. Um país que valorizava tanto o trabalho duro para a ascensão social também a impedia em seus navios, pois um marinheiro comum jamais chegaria a oficial. Não era de se estranhar que cidadãos norte-americanos recusassem veementemente o trabalho em alto mar. O livro acabou caindo na mão dos congressistas na época, que acabaram por abolir o tratamento terrível um tempo depois.

O personagem homônimo do romance usa materiais à mão para criar um casaco quente o suficiente para que ele tolerasse a viagem, principalmente a passagem pelo Cabo Horn, o ponto mais meridional da América do Sul. Como teve um racionamento de alcatrão a bordo, ele não teve como impermeabilizar seu casaco. Tal situação o faz ter experiências de quase morte em um ambiente onde o clima muda de uma hora para outra. Uma das experiências perigosas foi quando ele foi lançado ao mar enquanto esfregava as adriças do navio e precisou tirar o casaco para não se afogar.

Ensopada e pesada, que fardo era carregar aquela jaqueta por toda parte, principalmente quando me mandavam para o topo do mastro; arrastando-me ao alto, pouco a pouco, como se estivesse içando uma âncora.

Página 37

O autor dedica um longo tempo a descrever precisamente cada centímetro quadrado do navio, desde às velas e os pregos até a hierarquia. Por isso que você fica com a impressão de ser um relatório, um relato de viagem, e não um romance ficcional. Melville se vale de suas experiências no navio e fusiona em Jaqueta Branca as características e experiências de seus colegas a bordo a fim de preservar suas identidades, mas não o faz de maneira a criar uma obra de ficção. Talvez o fato de ter sido escrito em 2 meses tenha contribuído para essa falta de refino que teria tornado a leitura menos enciclopédica.

O vocabulário náutico também é bastante citado, nem tinha como não ser, e há um glossário no final para você não se perder. Depois de um tempo meio que já tinha decorado alguns deles, mas no começo é chatinho de acompanhar. Este é um livro também de estudo. Com uma primorosa introdução feita pelo tradutor, Bruno Gambarotto, ele nos situa na época e nas condições em que Melville vivia para publicar Jaqueta Branca. Há também inúmeras notas de rodapé com o mesmo propósito ao longo da leitura. O livro está impecável tanto no trabalho gráfico, quanto na tradução, notas e tratamento do texto.

Não importa a circunstância,
Nem a dor em demasia -
Ao lar sempre nós rumamos
Numa eterna travessia

Página 464


Obra e realidade
A leitura nos remete a um episódio marcante da história brasileira: a Revolta da Chibata. Enquanto os Estados Unidos baniram o açoitamento dos marinheiros em 1850, a prática continuou na Marinha brasileira até o começo do século XX, mesmo com o banimento da chibata e dos castigos, oficialmente, em 16 de novembro de 1889, assinado pelo presidente marechal Deodoro da Fonseca. Os oficiais brancos ainda impunham castigos corporais severos aos marinheiros negros e pardos, forçados a cumprir contratos de longo prazo e condições degradantes a bordo.

Cansados dos castigos e das injustiças, os marinheiros liderados por João Cândido Felisberto tomaram o controle de novos navios de guerra em 22 de novembro de 1910 e mandaram uma carta ao governo exigindo o fim dos castigos amplamente executados pelos oficiais da Marinha. Enquanto algumas alas do governo queriam a retomada dos navios a qualquer custo, o senador Rui Barbosa liderava um movimento de anistia aos amotinados. O projeto de lei anistiou os revoltosos e também aboliu os castigos a bordo.

Herman Melville


Herman Melville foi um escritor, poeta e ensaísta norte-americano. Embora tenha obtido grande sucesso no início de sua carreira, sua popularidade foi decaindo ao longo dos anos. Faleceu quase completamente esquecido, sem conhecer o sucesso que sua mais importante obra, o romance Moby Dick, alcançaria no século XX.


Pontos positivos
Bem escrito
Trabalho gráfico
Crítica à tortura
Pontos negativos

Pode ser lento em algumas partes



Título: Jaqueta Branca
Título original em inglês: White-Jacket; or, The World in a Man-of-War
Autor: Herman Melville
Tradutor: Bruno Gambarotto
Editora: Zahar
Páginas: 480
Ano de lançamento: 2021
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Não vou dizer que esse livro vai te agradar logo de cara. O tom enciclopédico e as descrições absurdamente detalhadas podem cansar a leitura e em especial aquele leitor que quer algo mais ágil. Porém, o livro é um retrato de seu tempo, uma janela que se abre para viajarmos para o século XIX e como tal registro, ele é impecável. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais! ⚓


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1 Comentário

  1. Adoro moby dick e esse ano quero me afrofundsr mais na literatura de Melville. Excelente resenha.
    Esse tom enciclopédico está presente até em moby e aqui parece que é mais ainda, uma pena. Mas a questão social me chama muito a atenção e, no fim, é até interessante aprender sobre essa parte mais técnica das navegações da época

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