Resenha: É Assim que se Perde a Guerra do Tempo, de Amal El-Mohtar e Max Gladstone

Esse é um livro que, já adiantando o expediente, não vai agradar a todo mundo. Ele na verdade é uma novela multipremiada, com um casal sáfico, mas que conta a história por uma perspectiva um pouco diferente. De forma epistolar, ou seja, através de cartas que elas trocam entre si, começamos a conhecer melhor este universo, ainda que não tenhamos todas as respostas. Para quem curte um enredo mais estrutura e explicado, o livro pode decepcionar.





Parceria Momentum Saga e
Ed. Suma



O livro
Antes de tudo, esse livro é uma história de amor entre duas mulheres em lados opostos de uma guerra, Red e Blue (olha os passarinhos na capa). Mas descobrir como essa guerra funciona leva tempo, porque temos a perspectiva de ambas em batalha, mais as cartas que elas deixam uma para outra pelo caminho. E as formas que essas cartas se apresentam são criativas e geniais: estão codificadas em sementes ou nas entranhas de animais. É assim que o amor delas se estabelece e se apresenta. Mas as coisas são mais complicadas.

Resenha: É Assim que se Perde a Guerra do Tempo, de Amal El-Mohtar e Max Gladstone


Existem duas facções nessa guerra, o Jardim e a Agência. Ambas movem seus agentes pelos fios do tempo, jogando-os em épocas e momentos distintos da história humana, às vezes cenários conhecidos, mas com diferenças cruciais de um lugar para o outro. O núcleo do Jardim é mais emocional, mais sensível e ligado à natureza, inclusive na forma como as pessoas são gestadas. Por outro lado, a Agência é mais racional e tecnológica, com poucas percepções sobre a natureza humana, pouca sutileza. E a identidade das rivais em campo segue muito de perto essas características.

Conhecemos melhor a intimidade delas e suas origens pelas cartas, impressas em um papel diferente no livro, decoradas de maneira que lembram cada uma das facções. É através dessa troca de ideias e sentimentos que elas começam a conhecer melhor a si mesmas, descobrindo sensações novas como dormir, ter fome, o peso da solidão, a sensação de estar amando. Com uma poética surpreendente, elas se seguem pelos fios que tecem a trama do tempo, declamando seu amor uma pela outra, porém seguidas de perto, de maneira que tudo pode acabar perdido.

Matar fica mais fácil com a prática, em mecânica e em técnica. Mas ter matado nunca fica (...).

Página 10

Os capítulos sem bem curtinhos, intercalando as visões de Blue e Red, junto de suas cartas e como elas são encontradas. Ficamos sabendo sobre a Agência e sobre Jardim através destes relatos, que acabam ficando incompletos porque são todos em primeira pessoa. Essa falta de uma maior visão de mundo incomoda, não vou mentir. Eu curto muito saber mais detalhes sobre os mundos que leio, mas aqui esses detalhes estão ausentes. E talvez a ideia fosse mesmo essa, de fazer com que a gente complemente as informações com nossa própria vivência. Sem contar o fato de que é uma novela, não um romance; naturalmente ele será mais conciso.

É fácil sentir a diferença entre a escrita de Amal e Max pelas cartas e o conteúdo de cada. Geralmente escritas conjuntas não me atraem, mas aqui a coisa deu muito certo, pois as vozes das personagens são facilmente distinguíveis. Entretanto, muito lirismo e poesia acabam atrapalhando em alguns momentos. Li algumas resenhas irritadas com a subjetividade do livro. Ele é mesmo uma obra para ler mais devagar, o que não quer dizer que seja ruim, nem que não mereça ser lido.

Curti muito a questão dos fios que tecem a rede do tempo e como os agentes se movem por ele, subindo, descendo, criando cenários onde ganham, perdem, e a coisa continua. Como vencer uma guerra assim? Não consigo ver um fim para um conflito onde agentes mexem na linha do tempo com frequência. Não há ganhadores, nem perdedores, apenas agentes cansados, buscando conexão até mesmo com os inimigos, que é exatamente o que acontece aqui. O amor de Red e Blue se torna uma crítica à banalidade da guerra.

Talvez sobreviver seja uma forma de tortura.

Página 159

Ganhador dos prêmios Hugo, Nebula e Locus, este livro pode acabar deixando um sabor amargo naqueles que querem ler uma ficção científica mais tradicional. Porém quem espera um enredo diferente, bem escrito e que mexe com as sensações, então encontrou. Não vai ser fácil vencer o começo, mas peço que insista na leitura até o final, pois vale à pena! Eu mesma demorei um bom tempo para ler um livro tão pequeno.

A edição da Suma é belíssima, em capa dura, papel amarelo encorpado e um belo trabalho gráfico, com adaptação da capa gringa original. A tradução de Natalia Borges Polesso está muito boa e encontrei poucos problemas de revisão.


Obra e realidade
É interessante a intenção dos autores de colocar uma história de amor em meio a uma guerra, que nada tem de bela. Mas são momentos assim que, muitas vezes, tornam os conflitos suportáveis, que ainda mantém a sanidade de quem está imerso em um conflito sem entender nem saber como ele acabará. As pessoas continuaram tendo filhos e se casando durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhando após bombardeios. Um concurso de Miss foi feito em Sarajevo no meio da guerra da Bósnia. A guerra é uma interrupção de nossos modos de vida, mas a capacidade humana de resistir sempre surpreende.



Amal El-Mohtar é uma poeta e escritora canadense de ficção especulativa. Já publicou contos de ficção, poesia, ensaios e resenhas.

Max Gladstone é um escritor norte-americano de fantasia.


Pontos positivos
Bem escrito
Trabalho gráfico
Poético
Pontos negativos

Pode ser lento em algumas partes



Título: É Assim que se Perde a Guerra do Tempo
Título original em inglês: This Is How You Lose the Time War
Autores: Amal El-Mohtar e Max Gladstone
Tradutora: Natalia Borges Polesso
Editora: Suma
Páginas: 352
Ano de lançamento: 2021
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Não vou dizer que esse livro vai te agradar logo de cara. Eu mesma comecei sem saber se estava gostando ou não. Mas no fim, queria muito saber o que aconteceria com Red e Blue e me vi incapaz de largar a leitura. Os autores foram muito criativos na sua maneira de descrever viagens no tempo, na forma de enviar e receber cartas e por trazer um casal fofo e apaixonado para a ficção científica. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais! ♡


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2 COMENTÁRIOS

  1. Nossa, eu achei SUPER interessante essa premissa e especialmente essa forma de contar a história através das cartas. Você tem razão, muitas vezes essa história de escrita conjunta acaba deixando a desejar, mas pelo visto nesse caso deu super certo. Quero ler!

    Não Me Mande Flores

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