Resenha: A Batalha de Moscou, de Andrew Nagorski

Muitas batalhas grandiosas da Segunda Guerra Mundial são lembradas, como a de Stalingrado, mas uma delas costuma ser esquecida ou subestimada: a Batalha de Moscou. Ela foi decisiva para o andamento da guerra, mostrando que a tão propagada invencibilidade do exército nazista era falível e que era possível resistir ao avanço dos alemães. Mas o saldo de mortos, a destruição, as humilhações e as tomadas de decisão completamente equivocadas tornam essa batalha um dos eventos mais sangrentos da Segunda Guerra.





Parceria Momentum Saga e
editora Contexto


O livro
A Segunda Guerra Mundial teve muitas batalhas e eventos sangrentos. Mas a Batalha de Moscou permaneceu obscura por um longo tempo, com vários documentos importantes enterrados nos arquivos russos devido à humilhação e aos erros bizarros das autoridades soviéticas neste período. Somados os dois exércitos, havia sete milhões de soldados envolvidos em algum episódio da batalha. Desses, 2,5 milhões morreram, foram feitos prisioneiros, se feriram ou desapareceram em combate. Os registros militares russos consideram que 958 mil soldados soviéticos morreram e 938.500 foram feitos prisioneiros. Entre os alemães, as baixas foram de 615 mil.

Resenha: A Batalha de Moscou, de Andrew Nagorski

Depois do Pacto Molotov-Ribbentrop de não agressão, parecia que Alemanha e União Soviética era as melhores amigas. Nem mesmo Stalin queria se convencer que os alemães invadiriam seu território e tomou diversas decisões catastróficas ao não acreditar em seu próprio serviço de inteligência e espiões que estavam avisando sobre os movimentos e ações de Hitler e seus soldados. Depois da invasão da Polônia, as duas nações dividiram o território e a URSS enviava insumos para a Alemanha regularmente, insumos estes que seriam usados na invasão pouco depois.

O autor traça um paralelo entre as biografias tanto de Hitler quanto de Stalin, mostrando suas semelhanças e diferenças e como elas foram cruciais para o palco sangrento que se formou em 1941. Hitler perdera a chance de invadir a Grã-Bretanha, onde a Luftwaffe tomou uma sova da Royal Air Force, e voltou seus olhos para a União Soviética. Em sua cabeça, se ele conquistasse os territórios soviéticos, com seus imensos recursos, ele teria condições para conquistar os ingleses.

A história sempre parece inevitável em retrospectiva, mas o fato é que não há nada inevitável nos eventos cataclísmicos que dão forma ao nosso mundo.

Página 13

Nagorski destaca que o início do fim da guerra para a Alemanha começa em 1941 com uma série de erros de julgamento de Hitler, mas também de Stalin, que ignorou repetidas vezes o fluxo imenso de informações recolhido pela inteligência e chegou a tomar medidas para as notícias fossem aquelas que ele queria ouvir. Mas o autor também destaca que o despreparo e a surra que os soldados soviéticos tomaram no começo da invasão alemã se deveu ao Grande Terror tocado por Stalin anos antes, que varreu suas fileiras de oficiais experientes e veteranos da Primeira Guerra, cujo conhecimento teria sido essencial para as batalhas que se seguiriam.

A Batalha de Moscou derrubou o mito de que a Blitzkrieg era invencível e mostrou que era sim possível derrubar os grandes exércitos nazistas. Ainda que o custo tenha sido muito alto. A batalha sinalizou uma mudança no curso da guerra. A vitória foi amarga, entretanto, pontuada por humilhações, execuções e combates em que soldados soviéticos nem ao menos tinham uma arma para se defenderem (havia apenas um rifle para cada dez homens em uma unidade). Ainda que a história exalte o fato de que Stalin permaneceu em Moscou durante toda a batalha, é impossível negar que sua crueldade e seus erros grotescos contribuíram imensamente para o massacre. Se tem uma coisa que iguala e nivela Stalin e Hitler eram suas desmedidas crueldades e completa frieza diante da dignidade humana.

Hitler sabia que Napoleão tinha sido mal sucedido em sua invasão à Rússia devido ao inverno. Assim ele programou sua invasão para um mês antes da invasão de Napoleão, esperando conquistar todo o território em algumas semanas. Mas aí entra um terceiro personagem nesse palco, cuja precipitação definiu a batalha desde o começo: Il Duce, Mussolini. Com inveja da procisão de ataques e vitórias de Hitler, no outono de 1940, ele decidiu provar que também conseguia fazer isso e lançou um ataque contra a Grécia e a Albânia. Para corrigir a cagada, Hitler teve que adiar em um mês sua entrada na União Soviética. Segundo William Shirer, autor de Ascensão e Queda do Terceiro Reich, essa fo provavelmente a decisão mais catastrófica da carreira de Hitler.

Para a confecção deste livro, o autor teve acesso a documentos inéditos que foram liberados dos arquivos da NKVD (nome da KGB na época), além de relatos de sobreviventes ou filhos destes, que só se sentiram à vontade de falar sobre tais experiências no começo dos anos 2000. Nagorski também conseguiu entrevistar filhos de personagens importantes como o do marechal Georgy Zhukov e os principais líderes do NKVD que deram informações em primeira mão. As notas pessoais do autor também são importantes, já que seu pai lutou na resistência polonesa neste mesmo período e também contribuiu com relatos.

Outro mito que o livro derruba é sobre a obstinação patriótica dos soldados soviéticos, firmes até o fim da luta. Na verdade, os soldados estavam despreparados e sem armas no começo do conflito, tanto que muitos apenas ergueram as mãos e se renderam para não serem mortos numa luta inútil. Mas isso causou uma reação brutal da parte de Stalin, que mandou executar os desertores ou até mesmo prisioneiros que fugissem. Então os soldados do Exército Vermelho lutavam em duas frentes, contra os alemães e contra os próprios colegas, ordenados a matar quem desertasse.

A narrativa do autor é excelente. Não cansa, não vai aos tropeços. Li o livro numa sentada, incapaz de largar, como se fosse um thriller de investigação. Existem muitos momentos em que a gente se sente até mal diante dos eventos narrados, mas acho que nem tem como ser diferente. Há imagens em preto e branco pelos capítulos, alguns mapas, ainda que eu tenha sentido falta de mais alguns para complementação.

O líder que inspirava tal terror, que presidia um Estado construído sobre o medo, de repente pareceu paralisado por seu próprio medo com a invasão alemã. Persistiu naquele estado de negação com relação às intenções dos alemães até o momento em que o inimigo atacou.

Página 59

A tradução de Paulo Castanheira está ótima. Adorei como ele adaptou termos para o nosso português, como "psicologia de botequim" e deixou a leitura muito gostosa de acompanhar. Praticamente não há erros ou problemas com a diagramação ou revisão do livro.


Obra e realidade
Uma coisa que Nagorski reitera é que é fácil julgar as tomadas de decisões da época agora que a gente já sabe o que aconteceu. Ele mesmo se questiona por que raios Stalin levou tanto tempo para acreditar que Hitler o invadiria. Era atuação? Ele era ingênuo a tal ponto? Então por que? Nunca há respostas fáceis em situações como essa. Não há espaço na história para o "e se?". Esse é o campo da ficção.

A Batalha de Moscou durou de 2 de outubro de 1941 a 7 de janeiro de 1942. Ainda que erros tenham sido cometidos de ambos os lados, um fator decisivo para a vitória soviética foi o inverno europeu de 1941-42, o mais frio do século XX.

Andrew Nagorski


Andrew Nagorski é um jornalista e escritor norte-americano, nascido na Escócia. Por 30 anos foi correspondente e editor da revista Newsweek.


Pontos positivos
Bem pesquisado
Bem escrito
Relatos de sobreviventes
Pontos negativos

Violência e nazismo

Título: A Batalha de Moscou
Título original em inglês: The Greatest Battle
Autor: Andrew Nagorski
Tradutoras: Paulo Castanheira
Editora: Contexto
Páginas: 352
Ano de lançamento: 2018
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Avaliação do MS?
Difícil fazer conjecturas, mas fiquei pensando o que teria acontecido se Hitler tivesse vencido essa batalha. O que poderia ter causado no continente e no mundo como um todo se suas tropas se saíssem vencedoras. Se mesmo com todos os erros de ambos os lados ainda tivemos o banho de sangue que se seguiu, o que poderia ter acontecido se Hitler tivesse, com sucesso, conquistado a União Soviética? Como disse o autor, a história não tem lugar para conjecturas. Leitura essencial e um livro importante para se ter na estante.

Até mais!


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