Resenha: Como evitar um desastre climático, de Bill Gates

As mudanças climáticas globais já se estabeleceram. Furacões estão mais intensos, a desertificação está avançando em várias regiões do mundo, incêndios devastadores estão se tornando cada vez mais comuns, países insulares temem a subida dos níveis dos mares. O que fazer? Quais medidas estão sendo tomadas para evitar o desastre? Bill Gates até tenta responder neste livro. Mas não toca em um dos grandes problemas dessa história toda.





Parceria Momentum Saga e
Companhia das Letras



O livro
A maioria das pessoas conhece a figura de Bill Gates, principalmente pelo fato de ter sido o fundador da Microsoft. Inclusive agora estou usando seu sistema operacional para digitar essa resenha. Um dos homens mais ricos do mundo - 4º lugar entre os bilionários da Forbes - ele também é filantropo e criou a Fundação Bill e Melinda Gates, que investe em universidades, startups e institutos de pesquisa. Por dez anos e por conta própria, Gates vem estudando sobre mudanças climáticas e seus efeitos.

Resenha: Como evitar um desastre climático, de Bill Gates


Tudo começou quando ele estava viajando por países africanos e notou ruas escuras e casas a luz de velas. Na época, começo dos anos 2000, ele descobriu que cerca de 1 bilhão de pessoas não possuem energia elétrica em suas casas. Ao se consultar com cientistas especialistas em energia, Gates começou a pensar sobre como produzir energia barata e acessível às pessoas, mas esbarrou na questão das emissões de poluentes e no fato de que energias limpas também têm suas limitações e que as fontes de emissões são outras.

Acostumado a lidar com tecnologias e inovação, Gates juntou seu conhecimento sobre o assunto para escrever a respeito. Desde os motivos que o levaram a isso, a como as emissões ocorrem, como reduzi-las a zero e como podemos chegar lá se a sociedade de fato quiser. Os tópicos apresentados vão desde atitudes pessoais dos cidadãos a até políticas públicas de redução de emissões e de adoção de tecnologia limpa. Ou seja, ele aponta o problema e indica soluções que qualquer pessoas poderia adotar se quisesse.

Não posso negar que sou mais um ricaço cheio de opiniões. Mas acredito que minhas opiniões são bem embasadas e sempre tento aprender mais.

Página 22

O livro é uma apresentação ao tema. Pense nisso como um TEDTalk por extenso, onde Gates apresenta os mecanismos pelos quais a civilização humana promove o aquecimento do planeta e também propõe políticas para sua mitigação. Para quem quer entender um pouco sobre as mudanças climáticas, é um livro OK, bem introdutório, mas que de maneira geral consegue atingir seu objetivo entre leitores leigos.

Mas - senta que lá vem história - há problemas. Desde erros científicos, como dizer que petróleo é feito de plantas, até o fato de o livro passar completamente batido sobre a situação dos oceanos com o aquecimento global e a importância dos organismos marinhos para a fixação do dióxido de carbono. Gates introduzir os leitores leigos nos jargões envolvidos nas mudanças climáticas e ele até contextualiza bem a questão da urgência. Realmente, não dá mais para esperar que tudo se resolva sozinho. Os países em desenvolvimento não podem esperar os países desenvolvidos acordarem.

Eu esperava bem menos do livro, mas acredito que Gates, por mais bem intencionado que tenha sido, não tocou numa questão importante e da qual ele mesmo faz parte: a concentração de riquezas nas mãos de umas poucas pessoas, enquanto milhões amargam na pobreza. Ele se dá ao luxo de mitigar sua pegada de carbono e de investir em combustível ecológico para o seu jatinho, o que é um terrível contrassenso em um mundo onde existem pessoas revirando o lixo para buscar o que comer. Enquanto uns poucos continuam consumindo o planeta como se nós tivéssemos uma Terra 2.0 de reserva, a grande maioria vai enfrentar secas, incêndios, inundações e eventos climáticos intensos.

Ao menos numa coisa ele é sincero: ele admite pensar mais como um engenheiro do que um cientista e que está usando seu conhecimento e sua fortuna para investir em empresas que possam trazer soluções práticas para o dia a dia. Justamente por ser uma figura pública, ele foi consultado por governos e empresas e pode levar a palavra até chefes de Estado de uma maneira que nós, meros mortais, não podemos. Por alguma razão, tem quem ache que bilionários são gurus que possuem todas as respostas para as inquietações humanas e, lamento informar, tudo o que eles têm é dinheiro.

O livro é bem escrito, acessível e rápido de ler. Mas é superficial e passa muito rapidamente sobre os temas, ignorando outros, como o efeito do aquecimento global nos oceanos, por completo. Seu olhar sobre o tema é bem geral mesmo. Não há qualquer profundidade. Ouso dizer que este livro é voltado para aquelas pessoas de classe média alta que se preocupam com o planeta e colocam a fatura do cartão de crédito em papel reciclado para contribuir.

Em capa comum e papel amarelo, o livro foi traduzido por Cássio Arantes Leite e a tradução está ótima. Não há problemas de revisão ou diagramação. Existem algumas imagens e tabelas em preto e branco pelo miolo.

Na verdade, para evitar os piores cenários climáticos, em algum momento não apenas precisaremos parar de lançar mais gases, como também teremos de começar a remover parte dos que já emitimos.

Página 29


Obra e realidade
Bill Gates investiu cerca de 2 bilhões de dólares em inovação voltada para as mudanças climáticas globais (sua fortuna é de 139 bilhões). Jeff Bezos criou um fundo de 10 bilhões de dólares voltado para o clima (fortuna de 206 bilhões, mais ou menos). Elon Musk doou 100 milhões de dólares para um prêmio de melhor tecnologia para captura de carbono (fortuna de 288 bilhões).

O que o livro não fala é que boa parte dessa tecnologia que salvaria o mundo já existe, ela apenas não foi implementada porque isso é uma coisa que os governos precisam fazer, já que eles são responsáveis pela infraestrutura. Ele também não fala sobre os imensos data-center do Facebook, do Google, que drenam uma energia lascada e emitem muito carbono; não fala do templo do consumismo que é a Amazon e seus galpões sufocantes onde os funcionários fazem xixi em garrafas enquanto seu fundador pode queimar dinheiro mandando meia dúzia de pessoas para a órbita terrestre. O livro não fala da Apple e seus produtos que não foram feitos para serem consertados ou reparados.

Apenas a Standard Oil Company, dos todo-poderosos Rockefellers, emitiu 9,2% de todas as emissões de carbono produzidas entre o começo da Revolução Industrial até os dias de hoje. E por mais que eu ache ótimo que bilionários como Bill Gates percebam os danos causados pelas mudanças climáticas globais, não dá para ignorar o fato de que a Microsoft emite muito carbono e que já usou de lobby junto a negacionistas do clima, ajudando-os em suas eleições.

Bill Gates

Bill Gates, é um magnata, empresário, diretor executivo, investidor, filantropo e escritor norte-americano, conhecido por fundar, junto com Paul Allen a Microsoft, a maior e mais conhecida empresa de software do mundo em termos de valor de mercado.


Pontos positivos
Dados atuais
Bem escrito

Pontos negativos
Erros científicos
Bilionário afagando o ego

Título: Como evitar um desastre climático: as soluções que temos e as inovações necessárias
Título original em inglês: How to Avoid a Climate Disaster: The Solutions We Have and the Breakthroughs We Need
Autor: Bill Gates
Tradutor: Cássio Arantes Leite
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 320
Ano de lançamento: 2021
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
É um livro com um público bem específico em vista. Um público que gosta de caçar dicas de bilionários para enriquecer e que acha bonitinho ver rico pagando de filantropo. Foi bem escrito, tem boas intenções e até acredito que Gates de fato ache que está fazendo um bem. Mas não está. Três aliens para o livro.




Até mais! 🌍


Já que você chegou aqui...

COMPARTILHE

1 Comentário

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, com Desconhecido ou Unknown no lugar do nome, em caixa alta, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.

O mesmo vale para comentários:

- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.

A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.