A amizade de Jake e Nog

Jake e Nog são duas das figuras mais carismáticas de Star Trek. Crianças que crescem diante das câmeras não era novidade quando Deep Space Nine estreou. Em A Nova Geração tivemos Wesley Crusher, um personagem que, admito, nunca fui muito fã, mas acredito que é um problema de roteiro, não do personagem em si. A coisa melhorou muito em DS9 (a série inteira tem roteiros incríveis), onde acompanhamos dois adolescentes crescendo diante da audiência, tornando-se adultos responsáveis, inteligentes e falhos, como qualquer pessoa (ou ferengi).

A amizade de Jake e Nog
Arte de Cryptid





Quando Jake Sisko (Cirroc Lofton) chegou a DS9, o garoto se sentia muito sozinho e até meio à toa. Seu pai tinha ganhado um novo posto distante, sua mãe tinha morrido três anos antes em um ataque borg e Jake encontra uma estação destruída com a partida dos cardassianos de Terok Nor, que se tornaria a estação DS9. Mas então ele descobre que há um garoto com idade próxima à sua, Nog (Aron Eisenberg), filho de Rom, um dos ferengis do bar da estação.

Conforme os dois personagens crescem, cada um toma um rumo diferente na vida e foi bem legal o que os roteiristas preparou para ambos. Muitos imaginariam que Jake, filho de um oficial da Frota Estelar, seguiria os mesmos passos do pai, mas seu sonho era ser escritor. Já Nog, que todo mundo imaginava que seria como seu tio Quark, sempre à espera de uma oportunidade de lucrar ou que esperaria herdar o bar do pai, acabou se interessando pela Frota, tornando-se o primeiro ferengi a conseguir tal feito. Os roteiristas foram muito felizes em mostrar jovens crescendo em circunstâncias extraordinárias.

Famílias já eram presentes em Star Trek antes de DS9. O capitão Picard, inclusive, fica bem desconfortável na presença de crianças e se questionou por que a Frota Estelar embarcava famílias inteiras em naves sendo que elas poderiam encontrar situações de batalha. Temos a doutora Crusher criando seu filho sozinha na Enterprise, mas a família Sisko é especial por várias razões: é um pai negro, criando seu filho sozinho, em um posto de fronteira. Em uma televisão saturada de imagens de abandonos parentais, ter um homem assumindo a responsabilidade é mais do que necessário.

O mais legal da amizade de Jake e Nog é justamente isso, o fato de um garoto humano e de um garoto alienígena serem amigos, de se meterem em confusões, de aprontarem para cima dos outros e de brincarem pela estação. Nós não vimos isso com Wesley, que raramente teve a chance de interagir com outros adolescentes, passando boa parte do seu tempo em tela entre adultos, e tampouco vimos com Naomi Wildman, em Voyager, que era a única criança da nave. Mesmo quando crianças Borgs embarcam na Voyager, são poucas as cenas de interação entre elas. Já em DS9 nós temos dois garotos simplesmente sendo garotos.

Eles passeiam pelo Promenade pregando peças em passageiros, paqueram as garotas que passam, discutem entre si por coisas bobas, discutem com seus pais e ficam sob a intensa supervisão de Odo, o chefe de segurança, por boa parte do tempo. Essa amizade enfrentou resistência dos pais dos garotos no começo. O capitão Sisko não achava que Nog era uma boa influência para seu filho, Rom achava o mesmo. Mas é possível ver que a amizade era benéfica para ambos os meninos, principalmente em uma cena em que Jake ajuda Nog a melhorar sua leitura para se sair melhor na escola, ainda que os ferengis não vissem utilidade tanto na escola quanto na leitura. Aquele é um momento de intenso orgulho de Sisko por seu filho.

Quando Nog expressa o desejo de entrar para a Frota Estelar, Jake acha que ele está brincando, o que deixa Nog puto e com razão. Mas depois Jake tem um grande orgulho do amigo pela forma como lutou na guerra contro o Dominion, sabendo que agora ele é um herói para a Frota Estelar. Talvez, sem a presença de Jake, Nog nunca quisesse transcender seu papel de ferengi em busca de novos horizontes e Jake talvez não percebesse que seguir os passos de seu pai não era seu verdadeiro caminho.

E o mais importante de tudo: provar que, mesmo vindo de contextos, vidas, espécies e formas de vida diferentes, mesmos com as rusgas que aconteciam aqui e ali, dois garotos puderam ser amigos. Puderam se ajudar e se admirar. É um dos melhores ensinamentos deixados pela série.

Vida longa e próspera! 🖖🏼


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