Resenha: Expiração, de Ted Chiang

Muita gente conhece Ted Chiang por seu conto "História da sua vida", que inspirou o maravilhoso filme A Chegada. A escrita (e o filme) fisgou a audiência com sua ficção científica sensível e fez crescer o interesse pelo autor. Por isso, a Intrínseca trouxe mais uma coletânea, Expiração, lançada originalmente em 2019.





O livro
A coletânea é composta por sete contos escritos entre 2005 e 2015 e outros dois inéditos. O título do livro, Expiração, se deve a um conto de mesmo nome, ganhador do Prêmio Hugo e Nebula de 2008, onde um cientista começa a desvendar os segredos da memória e acaba colocando sua civilização em risco. Essa civilização muito avançada acredita que viverá para sempre, mas o que o cientista descobre coloca todo o equilíbrio de seu povo em risco.

Resenha: Expiração, de Ted Chiang


Dosando muito bem as discussões filosóficas, humanas e tecnológica, a coletânea é bastante equilibrada. Não tive a sensação de arrasto que muitas vezes ocorre em algumas leituras onde há longas explicações da parte do autor. Aqui a leitura fluiu muito bem. Você quer virar as páginas o mais rápido possível, ao mesmo tempo em que não quer que a leitura acabe.

Os contos variam de extensão. Enquanto "O que se espera de nós" tem apenas três páginas, "O ciclo de vida dos objetos de software" é uma novela robusta com 110 páginas. Esse conto, aliás, tem uma excelente discussão sobre inteligência artificial. Aqui nós temos mascotes virtuais chamados digientes, tipo um Tamagotchi que, em contato com as pessoas em ambientes virtuais aprendem e evoluem ao ponto de se tornarem conscientes. As pessoas ficam obcecadas com as possibilidades e começam a comprar peças, a aumentar suas capacidades. As questões levantadas por Chiang são bem pertinentes: essas entidades estão vivas? Quais são nossas obrigações legais com eles?

A atividade dos humanos levou minha espécie à beira da extinção, mas eu não os culpo. Não fizeram por maldade. Apenas não estavam prestando atenção.

Página 278

Um dos contos mais melancólicos é "O grande silêncio", um dos mais curtinhos da coletânea. Os humanos estão tão concentrados em buscar vida fora da Terra, construído grandes telescópios, analisando estrela após estrela em busca de vida inteligente, mas não consegue olhar para sua própria casa e perceber que já convive com espécies perspicazes, inteligentes, observadoras que, entretanto estão desaparecendo. Lembrei imediatamente do filme Star Trek IV - A volta para casa, onde uma imensa nave alienígena está buscando uma determinada forma de vida inteligente na Terra e não a encontra.

Chiang trabalha com temas que já são lugar comum na ficção científica. Em "O Mercador e o Portal do Alquimista" nós temos um enredo com viagem no tempo, onde um indivíduo encontra um portal em uma loja que lhe permite viajar. Chiang fala sobre humanidade, livre-arbítrio, sociedade, passado, presente e futuro de uma maneira muito singela, sem encher as leitoras de infodump, mas agradando aqueles que gostam de detalhes técnicos e desafios tecnológicos.

Coletâneas sempre têm seus altos e baixos, é normal e até esperado, mas senti que Chiang conseguiu criar contos marcantes, por mais curtinhos que sejam, entregando a mensagem que queria passar com eles. Não é fácil escrever contos! Em um romance nós podemos trabalhar longos arcos com os personagens, podemos destrinchar as tramas sem pressa. Mas um conto precisa contar uma história de maneira bem mais direta e rápida. E mesmo trabalhando questões existenciais complexas, Chiang consegue passar a mensagem que quer.

"Ônfalo" e "A ânsia é a vertigem da liberdade" são os contos inéditos e que fecham a coletânea. Em "Ônfalo" uma arqueóloga trabalha em um mundo onde religião e ciência se complementam. Aqui o autor explora uma possibilidade ousada: como seria o universo se Deus tivesse, de fato, criado tudo a pouco mais de 6 mil anos. No último conto nos apresenta um dispositivo que permite que você entre em contato com diferentes versões suas em linhas do tempo diferentes da sua e que saiba quais foram suas escolhas na vida, as consequências de terem tomado decisões diferentes da sua. É um conto que mostra o quão profundamente vulneráveis os seres humanos são ao pensamento "e se eu...".

O livro também conta com uma explicação do autor para cada conto e seu contexto lá no final, o que eu adorei, pois acaba nos fornecendo a motivação do autor e até seu estado de espírito na época. A edição em si é muito bonita, com uma capa macia adorável, que você fica passando a mão o tempo todo. A tradução foi de Bráulio Tavares e está ótima, não encontrei problemas de revisão ou diagramação nele.


Obra e realidade
Muita gente reclama (e até com razão) de que a ficção científica parece incapaz de produzir algo que não seja distopia. Há até aqueles que acreditam que distopia é um gênero literário separado de ficção científica. Eu entendo a crítica, mas não concordo com ela. Entendo que o cinema, principalmente, e a televisão, nos inundaram com enredos distópicos, com visões catastróficas de mundo e sociedade. Também entendo que o mundo não tem passado por anos fáceis e a literatura acaba sendo um reflexo do pessimismo geral da civilização. Literatura acaba sendo tanto um reflexo como um escape para nossas inquietações.

Porém nem tudo é dor e sofrimento. Se tem algo que a coletânea nos mostra são formas diferentes de se discutir os mesmos temas das distopias sem destruir mundos inteiros, sem mostrar a pior faceta do ser humano. Becky Chambers trabalha muito bem com questões humanas em seus livros da série da Andarilha. Star Trek também trabalha com uma visão otimista da humanidade, onde a "humanidade saiu da infância". É possível construir bons enredos sem apelar para a destruição. Podemos e devemos produzir enredos positivos sobre nós. Ainda mais no momento em que estamos vivendo.

Ted Chiang

Ted Chiang é um escritor norte-americano, de ascendência chinesa, ganhador de vários prêmios por seus contos e coletâneas.


Pontos positivos
Ficção científica
Bem escrito
Capa macia!
Pontos negativos

Pode ter contos meio lentos


Título: Expiração
Título original em inglês: Exhalation
Autor: Ted Chiang
Tradutor: Bráulio Tavares
Editora: Intrínseca
Páginas: 416
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Às vezes eu demoro muito para ler coletâneas. Mas essa aqui foi lida com tanta rapidez que até me espantou. Ted Chiang é um autor muito talentoso, com uma habilidade única de escrever contos instigantes, bem escritos e com mensagens que fazem pensar e nos deixam intrigadas com questões existenciais. Se você curtiu A Chegada, se curtiu a coletânea anterior do autor, pode se jogar nessa aqui. Cinco aliens para ele e uma forte indicação para você ler também!


MARAVILHOSO!


Até mais!


Já que você chegou aqui...

COMPARTILHE

1 Comentário

  1. Oi Sybylla, muito interessante isso que você falou sobre ficção científica não ser necessariamente distópica, acho que nunca tinha pensado nisso e é uma suposição super comum mesmo. Eu sempre achei mais satisfatório ler um romance/livrão do gênero do que contos. Acho que alguns contos deixam a desejar no quesito desenvolvimento dos personagens, mas não me parece ser o caso de Expiração. Muito bacana a resenha. Um beijo :*

    Não Me Mande Flores

    ResponderExcluir

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, com Desconhecido ou Unknown no lugar do nome, em caixa alta, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.

O mesmo vale para comentários:

- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.

A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.