Como Star Trek falou de genocídio?

Star Trek já discutiu de tudo. É possível encontrar metáforas e discussões diretas sobre quaisquer aspectos da sociedade humana na franquia. Seja na figura de alienígenas ou dos próprios humanos, Star Trek consegue trazer aos expectadores, até os mais distraídos, várias referências e assuntos que ainda são discutidos e não podem deixar de ser. E as séries e filmes têm muito a dizer sobre genocídio.

Como Star Trek tratou de fascismo e holocausto?




Eu ordenaria que eles saíssem e matassem a escória bajorana. E eles fariam isso - eles os matariam! E voltariam cobertos de sangue. Mas pareceriam limpos. Então, por que eles se sentem assim, Major? Porque eles estavam limpos.

Aamin Marritza, descrevendo o campo de trabalhos forçados de Gallitep, ao fingir ser Gul Darhe'el (DS9: ❝Duet❞)

Uma coisa a se dizer de Star Trek é que as séries e os filmes nunca apresentam um vilão sem mostrar o motivo de sua vilania. Quando Soren surge em Star Trek Generations e faz as coisas abomináveis que fez, ele tinha um motivo para isso e ele é explicado aos expectadores.

Um genocídio é a destruição deliberada e sistemática de um grupo étnico, racial, religioso ou nacional, perpetrado por razões ideológicas, religiosas ou políticas. Ao longo das séries e filmes, os roteiristas trabalharam o tema de maneira recorrente, em geral com alienígenas, mas também há exemplos na história humana de Star Trek. Um exemplo é na década de 2060, onde o coronel Phillip Green liderou uma campanha para expurgar da humanidade pessoas que sofreram danos causados por radiação após a Terceira Guerra Mundial.

Uma das séries que mais trabalhou com isso foi Deep Space Nine, com os efeitos causados pela invasão de Cardássia a Bajor. Nós não vemos a ocupação em si, que durou 50 anos, mas vemos o que acontece depois da libertação e a forma como algumas pessoas lidam com a dor, a perda e a culpa por terem sobrevivido. Os cardassianos consideram os bajorianos como untermensch, sub-humanos, seres que não são dignos nem da própria existência. Campos de trabalhos forçados, experimentação sádica, fome e doenças eram comuns na vida dos prisioneiros bajorianos.

Major Kira é talvez uma das personagens mais bem trabalhadas em Star Trek. Ela cresceu sob um regime fascista cardassiano, tendo perdido praticamente toda a família, vivendo em campos da resistência e lutando contra seus opressores. Ela parece sentir uma raiva intensa o tempo todo, mas isso é fruto da vida que levou desde sempre. A União Cardassiana é uma ditadura nacionalista, com um culto que reverencia o imperialismo e o poder. Eles tomam planetas como Bajor porque acreditam ser seu direito como uma raça superior. Há até momentos em que o cardassiano Damar quer "colocar os bajorianos em seu devido lugar" ao se ver contrariado por Kira.

Mas não são só os cardassianos que são fascistas em Star Trek, o Dominion também é. E é bem curioso como Cardássia sofre uma ocupação severa e brutal bem semelhante àquela que Bajor sofreu. O medo rege a política dos metamorfos, temendo o que os sólidos podem fazer contra eles. Qual é a solução que eles encontram? Exterminar todo mundo, principalmente a Federação. Quando Cardássia percebe que o negócio com o Dominion não está sendo vantajoso e decide sair, os metamorfos se aliam aos Breen e tomam de vez o planeta. É a hora dos "terroristas" bajorianos, como Kira, entrar em ação e ensinar aos cardassianos como se luta contra um poder como aquele.

A culpa do sobrevivente também aparece com frequência na série. Terapeutas que trabalharam com sobreviventes dos campos de concentração depois da Segunda Guerra Mundial perceberam um padrão recorrente entre eles. Muitos se sentiam culpados por estarem vivos, sendo que seus amigos e parentes pereceram nos campos. Em Star Trek, Li Nalas é resgatado de um campo cardassiano e ele é recebido como um herói pelos bajorianos, mas Nalas não se sente assim. Para ele a sobrevivência é um peso, um fardo, enquanto tantos outros morreram. Ele não se sente afortunado por ter sobrevivido.

Os bajoranos eram um povo pacífico antes de vocês chegarem. Não éramos nenhuma ameaça para vocês. Nunca vamos entender por que vocês tiveram que ser tão brutais.

Kira Nerys (DS9: ❝Duet❞)

Aamin Marritza é o personagem que mais foi corroído pela culpa dos crimes de guerra dos cardassianos. Ex-arquivista do campo, ele assume a identidade do comandante de Gallitep, Gul Darhe’el, e parte para a estação. Ele se sente culpado por se esconder embaixo de seu cobertor, enquanto os bajorianos pediam por misericórdia durante a noite. Existem diários de ex-funcionários nazistas de campos de concentração que comentam que era muito difícil dormir à noite com o grito das crianças com fome e, provavelmente, serviu de inspiração para Marritza, que busca uma redenção por atos que nem cometeu, mas seu povo sim.

Michael Burnham também conhece um sistema ditatorial fascista e cruel na forma do Império Terrano, na figura da imperatriz Philippa Georgiou, em uma realidade alternativa e que é sua capitã na realidade prime. Baseado na força, na conquista, na guerra e na cruel escravidão de povos, o Império Terrano cultua a figura da imperadora, que é implacável.

Mas uma coisa que Star Trek também faz é mostrar a redenção. A própria major Kira era uma mulher intragável no começo da série, impaciente, até mesmo cínica e se torna uma líder amável e flexível, sem tanta aspereza do começo. Philippa também passa por uma transformação ao chegar no universo prime. Apesar das diferenças, Philippa começa a ver as pessoas de maneira diferente, inclusive Saru, cuja raça ela considerava gado. Ela se torna mais compassiva, mais humana e chega a discutir seus sentimentos com Michael.

Até mesmo os cardassianos passam por redenção, como Tekeny Ghemor e Corat Damar, que perderam suas famílias para o sistema fascista cardassiano e se tornam figuras importantes na resistência. Mas Star Trek não diz que é simples perdoar seus opressores. Nem que alguém seja obrigado a fazer isso. Os bajorianos expulsaram Cardássia de seu planeta pela força bruta, assim como os partisans soviéticos, os maquis franceses ou qualquer outro movimento antifascista da história fez. O que a franquia mostra é que esse perdão e essa rendenção são conquistados, não dados gratuitamente. Houve mudança real da parte das pessoas. Diferente do que vemos em Gul Dukat, bem diferente do que vemos em Kai Winn, que ajudou Bajor a se libertar dos cardassianos para depois se tornar uma líder extremista, mais preocupada com máquinas agrícolas do que com seu próprio povo.

Reconciliar e perdoar não significa ter amnésia. Quando a ficção trabalha esses temas é uma forma de levá-los ao grande público, de maneira a nunca esquecer o que aconteceu e evitar que aconteça de novo.

Vida longa e próspera! 🖖🏼


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