Resenha: Força da Natureza, de Jane Harper

Desde que li A Seca acabei me tornando fã da escrita de Jane Harper. Seus enredos se passam na Austrália, sempre com personagens fortes, enredos misteriosos e que prendem a atenção das leitoras do começo ao fim. Aqui visitamos a cordilheira Giralang, onde um grupo de executivos fará trilhas pela mata durante o fim de semana. Mas não quer dizer que todos voltarão.





O livro
O agente federal Aaron Falk, que conhecemos no livro anterior, está de volta. Ele e sua parceira, Carmen Cooper, estão envolvidos em uma investigação de um desaparecimento. Cinco mulheres e cinco homens se dirigem para a cordilheira Giralang, a três horas de Melbourne, onde há um retiro corporativo. Equipes deixam seus escritórios por alguns dias para andarem pela mata e assim desenvolverem companheirismo, onde podem contar umas com as outras em um ambiente mais ou menos hostil.

Resenha: Força da Natureza, de Jane Harper


Mas aquelas mulheres pegam suas mochilas, botam o pé na trilha e desenvolvem tudo, menos companheirismo. Apenas quatro delas voltaram da mata, uma delas está ferida após uma picada de cobra e cada uma conta histórias estranhas e que não parecem combinar. Não só isso, a cordilheira é conhecida por ter sido o local preferido de um assassino em série que aterrorizou Melbourne e quando uma das mulheres não retorna, muita gente parece fazer a conexão.

O que começa como um retiro divertido se torna lentamente um inferno para aquelas mulheres. Chuva, frio, falta de água, fome, desconforto, machucados, tudo o que pode dar errado em uma trilha na mata acomete àquelas mulheres. A autora nos mostra o presente, quando as equipes de resgate estão em busca da mulher desaparecida, Alice, mas retorna no tempo para mostrar como foi o começo da caminhada. Cada mulher ali tem seus próprios segredos, medos, e cada uma está disposta a sair da cordilheira custe o que custar.

Alice, Lauren, Jill, uma das donas da firma, Beth e Bree, irmãs gêmeas, começam a trilha já tensas. Erros bobos de quem não está acostumada a viver no meio do mato estressam mais do que o necessário algumas delas. O que elas não sabem é que Alice está ajudando a polícia em um caso e ficou de entregar documentos especiais a Aaron e Carmen. Mas o caso dos dois policiais não pode prosseguir sem eles e a chefia está pressionando os dois por respostas. Será que alguém descobriu e resolveu dar cabo de Alice ali na mata? Poderia o assassino em série ter retornado para fazer uma nova vítima? Alice pode ter fugido a fim de recomeçar a vida?

Tenho que admitir que as personagens são difíceis de simpatizar, mas ao mesmo tempo você se compadece delas pela situação em que se encontram e torce que tudo dê certo. É conflitante, não é? Mas muito dos comportamentos detestáveis delas só começaram a surgir por causa da situação em que se encontravam. O estresse daquela sucessão de eventos acabou tornando essas pessoas a pior versão delas mesmas e acho que no fim é o que pode acabar acontecendo, ainda mais com pessoas sem experiência a esse tipo de ambiente.

Em um ritmo que lembra muito o de um filme de Hollywood, o livro vai escalando as tensões daquelas mulheres. Sabe quando um grupo de pessoas comete um erro e por causa disso os nervos ficam abalados, as intrigas, os medos, os conflitos emergem e a situação piora? A autora trabalhou tão bem essas sensações, essas emoções que você começa a se perguntar o que aconteceu e não consegue chegar a nenhuma conclusão. Aquelas pessoas têm seus lados bons, maus e indiferentes, como qualquer um e até me peguei pensando que seria de mim numa situação semelhante. Elas se veem no limite e coisas antes impensáveis passam a ser aceitas. Por exemplo, uma das personagens recusaria um café com leite se o leite estivesse frio, mas no meio da mata ela bebeu água de um tronco apodrecido sem cerimônia.

Talvez não seja possível controlar quem somos. Talvez a gente nasça de um jeito e não há nada que se possa fazer a respeito.

A cordilheira Giralang é ficcional, então não temos exatamente uma descrição de como ela é, nem seu tamanho exato. Sinto que esses detalhes poderiam ter dado uma melhor visão de como elas estavam de fato perdidas no meio do nada, onde nem sinal de celular pega, cercadas por morros, riachos, árvores e pedras. A descrição das trilhas poderia também ter sido melhor detalhada já que elas são importantes para o enredo e para a situação que as mulheres acabam enfrentando. Acho que a autora quis focar no psicológico das personagens e acabou deixando de lado a descrição física do lugar. O que importa aqui é o psicológico dos personagens, não exatamente o cenário em que se encontram.

A leitura é rápida e você não consegue largar, querendo logo saber sobre o paradeiro de Alice. Conforme os fatos vão se desenrolando e você vai aprendendo mais sobre aquelas mulheres percebe que o caso se complica, envolvendo muita intriga empresarial e pessoal, mas não tem como adivinhar o que vai acontecer no final, nem sobre o paradeiro de Alice. Admito que eu esperava um final diferente e a autora me surpreendeu mais uma vez. A tradução foi de Mariana Kohnert e não encontrei problemas de revisão ou diagramação no ebook.


Obra e realidade
Já fiz muitas trilhas na época da faculdade, então sei como me preparar para uma e como me orientar espacialmente. Também sei como o ambiente pode ser estressante para quem não está acostumada com esse tipo de atividade. As árvores parecem todas iguais, o caminho fica cansativo e até levantar a perna para dar um passo pode ser exaustivo. É fácil se irritar e acabar brigando com os outros.

A ideia da autora de colocar os conflitos entre elas em um ambiente hostil foi muito bem pensada. A sociedade exige que a gente se comporte de uma certa maneira, muito polida e que guarde a maioria de suas opiniões para si, para evitar atritos. Mas jogadas em uma situação de estresse extremo como a que elas enfrentam na cordilheira, tudo vem à tona, inclusive as diferenças que nunca foram sanadas. É uma receita perfeita para um desastre.

Jane Harper

Jane Harper nasceu no Reino Unido, mas se mudou com a família para a Austrália quando tinha 8 anos de idade. É jornalista e escritora, tendo publicado seu primeiro livro em 2016.


Pontos positivos
As mulheres
Narrativa bem escrita
Personagens irritantes
Pontos negativos

Não temos descrição da cordilheira ou das trilhas


Título: Força da Natureza
Título original em inglês: Force of Nature
Autora: Jane Harper
Tradutora: Mariana Kohnert
Editora: Morro Branco
Ano: 2021
Páginas: 416
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Avaliação do MS?
Este é um thriller policial, mas também é um drama, e uma luta pela sobrevivência. É um livro muito bem escrito, mas que não conta com grandes cenas de ação. O foco aqui é no psicológico já abalado de cinco mulheres que acabaram em uma situação que não podiam controlar. Se você curte uma obra de ficção tensa e que vai lhe garantir várias surpresas, pode se jogar em Força da Natureza. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


MUITO BOM!


Até mais! ⛰


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