Resenha: Sete Mentiras, de Elizabeth Kay

Adoro thrillers que tenham mulheres como protagonistas. Este aqui logo me chamou a atenção e estava ansiosa para ler. O livro fala de temas bastante importantes, como amizade abusiva, relacionamentos tóxicos, famílias desunidas. Mas nem tudo são flores.




Parceria Momentum Saga e
Editora Suma



O livro
Jane e Marnie são amigas desde a infância. Unha e carne, inseparáveis mesmo, faziam tudo juntas. Marnie era a luz, Jane a escuridão. Jane depende cronicamente da amizade de Marnie para tudo na vida. É ela quem narra a história para um interlocutor misterioso que só é revelado no final. O título do livro se refere às mentiras que Jane contou para Marnie, as únicas na vida, mas aquelas que vão abalar tudo o que elas acham que conhecem uma sobre a outra.

Resenhas: Sete Mentiras, de Elizabeth Kay


Devo dizer logo de cara que Jane é uma hipócrita. Ela reclama que não consegue dividir o amor de Marnie com o noivo (e depois marido) dela, um babaca chamado Charlie. O cara é chato mesmo como todo homem bem-sucedido consegue ser, mas Jane também não é nenhuma flor que se cheire. Jane sente falta de ter a amiga ao seu lado, mas ela mal aborda o fato de que deixou Marnie para se casar e que Jonathan era o sol de sua vida. Enfim, a hipocrisia.

Amizades antigas são amarradas como cordas velhas, gastas em algumas partes e grossas e volumosas em outras. Eu tinha medo de que aquele fio do nosso amor fosse fino demais, puído demais, para aguentar o peso da minha verdade. Porque claro que os fatos — de que eu nunca tinha odiado ninguém como o odiava — teriam destruído nossa amizade.

Achei interessante como o começo da história mostra Marnie desabrochando, ascendendo na vida, enquanto Jane se recolhe para a dor e para o desgosto. Jane parece não ter nenhuma identidade sem a presença de Marnie e Marnie não tem identidade alguma no livro todo. Não sei se foi intencional da autora, de mostrar Marnie pelo ponto de vista de Jane, mas é uma personagem sem graça, que parece não ter vida pregressa alguma. Jane por sua vez tem problemas familiares e ficamos cientes de todos eles, inclusive com a mãe e a irmã mais nova. Mas de Marnie mesmo, praticamente nada.

Lá pelas tantas, Charlie morre e Jane sente que vai ter a amiga de volta. Jane passa por uma tragédia horrível e acredita que o amor de Marnie, sua amizade, pode acabar tapando este buraco, mas Marnie está vivendo sua vida e até há momentos em que quer agir de maneira independente, o que Jane não gosta nem um pouco. É uma relação tóxica, ainda que Marnie não perceba, porém a gente acompanha os pensamentos de Jane e percebe que essa mulher precisava de uma psiquiatra e não de uma amiga para viver carne e unha vendo Netflix no sofá.

Percebe-se logo de cara que o problema todo começou com Charlie. Se Jane achava que Charlie não prestava e achava que sua amiga estava cometendo um erro, por que raios Jane não falou isso? Entendeu a treta toda aqui? Ela poderia ter se aberto, já que conhecia a amiga tão bem assim, e apontar os problemas que via em Charlie, pedir para Marnie prestar mais atenção, para que ela abrisse os olhos para o verdadeiro escroto que ele era. Mas ela acha que precisava manobrar a verdade para não magoar Marnie... Então essa amizade não é tão verdadeira assim, certo?

Não consigo fugir da angústia eterna das minhas próprias escolhas.

O livro vai bem por uns bons 80% da narrativa. Thrillers costumam terminar de maneira bombástica, com alguma revelação ou ato escabroso. Jane estava sendo levada até às últimas consequências (ela passa por um bocado de coisa perto do final) e poderia acabar de uma maneira bem ruim para as duas. Só que não é o que acontece aqui. O final chega e acaba e é isso, acabou o livro. Não há resolução alguma. Um exemplo: tem alguém perseguindo Jane para saber a verdade. Cadê ela? Desistiu assim do nada? Depois de tornar a vida delas um inferno a pessoa evapora?

O livro conseguiu me segurar por um bom tempo, mas admito que cheguei ao final pensando se não era um erro, se tinham faltado páginas, porque o livro acaba e pronto, não resolve nada. Consigo entender o que a autora quis fazer e nem isso funcionou. Que desperdício de uma boa ideia! Uma pena mesmo. Nem todas as mulheres protagonistas precisam ser boazinhas ou heroínas abnegadas. Quero ver mulheres ambíguas, capazes de atos chocantes, mas POHAN, me entregue uma boa história, com começo, meio e fim, e não apenas começo e meio.

Tirando isso, o livro está bem traduzido pela Regiane Winarski e não encontrei problemas de revisão ou tradução. Ele vem em capa comum e papel amarelinho, bem confortável de ler.


Obra e realidade
Apesar dos pesares, o livro toca em um assunto muito importante: amizades também podem ser relacionamentos tóxicos. Sempre se fala de relações abusivas entre casais, mas amizades também podem passar dos limites. Já tive o desprazer de ter uma amizade que era importante até eu perceber que a pessoa competia comigo em tudo e que quando eu estava por cima, ela não queria estar por perto, só aparecia quando eu estava por baixo, como se quisesse me ver mal.

Os relacionamentos entre as pessoas precisam de reciprocidade. Se você sempre se doa para alguém, mas a pessoa não reconhece seu valor, te despreza, compete com você, tem coisa errada.

Elizabeth Kay



Pontos positivos

Discussão sobre amizade tóxica

Pontos negativos
Jane
Final em aberto
Personagens unidimensionais


Título: Sete Mentiras
Título original em inglês: Seven Lies
Autora: Elizabeth Kay
Tradutor: Regiane Winarski
Editora: Suma
Páginas: 272
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Não posso dizer que foi tudo uma completa decepção. Gostei de boa parte da trajetória de Jane e Marnie e relevaria os problemas de falta de identidade de uma delas se o final valesse à pena. Mas não vale. Acabei a leitura frustrada e querendo meu tempo de volta. Três aliens para o livro.




Até mais!


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