Resenha: Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, Rodrigo Rosa e Eloar Guazzelli

Um dos grandes clássicos literários nacionais e único romance de João Guimarães Rosa ganhou uma edição em quadrinhos à altura de sua magnitude e importância. O quadrinho acompanha a jornada de Riobaldo pelo sertão de Minas Gerais, onde pessoas embrutecidas buscam uma razão para viver e para morrer em uma existência cercada de desilusões.





Parceria Momentum Saga e
Companhia das Letras



O quadrinho
Riobaldo, personagem principal, começa a contar sua vida, contando fatos que parecem desconectados e sem qualquer relação entre si. Ele divaga sobre várias questões filosóficas, religiosas, com a dualidade entre Deus e o Diabo. Esse começo é bem complexo, admito que fiquei um tanto intimidada com a linguagem e precisei ler com bastante atenção. Riobaldo consegue prender a leitura em seus relatos, suas lembranças do passado, principalmente quando conheceu Reinaldo, um garoto que dizia ser diferente.

Resenha: Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, Rodrigo Rosa e Eloar Guazzelli

Riobaldo acaba entrando para um bando que pretende pôr fim à atuação de jagunços na região. Quando Riobaldo resolve desertar do bando, ele reencontra Reinaldo, que lhe segreda seu nome verdadeiro, Diadorim. A figura de Diadorim encanta Riobaldo, e ele dedica sua vida para estar ao seu lado. Juntos eles fazem parte de um bando de fora-da-lei liderador por um homem justo, mas embrutecido pela vida, chamado Joca Ramiro. Enquanto andamos pelo sertão e vivenciamos toda a violência e as agruras de um ambiente como esse, também passeamos pelo coração de Riobaldo, que nutre sentimentos conflitantes sobre Diadorim.

O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

Guimarães Rosa foi bastante elogiado na época do lançamento do livro pela forma como retratou os homens do sertão. Em um lugar marcado pela severidade do clima e da vegetação, um lugar que acaba embrutecendo seus habitantes, Guimarães Rosa mostro um sertanejo humano, dotado de um coração frágil e valoroso, alguém que é bastante crítico às ações violentas, inclusive do bando que faz parte. Enquanto temos a visão de homens viris, violentos, o autor quebra o estereótipo ao mostrar um homem em busca de justiça ou em busca de uma maneira de fazer justiça.

É também uma história de amor, um amor que Riobaldo não entende. Em sua cabeça é um amor impossível e ele se debate com esse sentimento por Diadorim. Riobaldo é o intérprete deste sertão tão duro, que é também um personagem do quadrinho (e do livro), ao mesmo tempo que tenta interpretar Diadorim e o que sente por ele. Ainda que existam sinais pelo quadrinho da verdadeira identidade de Diadorim, Riobaldo não presta atenção. Talvez a própria condição dura de sertanejo, acostumado a uma vida sem sutilezas, o deixe desatento a isso.

Veredas


A arte de Rodrigo Rosa é fabulosa. Da expressão facial dos personagens ao sertão em si, das batalhas aos pensamentos de Riobaldo, tudo essa maravilhosamente bem desenhado e colorido. Quem teve dificuldade com o texto do romance pode se jogar nessa leitura porque a arte de Rodrigo desata os nós da linguagem do autor e mostra em imagens o que as palavras não conseguem demonstrar. Ele captou a dureza no olhar do sertanejo, a aspereza da paisagem, as construções baixas e simples, dando movimento e agilidade em momentos em que o texto parece não avançar. É preciso parar um instante para captar todas as informações dispostas na página.

Grande sertão: veredas


Trabalhando com lápis e carvão, Rodrigo Rosa consegue mostrar um sertão que é, ao mesmo tempo, belo e cruel, selvagem e convidativo, sereno e violento. E para se viver em tal lugar o sertanejo precisava ter em si essas qualidades. Riobaldo se debate contra elas, contra seus sentimentos, contra sua própria existência e a arte de Rodrigo conseguiu encaixar esses elementos de maneira incrível. Esse é o tipo de trabalho que pode acabar descaracterizado, visto como apenas um faroeste, mas são os detalhes do sertão e a forma como os personagens foram desenhados que nos mostram sua verdadeira origem.

Esta edição é um relançamento do quadrinho que saiu em 2014. Ele vem em capa comum (uma pena, ela tende a deformar), com papel encorpado no miolo e impressão colorida de alta qualidade. Senti falta de um texto de Rodrigo e Eloar falando um pouco sobre o trabalho da adaptação, que está excelente.

Sertão: é dentro da gente.


Obra e realidade
O sertão impõe suas próprias regras de conduta àqueles que nele se propõem viver. Guimarães se inspira em um sertão real, aquele do interior de Minas Gerais na divisa com a Bahia para compor seu enredo, um sertão que a tudo domina. O sertão aparece na literatura brasileira várias vezes. Vidas secas, de Graciliano Ramos; Os Sertões, de Euclides da Cunha e; Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa são três obras que mais se destacam nesse segmento.

Esse sertão retrata um Brasil periférico, bárbaro, atrasado, bruto, completamente oposto ao Brasil tropical visto em Salvador ou no Rio de Janeiro, bem longe da urbanidade de São Paulo. O sertão deixa de ser apenas uma paisagem distante e desfavorecida e passa a ser um estado de espírito, uma forma de pensar, uma maneira de se enxergar os paradoxos de um imenso país continental, imerso em misticismo.

Guimarães Rosa conhecia bem o sertão. Ele nasceu na cidade de Cordisburgo, no meio do estado de Minas Gerais, região sertaneja, como também coordenou por muitos anos a Divisão de Fronteiras do Ministério das Relações Exteriores. Ele também foi assessor da Comissão Nacional de Geografia (CNG), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ele era um apaixonado pelo estudo de mapas e pela história da formação do território nacional, elementos que foram essenciais para a composição do romance.

João Guimarães Rosa, Rodrigo Rosa e Eloar Guazzelli

Guimarães Rosa é um dos autores brasileiros mais conhecidos e elogiados do país. Rodrigo Rosa é um ilustrador gaúcho, ganhador do troféu HQ Mix duas vezes. Eloar Guazzelli é um escritor e roteirista gaúcho, ganhador de vários prêmios.


Pontos positivos
Traços e cores
Riobaldo e Diadorim
Sertão
Pontos negativos
Nenhum!


Título: Grande sertão: veredas
Autor: João Guimarães Rosa
Roteiro: Eloar Guazzelli
Arte: Rodrigo Rosa
Editora: Quadrinhos na Cia
Páginas: 184
Ano de lançamento: 2021
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Admito que tive dificuldade com o texto de Guimarães. Mas ler o quadrinho foi uma experiência única, podendo aliar um texto do portentoso com um trabalho gráfico impecável, que tornou o romance gráfico uma obra de arte. Grande sertão: veredas já virou filme, série de TV, quadrinho, existem muitas formas de se consumir e admirar o trabalho de Guimarães Rosa, mas o quadrinho ainda figura como o meu favorito. Selo essencial super merecido e uma recomendação de leitura urgente para você.

Até mais!


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1 Comentário

  1. Eu li João Guimarães Rosa no Ensino Médio e lembro de ter tido dificuldade na leitura devido à grande diferença cultural. Tem coisas que era bem difíceis de imaginar, acho que se eu tivesse lido em quadrinhos naquela época teria sido mais agradável.
    :)

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