Trazer animais extintos de volta é certo?

Levantei essa bola no Twitter outro dia falando sobre dinossauros e Jurassic Park, mas senti que a discussão ficou incompleta, afinal Twitter é uma rede com restrição de caracteres. Mas aqui não, então resolvi elaborar melhor e espandir a discussão sobre o assunto. Me enviaram uma pergunta pelo Instagram sobre Jurassic Park e se eu achava correto trazer dinossauros de volta à vida. A questão da deextinção é bem mais complicada do que a que Spielberg jogou nas telas.

Trazer animais extintos de volta é certo?





Michael Crichton, o autor de Jurassic Park, usou a temática de um parque com dinossauros trazidos de volta à vida por meio da engenharia genética de maneira a discutir a mercantilização da prática. Ele estava preocupado com o tipo de precedente que tal prática poderia trazer para o futuro. Steven Spielberg, quando ouviu sobre o livro, comprou os direitos antes mesmo da publicação sair e o transformou em um filme divisor de águas no cinema. Muita gente seguiu a carreira de paleontólogo por causa do filme. E termos como DNA e engenharia genética caíram na boca do público.

A ideia é bem legal do ponto de vista da ficção científica: usar o sangue dentro de mosquitos preservados em âmbar e complementá-los com genes de anfíbios para criar dinossauros já extintos (lembrando que as aves são dinossauros). A InGen então cria apenas dinossauros fêmeas de maneira a controlar a população do parque e chama especialistas para avaliar o conceito e a viabilidade da atração. Sabemos, por sua vez, que a natureza deu um jeito e os dinossauros não apenas começam a se reproduzir como também escapam do controle dos gerentes do parque.

O filme é muito divertido e ver aqueles animais interagindo com os seres humanos é sim bem maneiro. Mas pensando pelo lado frio da coisa, seria possível trazê-los de volta? Do ponto de vista apenas tecnológico, não seria possível. O DNA é muito delicado e não se preserva por muito tempo. Acredita-se que depois de seis milhões de anos nós acabamos com um DNA inviável. Os dinossauros não-avianos foram extintos há, pelo menos, 66 milhões de anos, então não daria certo.

Há quem sugira involuir os genes das aves de maneira a obter um dinossauro viável, mas não temos bem certeza do que sairia disso. As aves já são dinossauros, assim nós teríamos apenas uma pequena porção de dinos, enquanto os não-avianos, como o triceratopes, os pescoçudos como o Argentinossauro, não caminhariam por aí.

Mas o assunto esbarra em outra questão: ainda que nós pudéssemos trazer espécies extintas de volta, nós devemos?


A questão ética
Trazer dinossauros de volta à vida é errado. É antiético. Aquele planeta Terra que os dinossauros conheceram antes do asteroide nos atingir não existe mais. A Terra era um planeta bem diferente há 66 milhões de anos. Era um clima quente, abafado, pois não havia calotas polares. Os continentes estavam começando a se partir para a configuração que conhecemos. Havia plantas e outros animais que hoje estão extintos ou evoluíram para novas formas. O clima era diferente, a Lua estava mais próxima. Em resumo: era praticamente um planeta alienígena se comparado ao que temos hoje.

Você deve se lembrar da cena da triceratopes morrendo no filme, certo? A paleobotânica, Dra. Ellie Sattler, acredita que ela tenha comido uma planta tóxica para seu metabolismo. E é meio óbvio isso, afinal os cientistas do parque trouxeram os dinos de volta à vida, mas não as plantas ou outros animais que compunham os habitats originais. Não é só trazer o bicho de volta. É preciso pensar no seu ambiente que, no caso dos dinossauros, não existe mais.

Lá no Twitter me perguntaram, na mesma sequência de tuítes, se trazer outros bichos extintos recentemente de volta era errado. Na hora não deu para elaborar muito, mas a questão é não, não dá mais para trazer animais que se foram. Se foram extintos por nossa causa ou não, seria antiético da mesma maneira que seria com os dinossauros.

Além dos desafios técnicos envolvidos, mesmo que fôssemos capazes de trazer um animal como o dodô de volta, com quem ele aprenderia a agir como um dodô? Pense a respeito. Suponha que você pegue uma criança bem pequena e abandone na floresta. Ela será criada pelos animais, tal como a lenda de Rômulo e Remo, criados por uma loba. Sem outros humanos para mostrar a ela como se comportar, ela nunca vai se tornar um indivíduo. Ela vai imitar o comportamento dos animais ao redor. Lembrou de Tarzan e de como ele não se adaptou à vida na cidade?

Como um T. rex agiria como tal sem sua ninhada para ensinar? Como um dodô conseguiria? E o mamute? O DNA completo do mamute existe e há planos de engravidar uma elefanta e trazer o mamute de volta. Não sabemos quais eram os comportamentos específicos dos mamutes, então como esse bebezinho poderá agir como um? E o lobo da Tasmânia? Como ele aprenderá a agir como um sem seus semelhantes?

Apenas criar o bicho em um tubo de ensaio não é o suficiente para trazer toda uma espécie de volta. Como fica a epigenética ou o meio ambiente em que eles viviam? E os grupos sociais desses animais? Vamos criar um mamutezinho para ele virar uma atração turística, tal como os dinossauros do parque? Já não temos exploração animal o bastante em nossa sociedade?

Extinção é algo extremamente recorrente na Terra. Quando uma espécie some, seja lá por qual razão, o ambiente acaba se ajustando. Se trouxermos de volta à vida esses animais seriam vistos como invasores e poderiam causar a extinção de espécies que não estavam ameaçadas em primeiro lugar.

Um genoma é parte de uma espécie, não a espécie inteira.

Mas a questão ética é ainda maior quando pensamos que os seres humanos são responsáveis por várias extinções de animais e plantas. Não seria correto trazer esses organismos que nós mesmos extinguimos? Aí entra outro problema: a variabilidade genética. Quando uma população fica pequena, sua variabilidade genética também fica. Devido à mistura aleatória dos dados hereditários, genes podem acabar desaparecendo, deixando os organismos cada vez mais semelhantes uns aos outros. Mesmo o perfil genético mais cuidadosamente montado é insuficiente para recuperar o que a extinção obliterou. Um genoma é parte de uma espécie, não a espécie inteira.

O perigo dessa baixa variabilidade genética é a baixa reprodução dos organismos, que os tornam incapazes de se adaptar a novos desafios. Vamos supor que fosse possível criar vários lobos da tasmânia em laboratório com base em uma única célula clonada. Teríamos vários problemas de variabilidade genética, pois seriam o mesmo organismo copiado diversas vezes. Seria possível encontrar células em outras amostras, como em museus, mas é uma tarefa grande demais para benefícios que podem nem ser tão grandes assim. Poderiamos reiniciar as interações ecológicas que estão muito danificadas e acabar gerando efeitos em cascata que desconhecemos.

E já que estamos falando de ética, por que não investir em preservação de habitats, de reforçar leis ambientais, de poluir menos? Por que se discute a ressurreição de animais já extintos quando deveríamos proteger os que ainda existem para impedi-los de desaparecer? Deveríamos cuidar da única casa que conhecemos, pois não existe uma Terra II esperando para ser explorada. Nós podemos impedir que outros animais e plantas se percam e é nisso em que deveríamos investir.

Não existem respostas simples para a questão da deextinção. E eu nem pretendia dar alguma delas aqui. Apenas queria desenvolver melhor o tema, pesquisar mais e levantar a discussão. Justamente por não ter respostas fáceis que precisamos manter a discussão aquecida.

Até mais! 🐘


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5 Reasons to Bring Back Extinct Animals (And 5 Reasons Not To) - Discovery Magazine
Extinction is forever: de-extinction can’t save what we had - Aeon
The Deadliest Flu: The Complete Story of the Discovery and Reconstruction of the 1918 Pandemic Virus - CDC


Em 2005, cientistas do CDC, nos Estados Unidos, fizeram deextinção do vírus do influenza, a gripe que matou entre 20 milhões e 50 milhões de pessoas na pandemia de 1918. Eles utilizaram um laboratório de biossegurança 3 nas dependências do CDC, onde sequenciaram os oito genes do vírus e assim puderam estudar sua incrível virulência responsável por tantas mortes. Isso ensinou aos virologistas muita coisa sobre a influenza, sobre o H1N1 e como podemos criar vacinas melhores e de ação mais prolongada contra a gripe. Neste link você tem acesso ao artigo original em inglês.



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