Resenha: Mulheres extraordinárias: as Criadoras e a Criatura, de Charlotte Gordon

Nem sei descrever os sentimentos que este livro evoca. Perplexidade, alegria, tristeza profunda, raiva. São tantas coisas sentidas durante a leitura que você quer até voltar para o começo e ler de novo para compreender melhor todas elas. Charlotte Gordon biografou mãe e filha de maneira que nós caminhamos ao lado delas, sentimos e lutamos de maneira igual e vivemos intensamente.





Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide



O livro
Mary Wollstonecraft e Mary Shelley são figuras fascinantes. Elas não chegaram a ver o impacto que o legado de seus trabalhos deixou no mundo, nem mesmo conviveram juntas, mas é inegável que o mundo seria outro caso seus escritos não tivessem sido lidos, estudados e replicados posteriormente. Wollstonecraft foi uma mulher à frente do seu tempo, que contrariou todas as regras sociais impostas às mulheres. Figura essencial do feminismo, era reverenciada por seu marido, William Godwin e por sua filha, Mary Shelley, acostumada a visitar o túmulo da mãe e traçar as letras de sua lápide com os dedos.

Resenha: Mulheres extraordinárias: As Criadoras e a Criatura, de Charlotte Gordon


Mary Shelley nunca pode conhecer a mãe, que morreu de febre puerperal alguns dias depois de seu nascimento, mas Godwin perpetuou a imagem de Wollstonecraft para as filhas (Fanny, filha de Wollstonecraft com outro homem, e Mary Shelley). Wollstonecraft viera de um lar abusivo e repressor, saindo de casa aos 19 anos. O mercado para mulheres era bastante restrito na época delas, então Wollstonecraft se tornou professora, depois governanta, tradutora e escritora, conseguindo um feito incomum para a época de se sustentar sem a presença de um homem.

Intercalando as biografias de mãe e filha, você pode ler o livro na ordem estabelecida pela autora ou pular os capítulos para ler primeiro de Wollstonecraft e depois de Shelley. Achei muito engenhosa a função dupla do livro, que é basicamente um dentro do outro. Optei por ler na ordem da autora e não me decepcionei. Digo que não me decepcionei com a leitura, mas com os homens envolvidos nas vidas dessas mulheres foram várias. Entendo bem que o cenário da época e a forma como eles se comportavam como espíritos livres em busca de uma quebra dos padrões sociais vicejava, mas na real mesmo tanto Byron quanto Shelley eram o que chamamos hoje de boy lixo. E entenda, a crítica é ao comportamento, não à sua produção literária.

Mãe e filha tentaram se libertar da ação repressora da sociedade elegante, esforçando-se para equilibrar sua necessidade de amor e companheirismo com sua necessidade de independência. Elas enfrentaram com coragem as críticas de seus pares, escrevendo obras que abordavam as questões mais polêmicas da época. Corajosas, apaixonadas e visionárias, violaram quase todas as regras possíveis. Ambas tiveram filhos fora do casamento. Ambas lutaram contra as injustiças que as mulheres enfrentaram e escreveram livros que revolucionaram a história.

Página 17

Mary Shelley cresceu inspirada no pioneirismo da mãe, mas teve uma vida igualmente difícil, com uma madrasta irracível. Porém seu pai apoiava sua educação, coisa que poucos faziam na época. O apoio de Godwin a Mary acabou quando ela se bandeou para o lado de Percy Shelley e foi viver uma vida romântica e perturbadora ao lado dele e da irmã. É preciso pontuar que a autora não romantizou os relacionamentos das duas Marys. Ela mostrou as incongruências e as dificuldades que elas passaram devido às suas vidas pouco convencionais e a forma como homens de moral duvidosa se envolveram com mulheres que eram indomáveis.

Porém será que elas teriam criado as obras geniais que marcaram gerações se não tivessem vivido daquela maneira? Reivindicações dos Direitos das Mulheres (1792) e Frankenstein (1817) nasceram de mentes fervilhantes, que violaram as convenções naturais e sociais. O que elas passaram foi horrível, porém o legado que deixaram sedimentaria o caminho de muitas mulheres que hoje escrevem e/ou que apenas querem viver suas vidas do jeito que quiserem.

É uma obra bem detalhada, contando com 40 capítulos que se intercalam, contando a vida de mãe e filha seguidamente. Vindo desde seus respectivos nascimentos e indo até suas mortes, passamos por situações que foram pesquisadas com esmero pela autora, utilizando-se cartas e diários de ambas. A autora também passa pelos momentos de criação de suas obras-primas, bem como a recepção delas no mercado. A parte que analisa a constituição do romance Frankenstein é fascinante e um prato cheio para fãs da obra. Não faltam momentos tristes em suas vidas, também bem detalhadas e escritas.

O livro em si é lindíssimo, com um belo trabalho gráfico interno, capa dura e papel amarelo (aliás, DarkSide, use mais desse papel, que foi bem confortável de ler!). A tradução de Giovanna Louise Libralon está ótima e encontrei poucos problemas de revisão e diagramação no livro. No final encontramos cartas de Percy Shelley, além de uma extensa biblliografia

Elas afirmaram seu direito de conduzir o próprio destino, dando início a uma revoluçao que ainda não terminou.

Página 556


Obra e realidade
Reivindicações dos Direitos das Mulheres (1792) foi uma obra pioneira, que causou furor por onde passou, recebendo críticas virulentas de muitos homens incomodados com essa história de mulheres terem direitos. Mary foi pioneira ao mostrar como a negação dos direitos das mulheres está ligado a várias desigualdades na sociedade, antecipando teóricas atuais. Ela também escreveu sobre a Revolução Francesa e como a mesma tinha perdido seu rumo, celebrando a morte e a perseguição e não a liberdade.

A vida de Mary mãe e filha foi permeada pelo sentimento de liberdade, mas bateu em uma parede de preconceito e misoginia por desafiarem a norma social. Percy Shelley, por exemplo, apesar de editar as obras de Mary e de ter tempo de ler e opinar para melhorar o texto, nunca ofereceu ajuda nas tarefas domésticas ou no cuidado com as crianças. Ele passava o dia fora, aproveitando a vida, enquanto Mary escrevia um livro logo após parir. Não parece que mudou muita coisa, parece?

Charlotte Gordon


Charlotte Gordon é uma escritora norte-americana, professora de humanidades no Endicott College e vencedora do National Book Critics Circle Award por sua biografia de Mary Wollstonecraft e sua filha Mary Shelley.

Os monstros, diz Mary, são nossa própria criação.

Página 234


Pontos positivos
Biografia dupla
Bem escrito e pesquisado
Trabalho gráfico
Pontos negativos

Nenhum!

Título: Mulheres extraordinárias: as Criadoras e a Criatura
Título original em inglês: Romantic Outlaws: The Extraordinary Lives of Mary Wollstonecraft & Mary Shelley
Autora: Charlotte Gordon
Tradutora: Giovanna Louise Libralon
Editora: DarkSide
Páginas: 200
Ano de lançamento: 2020
Onde comprar: na Amazon ou na loja da DarkSide com um brinde exclusivo!


Avaliação do MS?
Foi uma leitura deliciosa, melancólica e feliz ao mesmo tempo. Há momentos de perplexidade, de indignação, momentos em que dá vontade de meter a voadora no peito de Percy Shelley. Passei por uma montanha-russa de emoções neste livro e acredito que você passará também. É uma leitura deliciosa, além de importante, para conhecer melhor a vida de duas personalidades incríveis e importantes para a literatura e para o feminismo. Leitura mais que essencial e uma forte recomendação para você ler também!

Até mais!


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2 COMENTÁRIOS

  1. Preciso desse livro!!! Amei o filme sobre a Mary Shelley e quando assisti fiquei super curiosa pra saber sobre a vida da mãe.

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