Resenha: Agora que ele se foi, de Elizabeth Acevedo

Não sabia bem o que esperar deste livro quando ele chegou. Li poucos livros em versos antes e sempre sinto falta de mais diálogo, de mais caracterização. Entretanto, a leitura foi muito proveitosa, muito emotiva e com muitos temas trabalhados por Elizabeth Acevedo. Duas jovens de lados opostos e contextos diferentes vão acabar se encontrando após uma tragédia.





Este livro foi uma cortesia da Editora Nacional



O livro
Camino Rios é uma adolescente, prestes a completar 17 anos. Ela mora na República Dominicana com a tia, uma respeitada curandeira do bairro, numa casa simples, mas arrumada e com algum conforto, diferente do bairro onde estão, marcado pela miséria e desemprego. Camino aguarda com ansiedade a chegada do pai, vindo dos Estados Unidos, para o verão. Seu sonho: estudar medicina na Universidade Columbia. Não só para fugir da pobreza de seu país, mas também para ficar mais perto do pai. Ele e sua tia são tudo o que ela pode chamar de família.

Resenha: Agora que ele se foi, de Elizabeth Acevedo


Yahaira Rios, uma ex-campeã de xadrez, moradora de Nova York, boa aluna, passa seus dias vendo tutorial de maquiagem no YouTube ou vendo sua namorada e vizinha cuidando de suas plantinhas. Desde que nasceu, ela vê seu pai deixar o país a negócios para passar o verão na República Dominicana. Um dia, precisou muito da orientação dele e de uma palavra de apoio, mas quando tentou entrar em contato, não conseguiu.

Sim, esta é uma história sobre duas jovens que têm o mesmo pai, um pai que guarda segredos, uma pessoa complicada que despertou emoções muito intensas em todos aqueles que se envolveram com ele. Foi angustiante ler os versos de Acevedo, sobre essas duas moças unidas por sangue e pela tragédia: o voo 1112, a caminho da República Dominicana, caiu logo após levantar voo e o pai delas morreu.

Cada uma das jovens tem uma história de vida e perspectivas diferentes. Praticamente 2/3 do livro nos conta sobre suas vidas, suas diferenças, o luto que se negam a viver, a aceitação de que seu pai era um poço de segredos. Não só isso, como cada uma vive em mundos totalmente diferentes, a forma como elas veem o mundo também é. Camino sonha em estudar para mudar de vida, enquanto Yahaira tem acesso a tudo o que ela quiser. Devo dizer que me compadeci muito de Camino, enquanto que Yahaira é bem antipática às vezes, mas ela se redimiu aos meus olhos no final.

Achei bem ousada a iniciativa de Acevedo de contar essa história na forma de versos, porque a narrativa acaba ficando prejudicada. Acevedo é uma escritora habilidosa e muito sensível com o que escreve, mas eu gostaria de ter tido um pouco mais de conteúdo, principalmente sobre o cenário de Camino e sobre a presença de El Cero que, no livro, atormenta a vida da jovem e de outras moças da região.

Talvez a raiva seja como um rio,
talvez destrua tudo ao seu redor, talvez esconda
muitos esqueletos debaixo de sua superfície ondulante.

Página 166

Ainda que a narrativa seja em versos e que possa ter faltado diálogos e mais texto, Acevedo conseguiu um livro muito emotivo e sensível. Trata de temas como luto preconceito, imigração, pertencimento, violência e pobreza, muito marcante na vizinhança de Camino. Mas enquanto a vida de Camino tem várias camadas, senti que a de Yahaira carece dessas camadas a mais. É muito fácil visualizar Camino e o seu entorno, mas com Yahaira senti que merecia dar uma encorpada.

As personagens ao redor, como a tia de Camino, a mãe de Yahaira, estão bem caracterizadas e possuem papel ativo na história. As diferenças culturais entre as duas famílias são grandes, mas não são impossíveis de aceitar e até de incorporar. Com a estrutura em versos, senti que um pouco dessa cultura também se perdeu um pouco, mas não quer dizer que não dê para acompanhar a história. Cheguei ao final surpresa com o andamento das coisas.

O livro é em capa comum, com papel pólen. A tradução de Karine Ribeiro está muito boa, mas há alguns probleminhas de revisão, nada que possa atrapalhar o bom andamento da leitura.


Obra e realidade
O livro é baseado em um acidente aéreo real. O voo da American Airlines 587, partindo de Nova York com destino à República Dominicana, caiu no Queens, poucos minutos depois de decolar do JFK, em 12 de novembro de 2001. Menos de um ano depois dos atentados contra às Torres Gêmeas, uma queda em um bairro da cidade causou pânico e destruição.

Duzentas e sessenta pessoas, mais cinco pessoas no chão, morreram na queda. Mais de 90% dos passageiros eram de descendentes de dominicanos, muitos voltando para casa, depois da aposentadoria, pessoas visitando parentes, famílias inteiras. A queda foi um golpe duro para a comunidade dominicana nos Estados Unidos, mas ainda que tenha sido um dos piores acidentes aéreos do país, ele foi pouco falado, já que a atenção do mundo estava voltada para os ataques terroristas.

O que a queda do 587 também revelou foram segredos de família, há muito enterrados, o passado de muita gente escancarado por causa do acidente. Acevedo lembra-se de como a comunidade ficou e como se uniu depois do que houve. E principalmente, como aquelas vítimas precisavam ser lembradas e nunca esquecidas.

Elizabeth Acevedo


Elizabeth Acevedo é uma poeta e escritora dominicano-estadunidense.


Pontos positivos
Bem escrito
Camino
Em versos
Pontos negativos

Errinhos de revisão

Título: Agora que ele se foi
Título original em inglês: Clap when you land
Autora: Elizabeth Acevedo
Tradutora: Karine Ribeiro
Editora: Nacional
Páginas: 296
Ano de lançamento: 2021
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Mesmo a pessoa não acostumada a ler uma história em versos, vai curtir Agora que ele se foi. A história das irmãs é cativante, emocionante, você se importa com elas e quer saber o que vai acontecer no final. Sem contar o fato de que é baseada em um fato real e traumático para a comunidade dominicana. Quatro aliens para o livro e uma forte indicação para você ler também!


MUITO BOM!


Até mais!


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