Tudo o que Alien 3 poderia ter sido e não foi

É praticamente um consenso entre os fãs de Alien: os dois primeiros filmes são bons, enquanto o terceiro é praticamente um lixo radioativo e o quarto é quase que completamente ignorado. Prometheus e Covenant são duas alucinações e não devem ser contabilizados na franquia Alien. Concordo que a versão que foi para o cinema é bem fraca, enquanto que a versão Assembly Cut, a mais próxima da visão original de David Fincher, é bem melhor. Mas muita gente não conhece o verdadeiro projeto para Alien 3 de William Gibson, o autor de Neuromancer.

Tudo o que Alien 3 poderia ter sido e não foi




Em 1986 Aliens, o Resgate, foi lançado nos cinemas. Dirigido por James Cameron, ele trazia de volta Ellen Ripley em sua luta contra os temidos aliens e a Companhia Weyland-Yutani. O longa foi um sucesso instantâneo de crítica e de público, levando até a uma indicação ao Oscar da Academia de Melhor Atriz para Sigourney Weaver, algo raríssimo para um filme de ficção científica. O orçamento de 18 milhões de dólares rendeu 180 milhões em bilheteria, um feito impressionante para a época. Em números atuais, o filme teria faturado quase 450 milhões de dólares.

Assim havia uma pressão imensa para um terceiro filme bem-sucedido que repetisse a aclamação do longa anterior. Ainda que Alien 3, de 1992, não tenha sido um completo fracasso, o trabalho mutilado de David Fincher recebeu críticas mistas e nem de longe é um dos mais aclamados da franquia. A ideia original de Fincher foi tão destruída que ele renega a autoria de Alien 3 até hoje. Para a época, a pressão sobre um diretor de videoclips era imensa e não o deixaram trabalhar do jeito que queria. É até compreensível seu ódio pelo processo todo.

Não foi só com a direção que os problemas começaram. O roteiro original era Alien III e de autoria de ninguém menos que William Gibson, o aclamado escritor de ficção científica e autor de Neuromancer. Na época da estreia de Aliens, Gibson era uma estrela em ascensão. Neuromancer fora publicado dois anos antes e foi um sucesso. Para a revista Cinefantastique, Gibson disse a respeito de Alien, o Oitavo Passageiro:

Sempre quis saber mais sobre aqueles caras. Por que eles usavam tênis surrados nesta nave espacial maneira? Acho que influenciou minha escrita de FC, porque foi a primeira nave espacial bem louca, com sua cozinha suja de pia cheia que eu já tinha visto e isso causou uma grande impacto em mim.

O roteirista e produtor David Giler, junto de seu colega e também produtor Walter Hill, conhecia o livro de Gibson e sentiam que a Terra futurista de Neuromancer casava perfeitamente bem com a sociedade explorada e tecnologicamente esgotada de Alien. Mas havia uma pegadinha. Ripley talvez não pudesse voltar para a franquia devido a problemas contratuais. Os produtores sabiam do tremendo poder da protagonista de Sigourney Weaver e como seria difícil contar uma história sem ela. Assim, Gibson optou por focar a narrativa em seu segundo personagem favorito de Aliens: o androide Bishop.

Algumas pessoas estranharam a escolha de Gibson para ser o roteirista. Seu trabalho com a escrita é muito visceral e nos transporta para o Sprawl de uma maneira imersiva poderosa e única, que funciona muito bem no papel, mas que poderia perder parte de sua excelência ao ser transportada para a tela grande. Mesmo assim, o trabalho dele no roteiro de Alien III foi bom, ainda que sua ideia nunca tenha chegado a ser filmada.

Alien III começa de onde Aliens parou. A Sulaco está no espaço com Ripley, o cabo Hicks, a órfã Newt e o mutilado Bishop em criosono. Um erro de navegação os tira da rota original e os joga em uma região disputada do espaço, reclamada pela União dos Povos Progressistas, uma coalizão comunista que serve de metáfora para a União Soviética e seus estados-satélites dos anos 1980.

Uma nave da UPP acaba detectando a Sulaco e envia uma equipe para abordá-la, enquanto a tripulação adormecida nem tem ideia do que está acontecendo conforme são observados pelos invasores. Eles então percebem que há um ovo alienígena nas entranhas artificiais de Bishop. Segundo depois, um facehugger salta de dentro do ovo e gruda no capacete de um dos homens, que corre desesperado pela Sulaco. Os outros tripulantes, então, pegam o torso mutilado de Bishop e o levam para sua própria nave.

Ripley permanece adormecida e monitorada pelos médicos da estação de Anchorpoint, da UPP; Hicks e Newt são acordados. Newt é enviada para a Terra e o foco do roteiro é todo em Bishop, enquanto os cientistas da estação examinam suas entranhas em busca de mais informações sobre os aliens. Talvez aqui seja o ponto que tenha desagradado a muita gente: Ripley nunca é tirada da estase, ela não participa de nenhum dos eventos que acontecem na estação e sabemos que a força motriz da franquia é justamente sua luta para impedir a companhia de colocar suas mãos no alien.

Outra coisa que pode ter derrubado o roteiro de Gibson foi o fato de não ter aquele ar cyberpunk que conquistou os fãs do autor. Os produtores apenas não gostaram da obra quando ficou pronta e nem culparam Gibson por isso. Mas depois desse roteiro vieram outros TRINTA. No fim, o filme foi baseado em um roteiro feito por um cineasta independente, Vincent Ward, ainda que muitas mudanças grandes tenham sido feitas depois.

A colonia penal original de Ward era uma "estação espacial de madeira habitada por monges insandecidos" e até cenários foram construídos. Depois ela foi alterada para ser o planeta onde fica a base penal Fiorina Fúria 161 com a mudança na data de lançamento do filme. O contexto religioso do roteiro de Ward - em que os prisioneiros entendem que Ripley trouxe o demônio com ela e enxergam o alien como satanás em pessoa - permaneceu na visão original de David Fincher. Com tantas mudanças, Ward ficou de saco cheio e pulou fora da produção. E até essa visão mais religiosa do alien acabou se perdendo na versão que foi para o cinema, o que emputeceu Fincher mais ainda. Você só vê esse contexto na versão Assembly Cut. No final, é quase um milagre que esse filme tenha sido lançado.

Para quem tiver curiosidade a respeito do roteiro de Gibson, uma série em quadrinhos foi lançada em cinco volumes pela DarkHorse. Lá você pode ver que o autor antecipou algumas coisas que foram utilizadas em Prometheus e em Covenant. Neste link você compra a versão definitiva, com todos os volumes, em capa dura.

Alien 3 de William Gibson
Arte de Alien III, quadrinho baseado no roteiro de William Gibson


E você, curte o Alien 3 que foi ao cinema? Até mais!


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