Resenha: O inquisidor, de Catherine Jinks

Não sabia bem o que esperar deste livro. Mas fazia um tempo que não lia romances históricos e precisava curar a famigerada ressaca literária. Em alguns momentos o livro me pareceu um CSI medieval, onde você não consegue parar de virar as páginas. Aqui nos vemos envolvidas em um assassinato brutal e a conspiração que existe por trás disso, enquanto um inquisidor tenta resolver tudo e ainda por cima evitar ser acusado de heresia.





Parceria Momentum Saga e
editora Contexto


O livro
O ano é 1318. Um novo inquisidor chega a Lazet, na França, Padre Augustin, e começa a rever antigos processos do Santo Ofício. Quem o auxilia é padre Bernard, outro inquisidor local, mas um homem mais ponderado e inteligente do que seu colega idoso e irracível. O livro é uma longa epístola de Bernard contando sobre os eventos que sacudiram Lazet quando padre Augustin é morto. Não se preocupe, não é spoiler, isso está na própria sinopse da obra.

Resenha: O inquisidor, de Catherine Jinks


Ao longo dos anos aprendi que ninguém, nem mesmo um inquisidor experiente, pode ler os corações e as mentes dos seres humanos como se lesse um livro.

Página 21

O livro não explica isso logo de cara e sinto que faltou um glossário ou uma pequena introdução para explicar o que o Santo Ofício está fazendo naquela região. A igreja está perseguindo os cátaros, uma heresia medieval que se desenvolveu, principalmente, no sul da França e partes da Itália a partir do século XII. Foi um dos maiores movimentos heréticos da Baixa Idade Média, que inclusive levou a Igreja Católica a convocar duas Cruzadas para conter o seu crescimento. Também conhecidos como albigenses, em referência a uma importante cidade do sul da França que se converteu ao catarismo, Albi, a crença dos cátaros divergia em vários pontos fundamentais do catoliscismo, o que o tornava uma ameaça.

O simples fato de você ter tido um avô suspeito de heresia o condenava como herege aos olhos da igreja. Esse fanatismo está bem presente nas falas e ações de vários personagens do livro que Catherine recriou com uma perfeição sem igual. Bernard é um personagem que cresce vertiginosamente durante a narrativa e nos impressiona por sua perspicácia e pelas reviravoltas que surgem em sua vida. Confesso que não tinha a menor ideia de como esse livro terminaria e me vi alegremente satisfeita com seu final, ainda que doloroso e com a forma como Bernard desabrocha.

Como o Santo Ofício está buscando hereges, existem menções a instrumentos de tortura, mas elas não foram descritas nem ao menos uma vez. Narrado inteiramente por padre Bernard, tem uma série de eventos que acontecem fora de sua alçada que ele precisa compreender para poder achar o assassino do padre Augustin, que era sim um cara chato, mas que não merecia morrer daquela forma.

Lendo o livro me senti imersa naquela época de completo domínio da igreja, onde uma mulher desacompanhada poderia ser mal vista, onde um simples livro poderia condená-la a uma cela do Santo Ofício, onde era preciso vigiar seus passos, sua forma de falar e de pensar, pois qualquer coisa era condenável. Era uma paranoia generalizada e padre Bernard, apesar de ser inquisidor, parece não concordar muito com ela.

Thrillers policiais costumam ser carregados de suspense enquanto esperamos pela revelação do criminoso e aqui não foi diferente. Mas ao invés de ser em um cenário contemporâneo, ele se passa na Idade Média, permeada pelo pensamento religioso com um bando de padres agindo como investigadores, vilões e espiões. Entremeada com a investigação de Bernard, há seus pensamentos e medos de estar se desviando do caminho sagrado, mas também seus anseios por sentir o verdadeiro amor de Deus, ainda que ele tenha que investigar um crime tão horroroso. Não apenas ele precisa investigar o crime como também tem que descobrir onde foram parar registros desaparecidos do Santo Ofício. Alguém lá dentro está sumindo com documentos oficiais.

Logicamente que há poucas mulheres no enredo e as menções feitas pelos padres estão embutidas com a velha misoginia da igreja, então é aceitável que estejam lá pelo seu contexto e por mostrar como era o pensamento da época. Mas devo dizer que gostei muito de um grupo de mulheres que aparece mais para frente da narrativa, dotadas de uma sabedoria incrível. Isso compensa a presença de outros personagens intragáveis, como um novo inquisidor que vai chegar para perturbar Bernard.

O livro é em capa comum e papel amarelo. Uma pena não ter um mapa da região onde a narrativa acontece nem um glossário para alguns termos. A tradução foi de Paulina Pinsky e está ótima. Poucos problemas de revisão que não chegam a atrapalhar a leitura.

- Irmão, a maior de todas as derrotas é aquela planejada por traidores – afirmou padre Augustin.

Página 30


Obra e realidade
Depois de 1330, os registros da Inquisição contêm bem poucos processos contra os cátaros, então o livro se passa em uma época em que os cátaros estão praticamente extintos. A Cruzada albigense encerrou-se em 1229, quando o maior representante do catarismo, Raimundo VII, aceitou as imposições da Igreja Católica. Isso diminuiu o fervor dos cátaros, ainda que outras rebeliões tenham ocorrido, o que motivou um aumento na perseguição aos pequenos núcleos cátaros sobreviventes, o que provavelmente era o que os inquisidores em Lazet estavam fazendo.

A partir do século XIV, o catarismo foi erradicado na França. Poucos fiéis fugiram da perseguição e foram para a Itália, mas, nesse país, eles também foram alvos da Inquisição. Os cátaros acreditavam que o mundo material era mau desde a criação e que a restauração da pessoa acontecia por meio do ascetismo (penitência) e comunhão com Deus. Assim, os cátaros acreditavam no celibato (permanecer solteiro), condenavam o casamento e a procriação e não comiam carne (a exceção era peixe), gorduras, ovos, leite e queijo.

Eles também acreditavam que as almas humanas eram anjos aprisionados pelo deus mau em corpos humanos e renegavam o Velho Testamento, acusando-o de ser obra do deus mau.

Catherine Jinks


Catherine Jinks é uma escritora australiana que cresceu em Papua Nova Guiné. Estudou História Medieval na Universidade de Sydney e trabalhou como jornalista, antes de se dedicar totalmente ao trabalho de escritora.


Pontos positivos
Padre Bernard
Cenário de paranoia
Johanna
Pontos negativos
Não tem mapa nem glossário
Começo meio confuso


Título: O Inquisidor
Título original em inglês: The Inquisitor
Autora: Catherine Jinks
Tradutora: Paulina Pinsky
Editora: Contexto (selo Marco Polo)
Páginas: 400
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Fãs de romances históricos e de thrillers de investigação precisam ler esse livro! Primeiro livro do selo Marco Polo da editora Contexto, ele vai te surpreender pela ambientação e pela investigação de padre Bernard. Bem escrito, tenso, divertido, é uma leitura que você não vai querer interromper. Quatro aliens para ele e uma forte indicação para você ler também!




Até mais!



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