Resenha: Revolta da Vacina, de André Diniz

N√£o √© correto dizer que a pandemia pegou o mundo de surpresa. Ela nos pegou despreparados, porque essa n√£o √© a primeira, nem ser√° a √ļltima pandemia que nos assolar√°. A √ļnica maneira de passar por isso √© confiar na ci√™ncia, investir na vacina√ß√£o, no correto tratamento dos doentes, isolamento social e tudo mais. Mas e quando as pessoas desconfiam da ci√™ncia? A√≠ a gente tem um cen√°rio como da Revolta da Vacina.






Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide


O livro
Fortalea, 1904. Zelito vive sob a sombra do irmão e da pressão do pai para ser alguém na vida. Seu sonho é se tornar ilustrador e viver de sua arte, mas seu pai não confia muito nessa decisão e lhe dá um ultimato quando Zelito vai para o Rio de Janeiro: ele tem seis meses para ser alguém na vida. Assim Zelito procura emprego nos jornais, procurando por uma colocação como ilustrador, mas ninguém da bola para sua arte que, aliás, é até criticada por alguns.

Resenha: Revolta da Vacina, de André Diniz


O Rio de Janeiro, na √©poca, era um caldeir√£o prestes a explodir. O pa√≠s ainda se ajustava ao novo sistema de governo, saindo de um imp√©rio e inaugurando a rep√ļblica. Uma crise sanit√°ria tamb√©m se instalava. Tifo, var√≠ola, tuberculose, peste bub√īnica, febre amarela, eram doen√ßas end√™micas e que ceifavam vida todos os anos. A cidade n√£o contava com saneamento b√°sico e para uma crise social se instalava com a falta de casas para a crescente popula√ß√£o da capital federal, composta principalmente por escravizados libertos, por√©m escorra√ßados da vibrante cidade. Tinha tudo para dar merda. E deu.

O motim que levou √† revolta foi a obrigatoriedade da vacina√ß√£o contra a var√≠ola, mas depois soube-se que havia outros interesses pol√≠ticos por tr√°s do levante. Mas com rela√ß√£o √† vacina√ß√£o, muita gente ficou indignada de ter que abrir as portas das casas para agentes de sa√ļde e ainda por cima ter que ver as partes pudentes das senhoras. O projeto tamb√©m exigia comprovantes de vacina√ß√£o para a realiza√ß√£o de matr√≠culas nas escolas, para obten√ß√£o de empregos, viagens, hospedagens e casamentos.

No meio dessa zona toda está Zelito. E foi bem curioso o caminho que André tomou com esse personagem. Normalmente nós esperaríamos que ele fosse um herói, que estivesse do lado certo da história, mas Zelito não apenas está do lado dos revoltosos antivacinação como também é uma mala sem alça. Ele é intragável, grosso, metido a besta, que não tolera críticas e arruma confusão por bobagem.

Todo em preto e branco, a arte de André lembra aquela que vemos em cordéis e ficou perfeita. A impressão que dá é que as páginas foram todas carimbadas com as cenas dos quadros. Em sua trajetória, Zelito encontra várias pessoas, alguns interesses amorosos, tudo isso bem retratado pela arte quase cubista do autor. Se no começo a gente até sente uma certa empatia por Zelito, perto do final a gente tá torcendo para que ele se estrepe.



— Aqui diz que voc√™ foi vacinado contra var√≠ola. Confirma isso?
— Confirmo. Afinal, n√£o tive escolha, n√£o √©? A companhia imp√īs a vacina a todos os trabalhadores, como o senhor fez no rio, seis anos atr√°s.
— Voc√™ queria escolha para qu√™? Para morrer?

P√°gina 119

No final do quadrinho temos um excelente posf√°cio do historiador Luiz Ant√īnio Simas e charges da √©poca, ironizando a postura de Oswaldo Cruz que, ali√°s, faz uma pontinha na jornada de Zelito.

A edi√ß√£o vem em capa dura e acabamento macio, com papel encorpado no miolo. Se voc√™ comprar pelo site da DarkSide, ganha brinde especial! N√£o encontrei problemas nos bal√Ķes de texto nem na diagrama√ß√£o. √Č uma edi√ß√£o que n√£o apenas nos faz pensar em uma revolta de mais de 100 anos atr√°s, mas que tamb√©m nos faz refletir sobre esse mundo que atravessa neste momento uma pandemia.


Obra e realidade
Quando eu assistia a The Walking Dead, ficava irritada com certas atitudes dos personagens. Ficava revoltada de verdade com algumas burrices que eles faziam. Corta para 2020. √Č gente tomando √°gua quente pra "matar o coronav√≠rus" na garganta. √Č gente usando verm√≠fugo para tratar um v√≠rus, bem com um antibi√≥tico. √Č gente sugerindo que √© s√≥ uma "gripezinha", que n√£o se deve fazer isolamento, que a vacina tem chip para controle mental e por a√≠ vai. √Č a√≠ que a gente percebe que as pessoas acreditam em absolutamente qualquer coisa, s√£o altamente influenci√°veis e podem colocar a vida em risco por bobagem. Exatamente como em The Walking Dead.

Outra coisa que ficou bastante √≥bvia com a pandemia √© que os mesmos erros cometidos nas anteriores foram repetidos. Em 1918 os m√©dicos tamb√©m receitavam cloroquina contra a influenza, pois havia um mito de que o medicamente serviria para tratar qualquer tipo de febre, j√° que seu componente principal tratava a mal√°ria, conhecida por suas febres. Tamb√©m tinha, j√° naquela √©poca, demagogo de discurso f√°cil indo contra as recomenda√ß√Ķes das autoridades de sa√ļde e vendo as mortes subirem cada vez mais. Relatos da √©poca contam sobre o sil√™ncio das ruas e o martelar incessante das f√°bricas de caix√Ķes. Quando n√£o se aprende nada com a hist√≥ria, ela se repete.

André Diniz


André Diniz é um quadrinista brasileiro. Começou a trabalhar com quadrinhos em 1994 com o fanzine Grandes Enigmas da Humanidade, que chegou a ter uma tiragem de 5.000 exemplares.


Pontos positivos
Traço
Bem escrito
Revolta da vacina
Pontos negativos
Personagem mala
Violência

Título: Revolta da Vacina
Autor: André Diniz
Editora: DarkSide (selo Graphic Novel)
P√°ginas: 176
Ano de lançamento: 2021
Onde comprar: na Amazon ou a loja da DakrSide com brinde exclusivo!


Avaliação do MS?
Em um momento de tanto medo e desinforma√ß√£o, √© preciso confiarmos na ci√™ncia e seguir as recomenda√ß√Ķes das autoridades de sa√ļde. O que o quadrinho nos mostra √© um cen√°rio bastante conhecido e que vai se repetir na pr√≥xima pandemia, com a ignor√Ęncia sendo abra√ßada por muitos. Gostaria de dizer que n√≥s aprendemos com a hist√≥ria, mas infelizmente n√£o √© verdade. Quatro aliens para o livro e uma forte recomenda√ß√£o para voc√™ ler tamb√©m!




At√© mais! ūüíČ


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