Como começar a ler os clássicos?

Na postagem anterior sobre Por que ler os clássicos?, comentei que teria uma postagem sobre começar a ler os clássicos. Às vezes a gente vê tanta opção que não sabe por onde começar, nem por qual estilo, autora ou época. Eu sabia que alguns livros não seriam ideias para mim, então peguei algumas dicas para começar que, acredito, podem ser úteis para você.

Como começar a ler os clássicos?
A Young Man Reading by Candlelight, de Matthias Stom





Gosto literário é algo muito pessoal. Se eu fizer alguma indicação de livro é apenas como exemplo de obra e não como uma obrigação para que você leia. Também sei que nesta pandemia nem todo mundo está conseguindo ler como antes. Até os gostos literários mudaram. Pode ser que você já seja alguém que lia os clássicos com frequência e parou. Pode ser que você tivesse medo dos clássicos e agora resolveu se aventurar neles. Se você é essa última pessoa, então o texto pode acabar te ajudando.


Pense no que você já gosta
O que exatamente te atrai em um livro? São tramas de espionagem e investigação? São histórias de romance e casamento? Literatura contemporânea está imersa nos mesmos dilemas, problemas, soluções e pensamentos de obras clássicas. Por exemplo, se você curte as obras de Colson Whitehead ou de Ta-Nahesi Coates, então é bem provável que vá curtir livros de James Baldwin ou de W.E.B. DuBois. Se você encontrar o fio condutor entre as obras e autores, vai encontrar obras mais antigas e clássicas que você pode curtir.

Quem quer ler e desfrutar de livros clássicos é alguém que já gosta de ler. É só garimpar nomes que estejam associados a obras contemporâneas que você encontra obras clássicas que serviram de fonte. Quem leu Jogos Vorazes pode se interessar por 1984 e por aí vai.


Comece pelo mais fácil
Quando a gente joga um videogame, não começamos no nível mais difícil. A gente vem pelo mais fácil e, lentamente, vamos aprimorando as habilidades, até subir de nível. Na leitura é a mesma coisa. Aquele livro que dez anos atrás lhe parecia ininteligível, hoje parecerá bem mais palatável. Nossa leitura evolui conforme lemos e absorvemos mais e mais informações das leituras que fazemos.

Dessa forma, tire um tempinho para bisbilhotar os livros e sua linguagem, sua narrativa. Sentiu que complicou? Então talvez agora não seja a hora para ler esse livro. Sentiu que fluiu legal? Então pode investir. No colégio eu achava a leitura de Machado de Assis como uma caixa fechada e inviolável. Não conseguia entender nada. Mas lendo contos dele e de outros autores da mesma época recentemente foi bem mais tranquilo.

Peguei a edição de Jane Eyre, lançada pela José Olympio e, para a minha surpresa, a leitura foi muito tranquila. Até um tempo atrás eu sentia que livros clássicos não eram para mim e me espantei ao ver que não era nada tão complicado quando eu achava que seria. E leia os textos introdutórios para se situar no tempo e espaço. Eles estão lá para isso e para te ajudar a caminhar pela leitura.


Compartilhe e socialize
Grupos de leitura de clássicos podem ajudar muito a passar por momentos complicados da leitura. Além disso, as percepções das outras pessoas podem te ajudar a compreender melhor o contexto, quem sabe captar sensações e informações que você não captou antes. Se você usa sites que servem para marcar leituras, como o Skoob e o Goodreads, compartilhe suas percepções sobre a leitura e comece a conversar com outras pessoas que já leram ou estejam lendo.

Mesmo que você compartilhe no Twitter ou no Facebook algo como "gente, estou lendo Os Três Mosqueteiros e estou apanhando do livro" alguém muito provavelmente virá em seu socorro. A leitura não precisa ser um ato solitário.


Não tenha medo de largar o livro
Se a leitura não estiver funcionando em um determinado momento, pode largar o livro. Ele não vai ficar chateado com você. Tem horas que não dá mesmo, então é melhor parar. Nem todo livro funciona com todo mundo e está tudo bem. Mesmo. Se isso acontecer, tenha listas prontas com outros livros e tente de novo. Quem sabe dessa vez você consegue.

Existem livros como Moby Dick, Ulisses e Graça Infinita que não é toda leitora que consegue embarcar. Eu mesma não consegui. Esses talvez só funcionem quando eu tiver meus 70 anos. Mas agora eu tentei e não foi. Fazer o que? Acontece! Muita gente tem a percepção de que livros clássicos são rebuscados e difíceis de ler. Mas isso acontece até em obras mais contemporâneas. Então não se desespere se a leitura agora não fluir. Para para o próximo livro.


Procure clássicos em outros gêneros
Já parou para pensar quais são os livros clássicos de ficção científica brasileira? Ou francesa? E a fantasia brasileira, quais são os clássicos, aqueles que a comunidade contempla como leitura obrigatória, que estabeleceu ou quebrou tradições dentro do gênero? É claro que Dom Casmurro, Orgulho e Preconceito, Jane Eyre, A Cabana do Pai Tomás, são todas obras clássicas e importantes, mas não representam toda a literatura do mundo.

Às vezes o que você precisa é só dar uma variada, sair do realismo e encarar obras especulativas. Se a realidade estiver difícil de digerir, talvez num novo mundo, de uma outra era, consiga te tirar da ressaca literária.


Não se assuste com termos e palavras difíceis
Livros clássicos podem ter sido escritos muitos anos atrás, então os termos podem ter caído em desuso. Por isso leia no Kindle (ou em em e-reader ou app de leitura preferido), pois eles possuem dicionários. E se não tiver, você pode baixar. Caso você esteja lendo um livro físico, tenha um dicionário ao lado ou o celular (mas mantenha as notificações desligadas para não atrapalhar a leitura!). No meu celular tenho dois, um em português, outro em inglês. Pintou uma dúvida, eu vou lá dar uma olhada.

Leitura é um exercício que nos ajuda a melhorar o vocabulário. E o idioma é muito rico para estarmos presas às mesmas palavras e termos a cada livro lido. Sempre achei muito legal descobrir novas palavras, suas origens e significados e conforme o entendimento e o uso mudam ao longo do tempo.


E lembre-se...
Apesar de sempre falarmos dos clássicos isso ou aquilo, a discussão sobre o que torna um livro clássico é ampla e sem fim. Não existe a lista única, exclusiva e definitiva de clássicos mundiais. Eles não são oficialmente canonizados, onde são necessários três milagres documentados e rafificados pelo papa. Livros se tornam cânones quando gente importante do meio literário e/ou acadêmico concorda que eles são bons. E por muito tempo essas pessoas eram homens brancos, heteros e cisgêneros. Muita coisa ficou de fora.

Podemos estar familiarizados com eles por serem parte de nossa cultura e sociedade? Claro que sim, mas existem muitos outros livros por aí que estão pedindo o mesmo reconhecimento. O mundo é muito grande para ficar reduzido a uma única lista de livros.


Até mais! 📖


Já que você chegou aqui...

COMPARTILHE

Seja o primeiro a comentar.

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, com Desconhecido ou Unknown no lugar do nome, em caixa alta, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.

O mesmo vale para comentários:

- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.

A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.